Por trás do picadeiro: a rotina que transforma o circo em cidade

Por trás do picadeiro: a rotina invisível que transforma o circo em uma cidade em movimento

Logística, burocracia e adaptação diária sustentam a vida de dezenas de famílias na estrada
Atualizado às Autor Carolina Passos Tipo Notícia

Respeitável público: antes de você ocupar as cadeiras, de as luzes se acenderem e de o primeiro número atravessar o picadeiro, o circo já está em pleno funcionamento.

Ele existe antes do espetáculo e segue vivo depois que a lona se fecha. Está na estrada percorrida, no terreno negociado, nos corpos que se adaptam a cada nova cidade e nas famílias que transformam a itinerância em modo de vida.

O circo não chega sozinho. Instala-se como uma pequena cidade em movimento, com regras próprias, rotinas bem definidas, histórias acumuladas e desafios cotidianos que o público raramente vê.

Na Avenida Washington Soares, em Fortaleza, o Circo Americano ocupa um espaço que já carrega memória circense. Para quem vive essa rotina há décadas, o local se consolidou como um território tradicional para a passagem de circos.

 

“Esse local aqui da Washington Soares já é tradicional para circo. Vários circos já trabalharam aqui”, explica o chileno Mário Olavaria, gerente do Circo Americano. Responsável pela logística e pela administração, ele é um dos principais articuladores para que essa cidade móvel funcione.

“Hoje nós temos 32 carretas. É uma verdadeira mini cidade rodante”, conta. A estrutura envolve moradia, transporte, fornecimento de energia e água, segurança, alimentação e, claro, o espetáculo que o público vê sob a lona.

“Isso é algo bastante complicado, mas com o tempo, a experiência e tantos anos na mesma rotina, acaba ficando um pouco mais fácil”, aponta.

Circo é planejar o imprevisível

A chegada de um circo a uma cidade está longe de ser improvisada. O trabalho começa meses antes de a lona ser erguida, com planejamento e múltiplas frentes de ação.

“Existe uma equipe de marketing que vai na frente de todo mundo para cuidar disso: aluguel do espaço, análise do local, contato com os responsáveis”, explica Mário. As negociações envolvem proprietários de terrenos, shoppings, prefeituras e diferentes órgãos reguladores.

“Hoje em dia é mais fácil porque os locais já são costumeiros. Todo mundo se conhece, conhece os proprietários. O aluguel acaba ficando mais simples. O shopping, por exemplo, facilita bastante, porque o contato é direto com o setor de marketing”, detalha.

Ainda assim, o planejamento nunca se apoia em uma única possibilidade. “Enquanto estamos em Fortaleza, já tem gente estudando a próxima cidade. E não apenas uma cidade: precisamos ter pelo menos duas opções prontas”, afirma.

A razão é objetiva e dura: o circo não pode parar. “Pode acontecer uma catástrofe natural ou algum problema que impeça a realização do espetáculo. Por isso, precisamos sempre ter uma segunda opção, às vezes até uma terceira”, explica Mário.

A preocupação não é abstrata. “Temos cerca de 70 a 80 pessoas que dependem exclusivamente do nosso faturamento. São artistas, técnicos, montadores, bilheteiros, costureiras, produtores, famílias inteiras. Não dá para trabalhar com apenas uma alternativa. Se algo der errado, como faz?”, questiona o gerente, que também já foi acrobata e, com o passar dos anos, viu o corpo pedir pausa, optando por seguir nos bastidores.

Além da logística física, há uma burocracia extensa. “É preparar propaganda, mídia, alvarás, licenças. É muita coisa. Às vezes é até difícil explicar, porque as autoridades, em geral, não ajudam. O circo não tem incentivo, não tem apoio. Trabalha por conta própria e paga seus impostos”, ressalta.

Em Fortaleza, segundo ele, o processo ocorreu dentro da normalidade. “Está tudo certo. Tudo é feito antes de chegar. Para trabalhar, já precisamos ter todas as autorizações: Corpo de Bombeiros, licença sanitária, alvarás. É tudo normal”.

O circo como herança e escolha

Se, para a gestão, o circo é planejamento e resistência, para quem nasce nele é destino. Marcos Martinelli, equilibrista e trapezista, não conheceu outro mundo antes do picadeiro. “Começou no nascimento. A gente já nasceu no circo. Eu nasci no circo”, diz.

