Críticos do O POVO elegem os 25 melhores filmes de 2025
Da brincadeira do Chico Bento aos vampiros de "Pecadores", o circuito comercial de 2025 no Brasil proporcionou grandes momentos na sala de cinema. Relembre ou descubra.
Embora a essência das listas faça cada vez menos sentido, especialmente diante de um mundo cada vez mais múltiplo na contramão do consenso, elas ainda são ferramentas interessantes para pensar o tempo em que vivemos.
Menos que uma afirmação arbitrária e universal, a ideia é que as listas possam constatar tanto os destaques conhecidos quanto fazer com que o leitor descubra novas obras.
INSTAGRAM | Confira noticias, críticas e outros conteúdos no @vidaearteopovo
Reunimos alguns dos críticos de cinema e colaboradores do Vida&Arte para compor essa lista dos 25 melhores filmes que chegaram ao circuito comercial do Brasil em 2025.
É importante lembrar que o recorte não permite a menção de filmes que foram exibidos apenas em festivais de cinema, como o cearense “Morte e Vida Madalena” ou o britânico “Hamnet”, para citar dois exemplos de filmes que causaram barulho fora da programação comercial.
Confira a lista e onde assistir cada filme:
25. Guerreiras do Kpop (Canadá), de Chris Appelhans e Maggie Kang
Nada mais 2025 do que Golden, o hit musical que marcou o maior sucesso de animação do ano da Netflix e seu icônico refrão embalando as rádios do mundo. “Então eu vou voar tão longe, onde toda dor se cure, onde nosso brilho perdure”. E a história? Um grupo de cantoras de k-pop que também são caçadoras de demônios disputam a alma de seus fãs contra uma boyband rival. Estilo não falta para essa animação que é uma grande expressão da luta interna de suas protagonistas para serem quem são. (Abdiel Anselmo, editor de imagem do Núcleo de Audiovisual do O POVO)
- Onde assistir: Netflix
24. Conclave (Reino Unido), de Edward Berger
O quão intrigante pode ser um filme sobre reuniões e articulações do sacro colégio de cardeais que irão eleger um novo pontífice, símbolo maior da Igreja Católica? Edward Berger aposta arriscado com o público que irá cativá-lo em um intrigante jogo de xadrez. Ralph Fiennes entrega mais uma grande performance marcada por sutileza e olhares confusos, curiosos e atribulados com toda a situação. Outro destaque é Isabella Rossellini, de poucas falas e curto tempo de tela, tal qual as freiras nas instituições, mas decidida e aparentemente a única em todo o jogo a prever e acertar os movimentos. (Guilherme Gonsalves, colunista de Política e crítico de cinema do O POVO). Leia a crítica.
- Onde assistir: Prime Video
23. Apocalipse nos Trópicos (Brasil), de Petra Costa
Seis anos após “Democracia em Vertigem” (2019), documentário sobre o cenário conturbado na política brasileira após o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, a cineasta Petra Costa voltou a esse universo com “Apocalipse nos Trópicos”. O filme investiga a forma como a religião e o conservadorismo moral estão entrelaçados na lógica da extrema-direita no País. Dando destaque a Silas Malafaia, acompanhando sua rotina privada, Petra revela o método raivoso do pastor e sua influência em políticos como Jair Bolsonaro. Está no páreo para uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO)
- Onde assistir: Netflix
22. Ne Zha 2 (China), de Yu Yang
A maior bilheteria de 2025 (2,15 bilhões de dólares) também se destaca por ser o maior épico lançado do ano. A obra é uma continuação direta da narrativa iniciada em "Ne Zha" (2019), livre adaptação de uma obra de mitologia chinesa chamada “Investidura dos Deuses”, que conta a história de um lorde supremo que divide a pérola do caos em duas, uma do mal e outra do bem, essa última feita para nascer como o filho de um líder de uma dinastia. Esse líder é tapeado e acaba recebendo a orbe demoníaca no lugar, ocasionando uma série de eventos catastróficos. "Ne Zha 2", eleva os conflitos do primeiro filme para uma escala épica. O filme tem cenas de ação esplendorosas, além de um humor típico de filmes de animação. Para quem busca se surpreender com o cinema de animação oriental, vale a pena dar uma olhada. (Abdiel Anselmo, editor de imagem do Núcleo de Audiovisual do O POVO)
- Onde assistir: YouTube
