Reunião em Brasília pode selar destino da federação União-PP no Ceará
Deputada diz que aguarda sinalização do presidente nacional para o encontro; alas do União Brasil dividem-se sobre alinhamento ou não com o governador Elmano de Freitas
Antes mesmo de ser efetivada a federação entre o União Brasil e o PP tem registrado impasses e resistência, vinculadas aos cenários regionais, envolvendo atores políticos das duas legendas. No Ceará, a disputa entre a base e a oposição ao governador Elmano de Freitas (PT) pelo controle da federação se arrasta há meses, mas pode estar perto de uma definição.
A deputada federal cearense Fernanda Pessoa (União Brasil) disse ao O POVO que a bancada do partido irá se reunir com o presidente nacional da sigla, Antônio Rueda, para que uma decisão final sobre o tema seja tomada, mas não deu detalhes sobre a data.
"Estamos aguardando. O Rueda está numa viagem internacional, já falou comigo na entrada de ano e a gente combinou de ir a Brasília", disse Fernanda, afirmando que o encontro deverá ocorrer assim que o dirigente nacional retornar. A parlamentar disse que deverão estar presentes lideranças da sigla que defendem posições antagônicas para 2026 no Ceará.
Devem participar da reunião ela e o também deputado federal Moses Rodrigues, defensores de que a sigla apoie a reeleição de Elmano (PT); o atual presidente estadual, Capitão Wagner, e o presidente do partido em Fortaleza, Roberto Cláudio, que garantem que a sigla e a federação farão oposição ao PT no Estado.
"(A reunião será) a última conversa, para poder já bater o martelo e dizer quem é o presidente do União Brasil e também com a questão da federação", disse ela. Questionada sobre qual deve ser o posicionamento, a deputada falou da expectativa de comandar o partido, como adiantou o governador Elmano em visita ao O POVO em dezembro passado.
"Olha, nós estamos esperando mais uma vez o convite do presidente. Eu estou pronta para assumir", finalizou, sorrindo.
Contraponto
No entanto, a tal reunião apontada pode nem chegar a acontecer. É o que confidenciou uma fonte do partido à reportagem, que afirmou que Rueda já teria voltado ao Brasil e que a decisão sobre o futuro da sigla já estaria tomada. A fonte, que atua em prol da oposição ao PT, deu a declaração reservadamente e não adiantou qual posicionamento teria sido definido.
Alinhamento municipal
Fernanda Pessoa era uma das presentes em evento ocorrido na manhã desta terça-feira, 13, em Maracanaú, Região Metropolitana de Fortaleza. O evento mostrou alinhamento entre o Governo do Estado e uma ala do União Brasil ligada ao prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa (União).
A agenda era a Caravana VaiVem Trabalhador, que chegou ao município comandado por Roberto Pessoa, pai de Fernanda, que também se aproximou do Partido dos Trabalhadores após a eleição de Elmano de Freitas, em 2022.
Além de pai e filha, estiveram no evento a vice-governadora Jade Romero (MDB), os deputados estaduais Julinho (PT) e Firmo Camurça (União Brasil) e secretários estaduais e municipais, além de vereadores de Maracanaú. Os discursos elogiosos de parte a parte reforçaram o alinhamento do governo estadual com a ala do partido.
"Agradecer muito a parceria do nosso governador Elmano com o prefeito Roberto Pessoa, a deputada federal Fernanda Pessoa, deputado Julinho que está aqui, várias lideranças que unem Governo do Estado e Prefeitura aqui na Região Metropolitana de Fortaleza", disse Jade.
Federação aguarda TSE
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está prestes a autorizar a criação da federação União Progressista, que reunirá os partidos União Brasil e Progressistas (PP). Para que a aliança seja válida já na eleição do próximo dia 4 de outubro, o pedido precisa ser homologado até seis meses antes do pleito, portanto, no início de abril.
Quando for oficializada, a federação reunirá 108 deputados federais — a maior bancada da Câmara — e 12 senadores, número inferior apenas aos das bancadas do PL e do PSD. Juntas, as siglas também passarão a concentrar um fundo partidário de R$ 954 milhões; além de seis governadores e 1.343 prefeitos no Brasil, o maior contingente municipal entre todos os partidos.
Pela legislação eleitoral, partidos federados devem atuar como uma única legenda por, no mínimo, quatro anos, com posição unificada nas eleições e atuação conjunta no Congresso, inclusive com liderança compartilhada. A perspectiva desse arranjo, especialmente nas composições estaduais, tem provocado tensões antes mesmo da homologação da federação.
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A federação no Ceará
No Ceará, integrantes do PP defendem a manutenção do alinhamento com o governador Elmano de Freitas, inclusive com liberação dos parlamentares para apoiar a reeleição do petista, caso a federação se posicione formalmente na oposição.
Líderes do Progressistas no Estado, o deputado federal AJ Albuquerque e o pai dele, o deputado estadual licenciado e secretário das Cidades, Zezinho Albuquerque, estão integrados à base governista e não sinalizam disposição para mudar de lado.
No União Brasil, o cenário é mais fragmentado. A sigla recebeu a filiação do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, com a promessa de formação de uma ampla frente de oposição ao PT. RC é apontado como pré-candidato ao governo, caso Ciro Gomes (PSDB) não dispute o cargo.
RC e Wagner afirmam ter recebido, do presidente nacional Antônio Rueda, a garantia de que o União Brasil — e, posteriormente, a federação — estarão na oposição no Ceará. Caso isso não se confirme, a permanência de Wagner, RC e aliados na legenda passa a ser incerta.
Na contramão disso, há os que defendem a adesão ao governo Elmano. Neste grupo estão os dois deputados federais mais votados do partido no Ceará, Moses Rodrigues e Fernanda Pessoa, que já declararam apoio à reeleição do petista. O grupo conta ainda com o prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa, e atua para consolidar uma guinada governista.
Elmano, por sua vez, não esconde o interesse em atrair a federação. Uma das duas vagas ao Senado em 2026 poderia ser destinada a Moses Rodrigues, mesmo ele integrando um grupo adversário ao de Cid Gomes (PSB) em Sobral. O movimento tem provocado ruído com outro membro da família Ferreira Gomes, o ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes, que sinalizou possibilidade de ser oposição a Elmano e apoiar o irmão, Ciro Gomes.
Ambos os campos afirmam ter recebido sinalizações favoráveis da direção nacional. Com interesses inconciliáveis, a criação da União Progressista tende a produzir vencedores e derrotados antes mesmo de sua formalização.
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