A tradição familiar atravessa gerações. “O tradicional de circo já nasce ali, já começa desde pequenininho”.

No caso dele, nunca houve um plano alternativo. “Nunca teve um plano B. O plano A sempre foi o circo. O plano B também é o circo”.

A vida afetiva, no entanto, precisou aprender a lidar com essa lógica itinerante. Foi em uma cidade de passagem que Marcos conheceu Andreia Freitas, assistente de palco.

Diferente dele, Andreia não vinha de uma família circense. O encontro virou paixão, mas a distância logo se impôs como obstáculo. Enquanto ele seguia com o circo, ela permanecia na cidade, presa a uma vida que não se movia na mesma velocidade.

A relação atravessou quilômetros, saudade e incertezas até que o amor falou mais alto. Andreia decidiu deixar a cidade fixa para seguir com Marcos e com o circo. O que começou como um relacionamento à distância virou projeto de vida compartilhado. Estão juntos há 12 anos e construíram uma família sob a lona.

“É muito bom para a criança”, diz Andreia sobre criar um filho no circo. Miguel, de oito anos, cresce cercado por outras crianças, trailers, ensaios e espetáculos.

“No circo tem várias crianças sempre juntas, brincando. É como um parque de diversões para criança”, afirma o casal.

A escola, no entanto, é um dos pontos mais delicados dessa rotina. “Na escola é um pouco mais complicado por estar sempre mudando”, reconhecem. Ainda assim, Andreia pondera: “A criança gosta, porque sempre faz novas amizades”.

A realidade enfrentada por famílias itinerantes como a deles é reconhecida legalmente. A Lei Federal nº 6.533/1978 assegura vaga e transferência em escolas públicas e autoriza matrícula em instituições particulares para filhos de profissionais itinerantes, mediante apresentação do certificado da escola anterior.

Há, inclusive, projetos que buscam reforçar essa obrigatoriedade e simplificar o processo, reconhecendo oficialmente o circo como domicílio.

Na prática, porém, nem sempre a legislação é suficiente para evitar constrangimentos. Famílias circenses relatam episódios de preconceito e resistência por parte de instituições que desconhecem — ou ignoram — a legislação.

A cada nova cidade, é preciso explicar, negociar, provar que aquela criança tem direito à educação, mesmo que seu endereço mude.

Miguel já começa a demonstrar curiosidade pelo universo que o cerca. “Tá começando”, diz o pai, ao falar do interesse do filho pelo circo. O futuro ainda está em aberto, mas a vivência já é formadora.

A cidade vista de dentro da lona

Para quem chega ao circo por escolha, e não por herança, o impacto é outro. A bailarina cearense Gisele Correia, 24 anos, vive essa experiência há cinco meses, tempo suficiente para transformar sua percepção de mundo.

Criada no bairro José Walter, em Fortaleza, ela fala com empolgação nos olhos sobre uma rotina que lhe parece fascinante, como se cada dia carregasse algo de estreia, inclusive nos bastidores, onde o espetáculo começa antes das luzes brilharem.

Entre camarins improvisados, figurinos pendurados e maquiagem feita por eles mesmos, tudo exige autonomia e rapidez, mesmo quando a saudade de casa aperta.

O convite veio pelas redes sociais: “Eu conheci o coreógrafo daqui de Fortaleza, o Nalbert Alburquerque. Ele fez um post no Instagram dizendo que estava precisando de bailarina. Eu me inscrevi, fiz um teste e passei”.

As roupas usadas nas apresentações ficam sob responsabilidade do elenco: se uma peça descostura pouco antes do espetáculo, são eles mesmos que costuram; o mesmo acontece quando um calçado quebra às vésperas de entrar em cena.

Quando o figurino rasga com antecedência, há tempo de levá-lo a uma costureira da cidade. A maquiagem também é feita por cada artista, no camarim, em um ritual coletivo que antecede a entrada no picadeiro.

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Para quem sempre viveu no mesmo bairro, a estrada passou a ser endereço. Ainda assim, a decisão foi acolhida pela família. “Todo mundo adorou. Todo mundo apoiou. Disseram: ‘Vai, não deixa essa oportunidade passar’”.

A rotina mudou por completo. “É totalmente diferente a vida da cidade e a vida do circo”. Além das apresentações, o dia a dia exige adaptação constante aos horários e à intensidade da programação.

