Adolescente salva primo de engasgo; Lei obriga escolas a ensinar como agir
Um adolescente fez a Manobra de Heimlich e conseguiu salvar o primo, que se engasgou com comida. Lei Lucas, de 2018, criada após a morte de uma criança, obriga que as escolas tenham noções de primeiros socorros
Um vídeo que mostra um adolescente aplicando a manobra de Heimlich em outro garoto, em Fortaleza, repercutiu nas redes sociais no fim de semana.
Um deles acabou se engasgando e foi socorrido pelo primo que realizou um procedimento crucial de primeiros socorros aplicado em situações de engasgo grave, caracterizado pela obstrução total das vias aéreas.
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A cena alerta sobre a necessidade de conhecimento acerca dos primeiros socorros em situações de emergência.
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Segundo Yury Tavares, médico emergencista e diretor de educação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a importância de conhecer e saber aplicar a Manobra de Heimlich é fundamental para salvar vidas.
“A gente precisa disseminar esse conhecimento para todo mundo. A gente acha que é só profissional da saúde que precisa saber, e não é. Na verdade, é quem tá em casa que salva. Por isso que a gente tem essa missão de treinar tanto crianças que estão lá, irmãos, primos, como pais e mães também, professores de escolas e de creches”, diz Yury.
Lei Lucas obriga ensino de primeiro socorros em escolas
Para isso existe a Lei Lucas (LEI Nº 13.722), de 2018, que obriga as escolas a terem uma noção básica de primeiros socorros, capacitando profissionais e coordenadores para evitar tragédias como o engasgo.
Esta lei surgiu após o engasgo de uma criança chamada Lucas Begali com um cachorro-quente em um passeio escolar.
As escolas particulares podem contratar empresas especializadas para essa capacitação, enquanto escolas públicas (municipais e estaduais) podem solicitar o Corpo de Bombeiros via ofício para realizar a capacitação.
O Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) tem um projeto no Colégio Militar onde ensina essas manobras para adolescentes a partir do ensino médio.
A bombeira militar, do batalhão de socorro de urgência, Chayenne Costa, de 29 anos, explica a manobra de Heimlich e a relevância dos primeiros socorros, que “são ações prestadas imediatamente a uma vítima que necessita desse apoio”.
A manobra consiste em uma pressão na região do abdômen para que o objeto ou alimento que esteja obstruindo a via aérea seja expelido.
Ela é aplicada especificamente em casos de engasgo, quando ocorre a obstrução total da via aérea por “um corpo estranho”. Mas é crucial diferenciar os tipos de engasgo para aplicar a manobra corretamente.
“São dois tipos de engasgo. Engasgo leve, engasgo grave. O leve a gente engasga e consegue tossir, consegue falar, dizer que está engasgado. (...) Esse que a pessoa consegue respirar, é mais tranquilo. A gente acalma a pessoa e estimula a tosse. Mas tem aquela pessoa que engasga e não consegue respirar nem pedir ajuda, que é o caso do vídeo. A criança não consegue falar. Isso quer dizer que é o corpo estranho, aquela coisa que está obstruindo ali, não deixa a pessoa respirar. Nesse caso, a gente tem que aplicar a manobra”, explica Yuri.
A manobra deve ser realizada em situações de obstrução total da via aérea, onde a pessoa não consegue ter nenhuma entrada de ar e, consequentemente, não consegue fazer a troca gasosa.
Para Chayenne, o conhecimento de procedimentos de primeiros socorros, incluindo a Manobra de Heimlich, é crucial para salvar uma vida, especialmente porque o tempo de resposta do socorro especializado pode demorar.
“É importante ser disseminado por crianças, adultos, porque muitas vezes o tempo no qual a ação vai ser prestada vai ser crucial para salvar uma vida. Muitas vezes o socorro especializado vai chegar, mas ele pode demorar um certo período, um tempo/resposta. E se o leigo, a pessoa que vai prestar ali os primeiros socorros já estiver capacitado, isso vai ser crucial para salvar uma vida”, afirma a bombeira militar.
Ela descreve como a manobra funciona para desobstruir as vias aéreas em casos de engasgo total, enquanto para engasgos parciais, são indicadas a tosse e batidas nas costas.
Tempo é determinante
Em casos de engasgo, o tempo é determinante. Uma pessoa pode ficar inconsciente entre 4 e 6 minutos devido à obstrução. Se não tratada, a pode levar à parada respiratória e, consequentemente, à parada cardiorrespiratória.
“Em casos de engasgo, que é o chamado Ovace (Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho) ou algo que não faz parte ali do nosso corpo, ele vai variar de pessoa para pessoa, vai variar da idade, mas ele entre até 4, 6 minutos, que pode levar a uma inconsciência por conta dessa obstrução”.
Em contraste, na obstrução parcial, onde ainda há passagem de ar e o indivíduo consegue verbalizar ou falar frases, a Manobra de Heimlich não é a primeira opção. Nesses casos, a recomendação é induzir a tosse do paciente ou dar tapotagens (tapinhas nas costas) para resolver a obstrução.
Veja quais as contraindicações e os públicos especiais:
- A Manobra de Heimlich é contraindicada para crianças abaixo de um ano devido aos órgãos ainda estarem em formação, o que poderia causar traumas.
- Gestantes no final da gestação exigem um posicionamento diferente para evitar compressão do útero.
- Pessoas inconscientes exigem um protocolo distinto, focado em reanimação cardiopulmonar.
- Idosos também são considerados um público especial, pois muitos têm osteoporose e problemas ósseos, o que pode levar a complicações (como quebrar uma costela), mas o procedimento ainda pode ser realizado se os benefícios superarem os riscos.
Quais as possíveis complicações?
As complicações na aplicação da Manobra de Heimlich são mais comuns em públicos especiais, como crianças menores de um ano, gestantes e idosos (que podem ter osteoporose).
“Se eu fizer uma (manobra), eu posso causar traumas ali na região, no bebê, então ele é contraindicado para crianças menores de um ano. Na gestação, da mesma forma, eu preciso me posicionar de uma maneira diferente. Porque (...) se eu fizer uma compressão forte demais ali na região do abdômen, eu vou estar comprimindo o útero”, explica Chayenne.
Ela também comenta que, no contexto dos primeiros socorros, há a lei dos princípios e preferências, que pondera que é preferível realizar um procedimento que possa salvar a vida, mesmo que haja risco de uma complicação menor (como quebrar uma costela em uma reanimação cardiopulmonar quando o coração está parado), do que não fazer nada.
“Mas a Manobra de Heimlich em si, quando é feita de forma adequada, não vai causar complicações. É um procedimento que não é invasivo, e que deve ser disseminado nas escolas. Porque para gente o que vale é salvar vidas, seja seja a gente fazendo esse salvamento ou seja o próprio familiar, o próprio amigo, o objetivo principal é salvar vidas”, completa Chayenne.