21. Malês (Brasil), de Antonio Pitanga
Um dos grandes atores do cinema e da TV no Brasil, Antonio Pitanga voltou à direção de longa-metragem com “Malês”. Estrelado por ele próprio e os filhos Rocco e Camila Pitanga, o filme narra a história da insurreição de muçulmanos africanos escravizados na Bahia em 1835. Para articular a densidade dessa história tão essencial para compreender a história do Brasil, o roteiro conta com narração e até saltos no tempo. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO)
- Onde assistir: em breve na Globoplay
20. Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa (Brasil), de Fernando Fraiha
O mundo cinematográfico do Maurício de Sousa tem demonstrado como as pequenas coisas são gigantes. Em "Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa", uma árvore é suficiente para ser salva - mesmo que isso signifique ir contra o dito "desenvolvimento". Em um conto infantil, o filme consegue tocar temas complexos do ambientalismo, como a relação cultural e afetiva com a natureza, a ameaça do desenvolvimento insustentável, a indiferença do mercado com as comunidades locais e o impacto da mobilização social. Especialmente quando essa mobilização vem dos jovens. Foi necessário um grupo de crianças, uma professora, uma escola e um esforço de mapeamento para garantir que uma goiabeira resistisse à pressão da economia. Expanda a temática na proporção do Brasil, e você terá a alegoria da luta ambientalista nacional. (Catalina Leite, jornalista e editora-adjunta do O POVO+) Leia a crítica.
- Disponível na Prime Video
19. Sorry, Baby (EUA), de Eva Victor
Em exibição nos cinemas
Ainda pouco conhecida no Brasil, Eva Victor chamou atenção da crítica internacional com um filme mais espinhoso do que parece à princípio. Roteirizado, dirigido e protagonizado pela própria, o filme conta a história de uma mulher que vive isolada no campo com seu gato e é obrigada a descobrir novas formas de superar um trauma. Conta ainda com as participações de Naomi Ackie e Lucas Hedges. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO)
- Onde assistir: em exibição nos cinemas
18. A Praia do Fim do Mundo (Brasil), de Petrus Cariry
Escrito por Petrus Cariry e Firmino Holanda, o filme conta a história de Helena e Alice, mãe e filha com visões opostas sobre como encarar o destino. Mesmo com a ressaca violenta do mar avançando sobre o vilarejo e ameaçando destruir sua casa, Helena quer ficar ali, esperando por alguém que sumiu sem perceber que ela mesma também está desaparecendo. Nessa relação sedutora e enigmática com o mar que lhe ameaça, a memória também pode nos levar ao "O Farol" (2019), do Robert Eggers, especialmente pela inesperada simbologia dos animais marinhos e pela relação de duas pessoas ilhadas diante do abismo, mas o que Petrus e time fazem aqui é algo muito mais humano. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a crítica.
- Onde assistir: Siara+
17. Sem Chão (Palestina/Israel), de Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor
"Eu comecei a gravar quando começamos a desaparecer”, murmura Basel Adra enquanto filma a estrada noturna até seu vilarejo em Masafer Yatta, no sul da Cisjordânia. A área vem sendo ocupada por militares israelenses que delegam a posse daquele território, operando de forma insistente, por décadas, a expulsão de todos os seus moradores. O documentário "Sem Chão" é, antes de tudo, um registro muito pessoal que testemunha o olhar de quem é invadido. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a crítica.
- Onde assistir: Filmelier+
16. Flow (Letônia), de Gints Zilbalodis
"Flow" faz dois feitos incríveis. Primeiro ao alçar uma animação independente, feita com um software totalmente gratuito, ao status de melhor filme de animação no Oscar, mesmo concorrendo contra gigantes hiper-tecnológicos da indústria. Segundo, ao nos colocar em uma posição em que raramente nos vemos: a de experimentar o mundo pelos olhos de não-humanos. Em um mundo em que os humanos deixaram apenas vestígios, acompanhamos cinco animais em uma jornada com falas em um idioma que temos dificuldade de aprender — os miados, os latidos, piados e grunhidos da natureza. Não é um filme silencioso, pelo contrário.