Nos fins de semana, quando costumam acontecer mais espetáculos no mesmo dia, as refeições são feitas nos intervalos, encaixadas no tempo possível, antes de voltar ao camarim para trocar de roupa e retocar a maquiagem.

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Apesar do encantamento evidente com tudo o que aprende e descobre diariamente, o fator mais difícil, segundo ela, foi a distância.

“Ficar longe da família. Teve uma praça em Vitória que foi a mais difícil. Cada lugar tem uma rotina diferente. Em Vitória foi difícil criar uma rotina, bateu mais a saudade de casa. É quando a ficha cai”.

A adaptação, no entanto, veio pelo coletivo. “É mais fácil criar amizade dentro do balé. A gente convive o tempo todo. Em alguns lugares moramos juntos”.

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Fora do picadeiro, a convivência continua. “Aqui a gente só tem um ao outro. Então quase sempre saímos juntos”.

Entre ensaios, viagens, figurinos, improvisos e apresentações, Gisele segue olhando para essa vida com brilho e curiosidade, como quem ainda se surpreende com o próprio caminho.

No espetáculo, participa da abertura, do encerramento e de números intermediários. “A gente dança a abertura do espetáculo, faz a abertura da corda, depois volta para a abertura do pole aéreo, faz o número da magia”.

Antes disso, o circo nunca tinha passado por seus planos. “Nunca tinha passado pela minha cabeça viver essa vida”. Hoje, não estabelece prazo. “Vou viver aqui até quando der, até quando Deus permitir". Ao ser perguntada sobre como definiria sua vida agora, responde sem hesitar: “Coragem”.

Circo: de pai para filho

Se a artista aérea habita o risco visível da altura, os palhaços operam outro tipo de risco: o da exposição emocional. São eles que rompem o silêncio, atravessam o espetáculo com humor, improviso e escuta do público. Dentro e fora do picadeiro, carregam uma função ancestral: provocar riso em meio à instabilidade.

Nem todos, porém, se entregam de imediato. Nos bastidores, longe da lona, o riso costuma surgir depois da confiança construída aos poucos.

Foi assim com os palhaços do Circo Americano: encontrados inicialmente entre um trailer e outro, eles ficaram contidos diante da equipe do O POVO.

Antes de chegarem a Fortaleza, eles estavam em São Paulo, onde permanecem os trailers em que moram. Convidados para integrar a temporada do Circo Americano na capital cearense, vieram sem a própria casa sobre rodas

Celso Alberto Stevanovich, o palhaço Matraca, estava à vontade. De nacionalidade argentina e 53 anos de idade, nasceu no circo e fala com a naturalidade de quem nunca conheceu outra forma de vida.

“Eu já nasci nisso. Minha família veio da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, e a família foi se espalhando. Alguns são do circo, outros são artistas. Hoje estou aqui com meu filho, minha esposa e minha família”, conta.

O filho - Celso Alberto Stevanovich Filho - quinta geração de uma família circense e conhecido no picadeiro como palhaço Morocó, demonstrava mais reserva. As respostas vinham curtas, medidas, em contraste com a desenvoltura que o público observa sob a lona.

Com o tempo, e já misturada à rotina do circo, a conversa ganhou outro tom. Entre uma pausa e outra, em diálogo mais informal com o repórter fotográfico Aurélio Alves, Morocó começou a se soltar.

O cenário ajudava: entre o camarim e os espaços de circulação do circo, era possível ver pessoas penduradas limpando a lona, algumas crianças correndo e brincando naquele ambiente que funciona como um grande quintal — extensão natural da casa e do trabalho.

As histórias vieram sem pressa, em pé mesmo, no corredor improvisado entre o camarim e o trailer, espaço recorrente para quem vive na estrada, ainda que, desta vez, parte da rotina esteja deslocada.

“Eu sou a quinta geração da minha família. É a primeira vez que a gente está morando em apartamento. Eu sou tradicional de circo, sempre morei em trailer, acompanhava o circo onde eu estivesse. Pela primeira vez, agora, estou vivendo essa vida de cidade”, disse Morocó.

A experiência, ainda recente, causa estranhamento. Em Fortaleza, sem os trailers que ficaram em São Paulo, a família está hospedada em hotel, algo comum para muitos, mas fora do lugar para quem sempre teve a casa sobre rodas.

