Conflito entre Michelle e filhos de Bolsonaro expõe disputa por protagonismo na direita
Embates no Ceará indicaram o conflito público que hoje se estende ao comando do PL e ao debate sobre o representante do grupo na disputa presidencial de outubro
A relação entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — Flávio, Carlos e Eduardo — atravessa mais um período de turbulência, marcado por desautorizações públicas e divergências estratégicas que ecoam no Ceará e na própria disputa presidencial de 2026.
O que começou como um desentendimento sobre alianças regionais evoluiu para uma disputa de influência dentro do PL nacional, envolvendo figuras de peso como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e outros nomes da direita bolsonarista.
Estopim no Ceará: embate em palanque
A tensão entre Michelle e os enteados ganhou peso no Ceará, em 30 de novembro de 2025, durante o lançamento da pré-candidatura de Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Estado. No palco do evento, a ex-primeira-dama criticou abertamente o deputado federal André Fernandes (PL-CE) por articular uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB).
Michelle classificou a movimentação como "precipitada" e questionou o apoio a alguém que já chamou o marido de "genocida" e "ladrão de galinhas". O impacto foi imediato: Fernandes rebateu, revelando que a aproximação com Ciro tinha o aval direto de Jair Bolsonaro, inclusive com conversas por telefone, segundo relato do próprio parlamentar, e o apoio de Carlos Bolsonaro.
Resposta rápida dos enteados
A resposta dos enteados foi rápida. Em 1º de dezembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro classificou a atitude de Michelle como "autoritária e constrangedora", afirmando que ela "atropelou" uma decisão do pai dele. Eduardo e Carlos endossaram as críticas, defendendo que André Fernandes apenas obedecia às ordens do líder bolsonarista.
Embora Michelle tenha pedido perdão aos enteados em nota no dia seguinte, ela manteve posição firme contra a aliança com Ciro Gomes. O conflito resultou na suspensão, por tempo indeterminado, das negociações do PL com o líder do PSDB no Ceará. Definição ocorreu após uma reunião da cúpula nacional do partido em Brasília.
Divergência nacional
A tensão familiar escalonou novamente após um gesto de Michelle envolvendo a disputa nacional. Em 15 de janeiro, a ex-primeira-dama publicou nas redes sociais vídeos do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com críticas à economia no governo Lula.
O gesto foi interpretado como uma "indireta" ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que já havia sido oficializado pelo pai, em dezembro de 2025, como o pré-candidato do grupo à Presidência. Em uma das postagens, a mulher de Tarcísio, Cristiane, pediu "um novo CEO para o Brasil". O comentário foi curtido pela ex-primeira-dama.
A ação gerou críticas de atores da extrema direita, como o ex-blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que criticou a postura de Michelle. Ela reagiu chamando as 'Acusações levianas e injustas'.
A movimentação de Michelle ocorreu em um contexto onde pesquisas de intenção de voto mostram Tarcísio de Freitas como o nome mais competitivo contra o presidente Lula (PT), superando o desempenho de Flávio. O filho de Jair Bolsonaro reforçou, posteriormente, que não "há outra possibilidade" senão sua pré-candidatura a presidente. Ele disse não ter conversado com Michelle.
Enquanto isso
Enquanto a família divergia, Jair Bolsonaro enfrentava a transferência da Superintendência da PF para a Papudinha, após condenação por tentativa de golpe de Estado. Michelle reuniu-se com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), horas antes da transferência, tentando garantir a prisão domiciliar para o marido por razões de saúde; sem sucesso.
Tentando conter o desgaste, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo pedindo união à direita. Ele descreveu Tarcísio como um "aliado fundamental" neste ano e Michelle como peça com "papel importantíssimo", questionando: "Como a gente vai unir o Brasil se a gente não consegue unir a direita antes?".
Apesar do apelo público por pacificação, o ambiente é marcado por disputas internas. Em uma de suas primeiras solicitações após a nova prisão, Jair Bolsonaro pediu para receber a visita de Tarcísio de Freitas, gesto visto por aliados como um sinal da centralidade assumida pelo governador paulista no protagonismo político da direita — e no embate silencioso que hoje divide a família Bolsonaro e o próprio PL.
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