Ainda, os animais praticamente não são antropomorfizados. Eles agem praticamente como agiriam na realidade, forçando o público humano a realmente interpretar o que rabos, orelhas, asas e focinhos têm a nos dizer sobre suas experiências em uma Terra imprevisível. Na sua simplicidade, Flow mexe com nossas estruturas e nos entrega o prazer de refletir por horas (e até dias) a partir de perspectivas únicas. (Catalina Leite, jornalista e editora-adjunta do O POVO+) Leia a crítica.
- Onde assistir: Filmelier+
15. A Hora do Mal (EUA), de Zach Cregger
Num ano com bons títulos de terror e suspense, “A Hora do Mal” se destaca no circuito pela irreverência. Diante do mistério de crianças que desapareceram da noite pro dia, a história se afasta do susto para se aproximar da investigação ao alternar os pontos de vistas para adicionar novos segredos. A cereja do bolo é Amy Madigan na pele da Tia Gladys, uma bruxa emblemática que já marcou a cultura pop virando até fantasia no Halloween. É um filme muito mais bem-humorado do que o título faz parecer. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO)
- Onde assistir: HBO Max
14. Luta de Classes (EUA), de Spike Lee
Apesar de ter passado despercebido por crítica e público, uma das grandes surpresas do ano pertence a Spike Lee, esse diretor tão emblemático que sempre tem uma história intrigante para contar sobre a sociedade norte-americana. “Luta de Classes” teve uma exibição tímida no Festival de Cannes e pulou a estreia em cinema no Brasil para chegar direto no streaming. É um projeto arriscado. Adaptado de um filme clássico do Akira Kurosawa, o thriller acompanha um magnata da indústria musical (Denzel Washington eletrizante no papel) que precisa descer do seu pedestal quando tem o filho sequestrado. Desacreditado na atuação da polícia, ele mesmo tem que mergulhar na investigação. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO)
- Onde assistir: Apple TV
13. A Melhor Mãe do Mundo (Brasil), de Anna Muylaert
Estrelado por Shirley Cruz, Seu Jorge e Luedji Luna, a trama gira em torno de Gal, catadora de material reciclável que foge com os filhos para escapar de um relacionamento abusivo. Sem moradia e autonomia financeira, ela embarca numa jornada perigosa enquanto tenta proteger a inocência das crianças, fazendo-as acreditar que estão numa aventura. “A gente vai dormir na rua?”, pergunta um deles. Ela responde em tom alegre: “Não… A gente vai acampar!”. O elenco infantil, aliás, é um grande destaque. Benin Ayo e Rihanna Barbosa incorporam essa dupla à margem dos sonhos de forma muito natural, com humor e firmeza. Numa sinergia surpreendente com o elenco, eles são um elo essencial entre fantasia e realidade que dão força vital ao drama. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO).
- Onde assistir: Netflix
12. Homem com H (Brasil), de Esmir Filho
Depois da cinebiografia do Mamonas Assassinas e do Legião Urbana, o fã da música popular brasileira passou a temer ver seu ídolo nas telas de cinema por temer abordagens caricatas e superficiais. Mas “Homem com H” veio como um gigante, mostrando um rompimento com o modelo supérfluo, apostando mais em conflito, contexto e linguagem cinematográfica. Jesuíta Barbosa ficou tão bem como Ney Matogrosso que, por muitas vezes durante o filme, esqueci que não se tratava do próprio cantor. (Raquel Aquino, jornalista, repórter do O POVO e analista de televisão e audiovisual)
- Onde assistir: Netflix
11. Oeste Outra Vez (Brasil), de Erico Rassi
Sob a penumbra de um casebre aos pedaços que mal ilumina seu corpo curvado, a primeira aparição de Rodger Rogério traduz grande parte da gravidade trágica que o orbita: um homem que, há muito tempo, aprendeu a fazer parte da própria solidão, mesmo ainda tão agarrado a uma vitalidade cruel que não existe mais. Em "Oeste Outra Vez", todos os homens são encastelados dentro de si com uma estupidez que os impede de enxergar a própria falência, sobrando agora apenas a sujeira e a autodestruição. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a crítica.