“Está sendo diferente, até estranho, ficar em quarto de hotel, cumprir horários mais certinhos”, revela Matraca.

Mesmo assim, a vida itinerante continua a marcar o cotidiano. Morocó viaja ao lado da esposa, Paloma Caetano, também circense e acrobata, e neste ano recebeu convites para apresentações na Europa, reafirmando a continuidade da tradição familiar em novos territórios.

O pai observa tudo com um olhar que mistura orgulho e pragmatismo: “A gente não conhece outra forma de vida. Sempre é mudança”.

A rotina, segundo ele, é pesada: desmontagem, estrada, montagem e espetáculo, quase sem pausas. “Domingo desmonta, segunda guarda tudo, terça desmonta o resto, quinta já está em outra cidade montando tudo de novo”, relata Morocó.

Ainda assim, o riso precisa acontecer, independentemente do público. “Às vezes tem pouco público, mas o espetáculo acontece do mesmo jeito. Já trabalhamos para duas, seis pessoas. A gente é profissional: entra, abre a cortina e faz como se estivesse lotado”, expõe o palhaço Matraca.

No Natal e no Réveillon, as celebrações são coletivas. “Não é solitário. A gente se reúne, faz amigo secreto,  celebra junto. Aqui todo mundo é muito unido”, detalha Celso pai, aos risos.

Fora do picadeiro, o descanso é prioridade. “Quem é você quando não está no picadeiro?”, foi a pergunta. “Fico descansando”, respondeu Matraca, sem rodeios.

Fortaleza, segundo ele, ocupa um lugar especial nessa trajetória. “É uma cidade que a gente ama. Ficamos três anos aqui durante a pandemia, conhecemos tudo e gostamos muito”, diz o palhaço Moroco.

A pandemia, aliás, aparece como uma ferida comum entre os artistas. “Foi muito difícil para nós. O circo foi a última atividade a ser liberada”. O que mais doeu, segundo ele, foi estar no trailer — sua casa — sem poder se apresentar.

Entre silêncios iniciais, histórias compartilhadas e risos que surgem aos poucos, os palhaços revelam que, longe do palco, o espetáculo também exige tempo, escuta e convivência. O riso que chega fácil ao público, nos bastidores, é construído com cuidado.

O corpo que desafia a altura e a saudade:

Se o circo se organiza como uma cidade em movimento, é no corpo dos artistas que essa mobilidade se materializa de forma mais radical.

No alto da lona, a mais de dez metros do chão, a artista aérea Alyona Dronik constrói uma narrativa de risco e força.

Durante a entrevista, essa dimensão internacional do circo se fazia presente também fora do picadeiro. Entre camarins e áreas de circulação, era possível ouvir diferentes idiomas sendo falados ao mesmo tempo (espanhol, inglês, ucraniano) em conversas que atravessavam o cotidiano do elenco e reforçavam a ideia de um território onde fronteiras se dissolvem.

Ucraniana e bailarina de formação, Alyona Dronik vive do circo há de 15 anos e define a própria trajetória como um movimento contínuo. “Eu tenho uma família normal e todos os meus familiares têm trabalhos normais. O circo entrou na minha vida por escolha, por fascínio”, diz.

A primeira faísca aconteceu ainda jovem, quando assistiu a um espetáculo na China: “Quando eu tinha 18 anos, eu vi um circo, vi essa mágica, essa altura, e tive um sonho de trabalhar nele”.

Pouco tempo depois, o sonho virou realidade. “Eu comecei a trabalhar na China, em um circo muito grande, com 22 metros. Foi o primeiro grande circo que eu vi”.

A experiência foi determinante. Vinda da dança, Alyona se encantou especialmente pela verticalidade. Antes de chegar ao Brasil, integrou elencos de circos no Chile, Peru e Colômbia, construindo uma trajetória internacional marcada pelo deslocamento.

Para que essa história pudesse ser contada, a conversa aconteceu com a mediação do palhaço Morocó, Celso Alberto Stevanovich Filho, que fala espanhol e acompanhou toda a entrevista, traduzindo cada resposta de Alyona e garantindo que suas palavras chegassem com fidelidade.

Longe da ideia romantizada de aventura permanente, a vida aérea exige disciplina. Nos momentos fora do picadeiro, Alyona estuda idiomas — inglês, espanhol e, mais recentemente, português — e se dedica à vida familiar.

