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50 dias após a chegada das águas do São Francisco, volume do Castanhão tem pouco crescimento

Águas vindas da transposição já estão sendo utilizadas para abastecer a Região Metropolitana de Fortaleza, segundo o Conselho Estadual de Recursos Hídricos

22:47 | 29/04/2021
Pescador nas águas do açude Castanhão, em 11 de março de 2021, após águas da transposição do rio São Francisco começarem a chegar (Foto: Aurelio Alves)
Pescador nas águas do açude Castanhão, em 11 de março de 2021, após águas da transposição do rio São Francisco começarem a chegar (Foto: Aurelio Alves)

Após 50 dias da chegada das águas do São Francisco ao Castanhão, os números do maior reservatório de água do Ceará mostram um aumento do volume de água no Açude. Entretanto, o resultado da transposição não é o principal responsável pelos novos números registrados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).

Segundo o administrador do Castanhão por parte do Departamento de Obras Contra as Secas (Dnocs), Braulino Coelho, a vazão vinda do Velho Chico não possui grande representatividade nos resultados alcançados nos últimos 50 dias.

"A água do São Francisco ainda está na mesma desde quando chegou, ainda é pouca água que está vindo para o Castanhão, quase não representa nada do nível do Açude. O nível tem subido sim, mas é muito pelo fluxo do Rio Salgado e das chuvas que estão caindo em Juazeiro", relata Braulino.

Desde a chegada do São Francisco, no dia dez de março de 2021, até o dia 29 de abril, o açude teve um aumento de 1,73 metro em sua cota de água, e registrou um crescimento de 127,08 hectômetros cúbicos em seu volume, o que representa um adição de 1,89%. De acordo com o relatório diário da Cogerh, atualmente, o reservatório está com 12,23% de sua capacidade máxima.

Os números registrados são os melhores desde 23 de novembro de 2020, data em que o Castanhão atingiu 12,26% do seu volume máximo. Mesmo com a crescente dos últimos 50 dias, os números ainda são bem inferiores ao que foi registrado no mesmo período durante o último ano.

Em 2020, entre 10 de março e 29 de abril, o reservatório teve um aumento de 11,43% em seu volume, o que representou um acréscimo de 765,8 hm3 de água, o número é seis vezes maior do que o registrado no mesmo período em 2021.

De acordo com Francisco Teixeira, secretário de Recursos Hídricos, a água do São Francisco serve para complementar e manter o ritmo das chuvas e não consegue sozinha elevar o volume do Castanhão. “A eficiência foi bem efetiva em função das chuvas. Foi muito importante a transposição do São Francisco para manter o rio perenizado, manter o fluxo contínuo”, explica.

Da união entre as águas do São Francisco e das chuvas acontece um processo de “sinergia”, elabora Francisco. Quando há ausência de registros de chuva, a transposição auxilia na manutenção do funcionamento do sistema.

O secretário revela que o bombeamento do eixo norte da transposição será interrompido de 10 de maio até o final de junho para fins de manutenção e troca de válvulas das estações. Por 45 dias, a transferência de água do rio até o Castanhão será diretamente impactada.

Após esta etapa, pós-junho, será realizada uma avaliação quanto ao desempenho do processo de transferência de água, desde os rios Salgado e Jaguaribe até o açude. A partir desta análise, uma possível retomada da transposição e sua eficiência serão concordadas ou não, diz Francisco.

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No último ano, o Ceará registrou precipitações acima da média histórica durante a quadra chuvosa, os 734.3 mm registrados entre fevereiro e maio de 2020 foram a melhor marca nos últimos 10 anos. As chuvas do último ano ajudaram o Castanhão a ganhar volume, indo de 2,81% de ocupação total em janeiro, para 16,14% em junho.

Já em 2021, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) alertou que o Ceará possuía 50% de chance de chuvas abaixo da média histórica nos meses que correspondem à quadra chuvosa no Estado, de fevereiro a maio.