- Onde assistir: sem previsão
10. A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil), de Rafaela Camelo
É preciso ter sensibilidade para tratar de assuntos sensíveis com leveza. "A Natureza das Coisas Invisíveis", primeiro longa-metragem da diretora Rafaela Camelo, contrasta diferentes ópticas de luto por meio do olhar de crianças. As atuações das jovens Laura Brandão e Serena guiam o público na história que começa em um hospital e se transporta para o sítio da avó de uma delas. Juntas, elas entendem a amizade como ponto de apoio e abertura para descobertas. (Lara Montezuma, jornalista e coordenadora de jornalismo do Vida&Arte)
- Onde assitir: em exibição nos cinemas
9. Bird (Reino Unido), de Andrea Arnold
“Vai ficar tudo bem”, revela como se fosse capaz de ver o futuro. A garota, do outro lado, precisa aceitar. É tudo muito simples neste novo filme da Andrea Arnold, dos gestos mais comuns até o delírio sobrenatural. À primeira vista, pode até parecer que esta história de uma garota deslocada da sua família é uma clássica jornada de amadurecimento, os chamados “coming-of-age”, mas o ponto mais dramático deste filme quer nos levar para outro lugar. Neste pequeno grande filme que é “Bird”, a melancolia dos esquecidos pode ser também um delicioso segredo. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a crítica.
- Onde assistir: MUBI
8. O Último Azul (Brasil), de Gabriel Mascaro
Com apenas 87 minutos de duração, “O Último Azul” estreou no final de agosto deste ano e a experiência de assisti-lo foi uma grata surpresa. Fui ao cinema acompanhada de uma criança neurodivergente de 11 anos e ambos ficaram vidrados durante a rápida sessão. A distopia brasileira debate temas como etarismo, liberdade e a ressignificação da vida na velhice de modo sensível e impactante, modo que fez até o meu mini acompanhante chegar em casa cheio de novas ideias para discutir com a avó. (Raquel Aquino, jornalista, repórter do O POVO e analista de televisão e audiovisual)
- Onde assistir: em breve na Globoplay
7. O Reformatório Nickel (EUA), de RaMell Ross
Comum na literatura, a narração em primeira pessoa até costuma ser utilizada pelo cinema, mas sem abandonar seu observador invisível. É possível vermos de dentro? Em “O Reformatório Nickel”, o diretor RaMell Ross radicaliza esse experimento na extensão completa do seu filme. Por longas 2 horas e 20 minutos, somos colocados por detrás dos olhos de dois garotos negros que viviam nos Estados Unidos dos anos 1960 em pleno Movimento pelos Direitos Civis. Quando se conhecem num reformatório na Flórida, Elwood e Turner fazem da amizade uma aliança para sobreviverem à crueldade que era viver naquele lugar hostil e profundamente racista. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a crítica.
- Onde assistir: Prime Video
6. Uma Batalha Após a Outra (EUA), de Paul Thomas Anderson
Um ex-revolucionário em fuga tenta proteger sua filha de um coronel que almeja ser reconhecido por uma instituição supremacista branca. A premissa de “Uma batalha após a outra” não dá conta de tudo que acontece no mais novo filme de Paul Thomas Anderson. Consegue ser tanto um suspense político repleto de cenas de ação e paranóia, como também imprime um humor ácido e corporal sustentado principalmente por Leonardo DiCaprio e Benicio Del Toro. Um comentário satírico sobre os extremos políticos dos EUA. (Abdiel Anselmo, editor de imagem do Núcleo de Audiovisual do O POVO). Leia a crítica.
- Onde assistir: HBO Max
5. Manas (Brasil), de Marianna Brennand
Kleber Mendonça Filho constrói um thriller inteligente no qual a espionagem funciona como alegoria de um país moldado pela vigilância e pela repressão da época da ditadura. O filme amplia o olhar tradicional sobre esse período histórico ao deslocar o foco para o Nordeste, descentralizando a narrativa da ditadura frequentemente concentrada no Sul e Sudeste do país.
O longa rejeita o suspense convencional para apostar na construção de uma atmosfera carregada de tensão histórica, repleta de referências culturais que operam como metáforas de resistência e memória. Um exemplo marcante é a imagem dos cinemas da cidade sendo substituídos por prédios burocráticos, gesto simbólico que representa a destruição da memória coletiva e o apagamento da cultura local. Trata-se de uma obra que observa o Brasil com lucidez e inquietação, refletindo sobre poder, vigilância e esquecimento. (Jansen Lucas, coordenador de Criação do O POVO, crítico de cinema e colunista do O POVO+). Leia a crítica.