O filho acompanha a rotina itinerante e estuda em uma escola on-line, sediada em Genebra, como forma de garantir continuidade nos estudos, mesmo em meio às viagens.

Mas se há algo que atravessa a rotina de quem vive nos bastidores do circo é a saudade. Ela reforça: “Sinto falta da minha família e da minha mãe todos os dias”.

A distância é atravessada também por uma preocupação permanente. O contexto da guerra em curso na Ucrânia, país onde vive parte de sua família, adiciona uma camada silenciosa de tensão à rotina itinerante, que convive diariamente com a apreensão por quem ficou.

Curiosamente, o período mais desafiador não é quando o trabalho é intenso, mas quando ele falta. “Quando não temos trabalho, é muito difícil para nós, porque podemos perder a forma física e também o peso. Precisamos manter um bom peso para o nosso trabalho. O corpo, ferramenta central do número, precisa estar sempre pronto”.

No picadeiro, Alyona divide a cena com o marido, Dmytro, em um número aéreo que constrói uma narrativa de amor e parceria. “É um ato romântico, sobre o amor, sobre o apoio dentro da parceria. Sempre juntos, em cima, embaixo, em todas as situações”. A confiança ali não é metáfora: é literal.

Além do duo, ela também participa de um número coletivo, com quatro artistas, em que a noção de equipe se intensifica. “É como se fosse um time. Precisamos de duas pessoas maiores, porque elas sustentam um cano grande, e eu fico pendurada. Precisa ter muita confiança”.

Os ensaios seguem a lógica da estrada. “Quando trabalhamos todos os dias, não precisamos ensaiar. O próprio show já é como um ensaio”. Quando há pausas maiores entre contratos, o treino volta a ser prioridade.

Questionada se já pensou em desistir, Alyona é direta: “Não”. A única possibilidade de saída seria imposta pelo corpo. “Só quando eu não puder mais fazer isso, depois dos 45 ou 50 anos. Só quando o corpo não aguentar mais”.

Homem-Bala

A vida circense de quem não nasce em uma família de circo costuma começar por acaso, mas se sustenta pela persistência.

É assim com Rubén González, artista aéreo e homem-bala do Circo Americano. Colombiano de origem, ele encontrou no Brasil não apenas um país para trabalhar, mas um lugar para chamar de casa.

“Minha paixão começou porque eu sempre gostei de fazer acrobacia, essas coisas”, conta, ao lembrar dos primeiros contatos com a arte que mudaria sua trajetória.

O convite veio do pai, quando carretas de um circo chegaram à cidade onde viviam. “Ele disse: ‘Ei, tem um monte de carreta aqui cheia de coisas de palhaço, acho que é um circo. Vai lá, sempre tem vaga para trabalhar’”, recorda Rubén.

O que começou como curiosidade virou rotina. “Entrei no circo, comecei a trabalhar, fiz várias coisas. Gostei do negócio e falei: ‘Eu consigo fazer algo nesse palco’”, diz.

Aos 34 anos, Rubén soma 16 anos de estrada, passando por diferentes circos e países. Foi fora da Colômbia que ampliou horizontes, mas foi no Brasil que decidiu fincar raízes.

“Quando cheguei aqui, foi o país que eu mais gostei. Na hora eu falei: ‘Vou tirar todos os documentos, quero ser brasileiro’”, afirma. Hoje, naturalizado, ele fala do País com pertencimento.

 

No dia a dia, Rubén mora em trailer, a poucos metros do trabalho. Em dias de folga, prefere praias ou descanso, antes de voltar ao picadeiro para seus dois números: pole aéreo e homem-bala. Ao projetar o futuro, não se vê longe da lona tão cedo. “Constância”, responde, ao definir a própria vida em uma palavra.

Uma escolha que traduz não só a permanência no circo, mas o esforço contínuo de quem vive para sustentar o espetáculo.

Quando o Circo Americano partir para a próxima praça, levará consigo o sotaque ucraniano de Alyona, a herança de Morocó, a logística de Mário e a coragem de Gisele e Rubén.

Para Fortaleza, restará apenas o terreno vazio e a expectativa da próxima lona que, em breve, voltará a erguer uma cidade inteira em apenas uma noite.

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