O cenário apresentado durante fevereiro e março de 2021 foi melhor do que o apontado como o mais provável pela Funceme para o trimestre de fevereiro a abril, e também de março a maio, já que em fevereiro e março, as chuvas alcançaram a média histórica.

Até o dia 29 de abril, o Ceará registrou 67% do que se espera de chuvas para este mês. Os dados da Funceme apontam que foram observados 125,9 milímetros de chuva em abril. O número é inferior aos 188 milímetros esperados para o período no Estado.

Mesmo com precipitações menores do que as do último ano, o administrador do Castanhão explica que o açude deve continuar subindo caso as chuvas continuem no centro-sul do Estado durante o mês de maio, mas que os números alcançados neste ano ainda ficarão distantes dos registrados em 2020.

"O nível deve continuar subindo enquanto estiver chovendo bem pelo lado do Cariri, neste mês de maio ainda deve chover mais um pouco. Não vai passar o que teve ano passado não, em 2020 o açude ganhou uns 15 metros, esse ano, até agora, ainda não tomou nem dois metros", conta Braulino.

Além das chuvas abaixo da média registrada em 2020, desde o início do mês de abril, o açude Castanhão teve parte de sua capacidade transferida para atender a Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Segundo o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Conerh), a ação envolve o volume de água fornecido pelo Projeto de Integração do São Francisco (PISF).

O volume de água enviado pelo maior reservatório de água do Estado deve ser suficiente para abastecer a RMF durante os anos de 2021 e 2022. Em março deste ano, o Ceará registrou o aporte de 0,53 bilhões de metros cúbicos, contra 2,55 bilhões no mesmo período em 2020.

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Queda dos níveis de oxigênio

Uma análise realizada no açude Castanhão, por meio do setor de Desenvolvimento Operacional da Cogerh apontou uma tendência de queda dos níveis de oxigênio da água do reservatório para o trimestre entre os meses de abril a junho de 2021.

Esse cenário, somado ao baixo volume do reservatório, que hoje possui pouco mais de 12% de sua capacidade máxima, pode resultar em ocorrência de mortandade de peixes. Ainda em 2018, o levantamento já havia apontado a relação direta entre a queda do volume do açude com o fenômeno da eutrofização, o que resulta em uma baixa concentração de oxigênio dissolvido na água.

De acordo com as amostras analisadas entre janeiro e março deste ano, há uma queda na concentração de oxigênio dissolvido nas camadas mais profundas do reservatório. Segundo Mário Barros, analista em gestão de Recursos Hídricos da Cogerh e doutor em Recursos Hídricos, o oxigênio dissolvido é o fator mais importante para a sobrevivência dos peixes no meio aquático.

“É de se esperar que, com a intensificação da estação chuvosa e o maior aporte de água vindo do rio, haja estratificações térmicas mais intensas. Esse fator, atrelado a temperaturas mais altas, dificulta a solubilidade do oxigênio para camadas mais profundas, criando um ambiente anaeróbio com proliferação de gases tóxicos, tais como amônia, gás carbônico, entre outros. Esse cenário está se iniciando discretamente, mas pode ser intensificado e resultar na mortandade de peixes”, destacou Mário.

No último dia 19, a Cogerh reuniu produtores de peixes de Alto Santo e Jaguaribara para informar que a falta de oxigênio na água pode trazer impactos para a atividade pesqueira da região. Além dos produtores de peixe, o alerta sobre a situação também foi repassado para membros dos Comitês de Bacias do Baixo e Médio Jaguaribe.

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Mensalmente, a Cogerh elabora um relatório sobre a situação do Castanhão e disponibiliza no Portal Hidrológico do Ceará. Com o levantamento, é possível avaliar a evolução na qualidade de água do açude diante da instabilidade na concentração de oxigênio dissolvido na água. O relatório do mês de abril ainda não foi divulgado. (Colaborou: Mateus Brisa)