- Onde assistir: Telecine
4. Valor Sentimental (Noruega), de Joachim Trier
Na trama, Gustav Borg (Stellan Skarsgard) é um cineasta renomado da Noruega que está mergulhado no processo criativo do seu novo filme. Num café da tarde ocasional com Nora (Renate), como se fosse uma conversa trivial entre parentes íntimos e amorosos, ele revela ter escrito um roteiro para ela ser a atriz principal. "Mas você nunca me viu atuar", a filha responde diretamente, silenciosamente indignada. Ela sabe que, por debaixo desse convite, está um egocêntrico pedido de desculpas. A distância emocional e afetiva entre eles, porém, marcada por muitos anos de negligência, tem feridas demais para cicatrizar. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia as entrevistas com Joachim Trier, Stellan Skarsgard e Renate Reinsve.
- Onde assistir: em exibição nos cinemas
3. Foi Apenas um Acidente (Irã), de Jafar Panahi
A trama começa dentro de um carro, cenário habitual do cinema iraniano pela facilidade de se filmar em segredo, acompanhando um casal aparentemente simpático. Após atropelar um cachorro, o motorista precisa passar numa oficina e o que ele não poderia imaginar é que um dos mecânicos o reconheceria como alguém que o torturou na prisão. Jafar Panahi cumpre mais um novo capítulo dessa sua missão árdua de persistir como um artista que faz arte da sua própria perseguição. Talvez em texto esse discurso soe condescendente a um contexto “meramente político”, mas basta assistir a qualquer um de seus filmes para compreender a genialidade que há na forma como ele lida com essa criação. Depois de mais de uma década tentando podá-lo, chega a ser engraçado o Governo do Irã ainda não ter entendido o óbvio: quanto mais arremessarem Panahi à margem, mais ele vai transformá-la num centro. (Arthur Gadelha, jornalista e crítico de cinema do O POVO) Leia a entrevista com Jafar Panahi.
- Onde assistir: em exibição nos cinemas
2. O Agente Secreto (Brasil), de Kleber Mendonça Filho
Em exibição nos cinemas
Kleber Mendonça Filho constrói um thriller inteligente no qual a espionagem funciona como alegoria de um país moldado pela vigilância e pela repressão da época da ditadura. O filme amplia o olhar tradicional sobre esse período histórico ao deslocar o foco para o Nordeste, descentralizando a narrativa da ditadura frequentemente concentrada no Sul e Sudeste do país.
O longa rejeita o suspense convencional para apostar na construção de uma atmosfera carregada de tensão histórica, repleta de referências culturais que operam como metáforas de resistência e memória. Um exemplo marcante é a imagem dos cinemas da cidade sendo substituídos por prédios burocráticos, gesto simbólico que representa a destruição da memória coletiva e o apagamento da cultura local. Trata-se de uma obra que observa o Brasil com lucidez e inquietação, refletindo sobre poder, vigilância e esquecimento. (Jansen Lucas, coordenador de Criação do O POVO, crítico de cinema e colunista do O POVO+)
- Onde assistir: em exibição nos cinemas
1. Pecadores (EUA), de Ryan Coogler
Disponível na HBO Max
Para os desavisados, Ryan Coogler e Michael B. Jordan nos últimos anos entregaram quatro grandes parcerias, estamos falando aqui do “Fruitvale Station: A Última Parada” (2013), “Creed” (2015), “Pantera Negra” (2018) e “Pecadores” (2025). "Pecadores" é, de fato, o auge desse quarteto. É tanto um filme horror, um musical repleto de blues e músicas tradicionais irlandesas, um drama e um filme de ação. B. Jordan entrega uma dupla atuação marcante e frenética. Não há um segundo sobrando, uma atuação destoante, a harmonia ritualística que impera aqui te seduz e aprisiona até o sol raiar. É melhor não sair antes do fim. Estejam avisados. (Abdiel Anselmo, editor de imagem do Núcleo de Audiovisual do O POVO)
- Onde assistir: HBO Max