Cratera se abre próximo a um canal após chuvas em Fortaleza
Equipe da Secretaria Municipal da Infraestrutura já está no local para realizar os reparos, que devem durar até 15 dias
20:39 | Jan. 28, 2026
Na casa das primas Maria Aldeniza, de 86 anos, e Maria Valdina, de 87 anos, os impactos das fortes chuvas que atingiram a rua Paraguaçu, no bairro Serrinha, em Fortaleza, já se materializam em paredes úmidas e rachaduras.
O imóvel das Marias faz esquina com o trecho canalizado do Riacho Itaoca, também conhecido como Riacho da Rosinha, onde uma cratera se expandiu após o transbordamento do canal durante as precipitações.
A área, segundo a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf), precisou ser isolada, nesta quarta-feira, 28, para a realização dos reparos, que podem durar até 15 dias.
Em visita ao local, O POVO conversou com moradores sobre os efeitos das chuvas na região. O mecânico Francisco Jesus, 46, trabalha no bairro há aproximadamente três anos e explica que é comum o trecho canalizado verter durante o período chuvoso, o que ele classifica como sendo o maior desafio para os moradores.
“Traz muita doença, muito rato, mosquito. Se fizesse urbanização e fechasse ele, que nem eu já vi no outros cantos, projetos que fecham, com certeza seria bem mais interessante. Ele transborda”, argumenta, acrescentando que a via se torna perigosa para o tráfego de crianças e idosos por conta dos alagamentos constantes.
Durante a visita, uma equipe da Seinf trabalhava no local para fazer os reparos na via e reconstruir a parede lateral do canal que havia cedido.
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Os reparos, entretanto, não parecem animar tanto o mecânico Jesus, que lamenta a redução do fluxo de veículos e clientes durante a época de chuvas. Cético sobre a resolução de uma demanda que segue a mesma há anos, ele diz acreditar que não será dessa vez que o problema vai se resolver.
“Não vai mudar muita coisa, não. O certo seria depois que urbanizasse, que já tem um projeto aí em mente, que o pessoal fala que tem um projeto, projeto já que era para ter saído e não saiu ainda. Com certeza o canal é o principal, tem ruas aqui que não são asfaltadas e [falta] saneamento básico, que é direito de qualquer cidadão”, avalia.
Ruas alagadas e transbordamento do canal são desafios durante o período chuvoso
Quem trafega pelo território não precisa andar muito para encontrar ruas esburacadas e sem pavimentação. Mesmo após uma trégua da chuva, as vias permaneciam com poças de água e lama. Não é o caso da rua Paraguaçu que, mesmo com pavimento, não conseguiu resistir ao constante transbordamento do canal.
Moradora do bairro desde a década de 1980 e vizinha do trecho canalizado onde a parede lateral cedeu, Maria Menezes conta que foi acordada durante à noite de terça-feira, 27, por um jovem amigo, que correu até sua casa para informá-la sobre a "enchente".
Ela dormia no andar de cima da casa, e relata que, ao se levantar e olhar pela janela notou que a água estava “nadando por cima”, porque o canal havia entupido, criando o que ela descreveu como um “mar d’água”.
Com medo, ela confessa que não chegou a olhar de perto, mas soube que a cratera ficou aberta e que as pessoas colocaram uma peça de carro como placa de sinalização para evitar acidentes, especialmente com motoqueiros que passassem por ali.
Em um convite simpático para conhecer sua casa, ela mostrou o pequeno hall de entrada e compartilhou que, mesmo sendo um pouco mais elevado, é comum que o local fique alagado na época de chuvas, já que a rua toda costuma encher de água.
Menezes relembra ainda o medo que costuma sentir em dias chuvosos, como no caso da noite desta terça-feira, 27. Segundo ela, infiltrações em seu teto fizeram com que seus pertences e até sua cama ficassem molhados, o que a deixou nervosa.
Comerciantes lamentam isolamento da via e baixa movimentação de clientes
Ítalo Rodrigues, 23, é salgadeiro em uma padaria em frente à casa de dona Maria. Morador do bairro há cinco anos, ele confirma que é comum o surgimento de buracos e alagamentos no período chuvoso.
Sobre a cratera, ele diz que a infraestrutura da via já vinha sofrendo há aproximadamente dois meses, mas que com a intensificação das chuvas, o problema piorou. A situação, segundo ele, reduz o fluxo de clientes e atrapalha a rotina dos moradores, já que o local precisou ser isolado.
“É essa escassez aí que nós moradores sofremos a cada inverno. É assim, passam anos, anos e anos e nada muda. Sempre a mesma coisa”, conta.
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A comerciante Maria Aldeniza Queiroz, 57, também viu sua clientela reduzir. Proprietária de um bar, localizado na frente do trecho interditado, ela explica que a cratera já existia, mas ficou maior após as chuvas, tornando-se um perigo real para motoristas e pedestres.
Com a interdição, os carros precisaram atravessar pelo outro lado da rua, justamente em frente à sua casa. Por conta da mudança, ela confessa que seu maior medo é de que seus animais de estimação, criados soltos em casa, acabem correndo para a via e sejam atropelados, já que os veículos costumam circular em alta velocidade por ali.
Sobre os reparos, a comerciante conta que houve um problema com um cano, mas que recebeu garantia dos trabalhadores que a água encanada não faltaria para a comunidade. “Os meninos disseram que o serviço não ia terminar hoje, mas que a água já ia ficar encanada para não faltar para a gente”, compartilha.