Análise: Globo de Ouro e o xeque-mate de Wagner Moura

Globo de Ouro: xeque-mate de Wagner Moura muda o jogo de "O Agente Secreto"

Vitórias históricas de "O Agente Secreto" no 83º Globo de Ouro renovam a campanha do filme brasileiro nas premiações dos EUA no rumo do Oscar.

“Eu acho que se o trauma pode ser passado de geração em geração, valores também podem. Então esse prêmio é para aqueles que estão resistindo com seus valores em momentos difíceis”, declarou Wagner Moura emocionado, no palco do luxuoso hotel The Beverly Hilton, em Los Angeles. Na sua mão, o primeiro Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama que pertence a um brasileiro.

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Minutos antes, era Kleber Mendonça Filho bradando ao microfone sobre a importância de olhar para o cinema nesse momento. “Jovens diretores da América, façam filmes!”, encerrou o discurso breve ao receber o troféu de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa junto com sua esposa e produtora do filme, Emilie Lesclaux.

Essas cenas inspiradoras, de dois artistas latino-americanos sob os holofotes de Hollywood, era o que “O Agente Secreto” precisava para seguir adiante na corrida pelas premiações que acontecem a seguir no rumo da última e mais celebrada, a 98ª edição do Oscar, que está marcada para o dia 15 de março.

Mesmo que amplamente especulada como favorita pela imprensa internacional, a vitória de Wagner Moura ainda convivia com o suspense em torno da celebração de “Pecadores”, filme de Ryan Coogler estrelado por Michael B. Jordan. O filme norte-americano, porém, acabou vencendo apenas duas das sete indicações: Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Conquista em Bilheteria. A favor da vitória também houve o fato de que os concorrentes mais fortes da temporada estavam na categoria de Melhor Ator em Comédia, como Timothée Chalamet (vencedor), Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke.

Nas últimas semanas, a presença de Moura entre as apostas para Melhor Ator no Oscar estava ameaçada por conta da sua ausência na pré-lista do Bafta (Academia Britânica) e entre os indicados ao prêmio do SAG (Sindicato dos Atores de Hollywood), chegando a ficar de fora para a súbita ascensão de Jesse Plemons (excelente em “Bugonia”). Sua conquista na madrugada desta segunda-feira, 12, no entanto, renova o combustível desse trajeto.

Alinhado a uma vitória que “Ainda Estou Aqui” não teve em 2025 na categoria internacional ao perder para “Emília Perez”, o filme pernambucano avança de forma surpreendente na busca por categorias que nem estavam no radar até então, como Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Elenco e até mesmo Melhor Direção.

Ao desbancar os favoritos “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi (Irã) e “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega), a obra lança a chance dos votantes enxergarem o quanto essa história tão brasileira e “cheia de pirraça” se relaciona com o atrito de Donald Trump contra a soberania da América Latina.

Ao contar a história de Marcelo, um professor universitário perseguido pelo poder empresarial em conluio com a estrutura da ditadura militar brasileira, Kleber e Wagner acabaram compondo uma história global sobre o que acontece quando todo um país se esquece.

No Brasil, fez até um militar se tornar presidente em plena democracia. Mas também foi o mesmo Brasil que o prendeu quando tentou planejar um novo golpe de estado. Diante da inércia do congresso americano com as ações de Trump, a pergunta extra-filme parece evidente: por que a “maior democracia do mundo” não consegue fazer o mesmo?

Esperava-se que a resposta política do Globo de Ouro caminhasse para uma premiação de Jafar Panahi, que não pode mais pisar no Irã sem ser encarcerado pelo regime teocrático da nação que, nas últimas semanas, inclusive, vem enfrentando protestos civis em larga escala. A reação, no entanto, olhou para mais perto e abraçou a sensação sufocante de condenação que a imobilidade da sociedade norte-americana parece estar imersa.

Ao vencer dois prêmios, “O Agente Secreto” empatou com grandes filmes da temporada: “Hamnet”, de Chloe Zhao, “Pecadores” e “Guerreiras do K-Pop”. Acima deles, está apenas “Uma Batalha Após a Outra”, do celebrado Paul Thomas Anderson, que venceu em quatro categorias: Roteiro, Direção, Atriz Coadjuvante (Teyana Taylor) e Filme de Comédia ou Musical.

Esse destaque não poderia acontecer num momento mais oportuno. Na tarde de segunda-feira, 12, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood abriu o período de votação para a escolha dos indicados ao Oscar, lista final que vamos conhecer apenas no dia 22 de janeiro. Se Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho repetirem o xeque-mate nessa etapa, será vez de começar uma nova partida num tabuleiro muito mais cheio de armadilhas.

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