Adoção e violência contra a mulher: como Maneco falou da vida real

Adoção e violência contra a mulher: como Maneco falou da vida real

Considerado um dos maiores novelistas do Brasil, Manoel Carlos — o Maneco — fez muito mais pelo País do que escrever folhetins

Ainda que não exista uma “receita pronta” para mudanças efetivas, muitos são os meios que levaram a transformações comportamentais no Brasil. Em um desses caminhos o nome de Manoel Carlos é referência: o merchandising social. Maneco, como era conhecido, se consagrou não apenas como um mero escritor de novelas: seu grande mérito foi retratar com sensibilidade a sociedade brasileira.

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Falecido no último sábado, 10 de janeiro, em decorrência de complicações da Doença de Parkinson, o autor paulistano é o responsável pelo sucesso das “Helenas” no Brasil. Inspirado numa deusa da mitologia, ele criou personagens de mulheres fortes e implacáveis na teledramaturgia brasileira com esse nome.

Em 2020, um de seus trabalhos mais célebres, “Laços de Família”, foi reprisado na TV Globo e impulsionou um inimaginável movimento: uma crescente meteórica de crianças nomeadas como Helena (personagem de Vera Fischer) e Miguel (interpretado por Tony Ramos). Originalmente, a trama foi exibida em 2000.

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Maneco e o merchandising social

O maior impacto dessa novela, no entanto, não foi a explosão de registros em sua homenagem, mas sim o grande movimento de conscientização sobre a leucemia e a doação de medula óssea na reta final.

Abordando a doença de Camila (Carolina Dieckmann), Maneco mobilizou o público e conseguiu um aumento expressivo no número de pessoas cadastradas como doadoras voluntárias no Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea).

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Antes da trama, o banco recebia cerca de 20 inscrições por mês. Durante e após os primeiros meses do folhetim, ele passou para 900 voluntários mensalmente. Mas esse não foi o único grande feito de Maneco, que potencializou diversas campanhas institucionais e colaborou até para a criação de novas leis brasileiras.

Manoel Carlos (1933 - 2026) foi um célebre autor de novelas brasileiras
Manoel Carlos (1933 - 2026) foi um célebre autor de novelas brasileiras Crédito: Alex Carvalho/Globo/Divulgação

Maneco e o Estatuto da Pessoa Idosa

O primeiro grande impacto ocasionou na criação do antigo Estatuto do Idoso (atual Estatuto da Pessoa Idosa). Na trama "Mulheres Apaixonadas", exibida em 2003, o novelista abordou os maus tratos à terceira idade por meio da história de Dóris (Regiane Alves) que maltratava seus avós (Leopoldo e Flora).

A comoção do público mobilizou o Congresso para a aprovação da lei de proteção ao grupo. Nas tramas “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006), Manoel Carlos também destacou a importância do respeito à pessoa idosa.

Ainda em “Mulheres Apaixonadas”, Maneco reverberou o combate à violência contra a mulher, pela história da protagonista Raquel (Helena Ranaldi) que foi perseguida e agredida pelo marido Marcos (Dan Stubach), precisando mudar de cidade para fugir das agressões.

Na época, uma reportagem do Estadão revelou que, após a exibição de uma cena em que Raquel denuncia Marcos à polícia, o número de queixas por violência contra a mulher aumentou 40% na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio de Janeiro. A repercussão deu força à criação da Lei Maria da Penha, em 2006.

Maneco e a campanha de adoção

O estímulo a adoção de crianças foi outra “cartada” de Manoel Carlos, que retratou o abandono de uma menina com Síndrome de Down rejeitada pela avó biológica, Marta (Lilia Cabral), logo após o nascimento, em “Páginas da Vida” (2006).

A luta da protagonista Helena (Regina Duarte) pela adoção da criança impulsionou a adoção de crianças com deficiência e sustentou avanços na aplicação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), e em mudanças posteriores na legislação (como a Lei Nacional da Adoção, de 2009).

A primeira novela de Maneco, “Helena”, de 1952, foi ao ar na TV Paulista (emissora que se tornou a TV Globo). Desde então, o nome se tornou uma referência para aquelas mulheres fortes e independentes, mas que sofrem por dramas familiares e amorosos. O cenário dessas histórias também entrou para o imaginário popular: o Leblon, no Rio de Janeiro.

Manoel Carlos, o Maneco (1933-2026)
Manoel Carlos, o Maneco (1933-2026) Crédito: Cristiana Isidoro/Globo/Divulgação
Maneco e o imaginário do Leblon

Foram, aliás, as novelas de Maneco um grande impacto para o imaginário e economia da Zona Sul carioca, que passou a ser associado a um espaço de afetos, debates éticos e vida cotidiana. Foi graças à Maneco que o Rio se tornou um grande símbolo cultural da televisão brasileira.

As Helenas de Manoel Carlos traziam debates acerca de liberdade feminina, etarismo, mercado de trabalho, família, maternidade e identidade. No Brasil, quase todas quiseram uma vida de Helena: com resiliência e dinheiro para enfrentar os dramas da vida enquanto bebe uma água de coco na praia próxima ao Leblon.

Maneco revolucionou a cultura televisiva, a legislação brasileira e os hábitos de comportamento no País. Falar da obra do paulistano é obrigatoriamente falar da história do Brasil.

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