Novela de Manoel Carlos influenciou na criação de três leis; veja quais
Transmitida em 2003, "Mulheres Apaixonadas" levantou discussões sobre violência doméstica, armamento e maus tratos contra idosos
As novelas do autor e diretor Manoel Carlos, falecido neste sábado, 11, ficaram conhecidas não só por abordar a realidade do país, mas também por mudá-la. O maior exemplo disso é "Mulheres Apaixonadas", trama exibida ao longo do ano de 2003 e que teve papel crucial para a aprovação do Estatuto da Pessoa Idosa, da Lei Maria da Penha e da Lei do Desarmamento.
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Sancionadas durante ou alguns anos após a novela, as histórias vividas pelos personagens de Mulheres Apaixonadas levaram um debate antes feito no Congresso Nacional para dentro dos lares brasileiros.
Estatuto do Idoso
A primeira delas foi o Estatuto da Pessoa Idosa (à época ainda Estatuto do Idoso). A novela sensibilizou o público sobre o tema ao mostrar constantes agressões verbais, roubos e tramas da personagem Dóris, vivida pela atriz Regiane Alves, contra os avós Leopoldo (Oswaldo Lozada) e Flora (Carmem Silva).
Mesmo com o casal a salvando das broncas do pai Marcão (Marcos Caruso) e dando tudo o que estava ao alcance deles para a neta, Dóris fazia questão de humilhá-los sempre que podia.
A situação só muda no final da novela, quando a personagem, após se envolver em diversas tramas que não dão certo, é espancada pelo pai e obrigada a voltar para casa.
Na sua cena final, Dóris ajuda um casal de idosos na praia, mostrando que começara a criar a compaixão e o respeito que nunca sentiu por Leopoldo e Flora.
Enquanto o enredo indignava os brasileiros contra as maldades cometidas pela jovem, o Estatuto do Idosos avançava no Congresso, até ser sancionado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), em 1° de outubro de 2003.
Lei Maria da Penha
Pouco esfriava a crueldade de Dóris e a volta do intervalo em 2003 trazia aos telespectadores mais uma dura realidade: a da violência contra a mulher. Raquel, personagem de Helena Ranaldi, foi perseguida e agredida pelo marido Marcos (Dan Stubach) durante a trama, chegando a inclusive mudar de cidade para fugir das surras dadas por ele com uma raquete de tênis.
A história prendeu tanto o público que uma matéria publicada pelo jornal Estadão ainda em 2003 revelou que, após a exibição da cena onde Raquel denuncia Marcos à Polícia, o número de queixas por violência contra a mulher aumentou 40% na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio de Janeiro.
Na cena em questão, Raquel é alertada sobre as punições até então extremamente brandas para violência contra mulheres no ambiente conjugal. A indignação gerada pelo apego popular à personagem foi uma dos sinais para a aprovação da Lei Maria da Penha três anos depois, em agosto de 2006.
Estatuto do Desarmamento
Por fim, uma cena específica da novela também ajudou amostrar o apoio popular à criação do Estatuto do Desarmamento. Na peça televisiva, a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) é baleada enquanto fugia de um tiroteio entre policiais e bandidos nas ruas do Leblon ao lado de Téo, vivido por Tony Ramos.
Fernanda morre e deixa até então órfão a filha Salete (Bruna Marquezine). Téo sobrevive, mas passa parte da novela em coma, ressurgindo no final para descobrir que é pai de Salete.
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A narrativa contou uma história vivida por muitos brasileiros e ajudou a sensibilizar parlamentares sobre a posse de armas no país, dificultada com a aprovação da Lei em dezembro de 2003, dois meses após o fim da novela.
Segundo estudo do Instituto Fogo Cruzado, instituição sem fins lucrativos que compila dados de tiroteios e feridos por arma de fogo em parte das capitais brasileiras, 41 pessoas foram vítimas de balas perdidas durante o ano de 2025 no Rio de Janeiro, cidade onde se passa a cena, ambientada ainda em 2003.
O problema também é visto a nível local. Na última sexta-feira, 9, duas crianças de 5 e 2 anos de idade foram baleadas durante tentativa de assassinato a um adulto no bairro José de Alencar, em Fortaleza. Ambas não correm risco de vida.
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