Parque do Cocó: visitantes relatam problemas nas trilhas
Novo gestor do Parque Estadual do Cocó declara que planeja retomar o Pacto pelo Rio Cocó para a despoluir do Rio
Com o período das férias escolas no fim de ano, fortalezenses e turistas aproveitam para visitar o Parque do Cocó, em Fortaleza. Reconhecido como o maior parque natural em área urbana do Nordeste, o local oferece áreas que mesclam o lazer com a ecoeducação. Mas alguns visitantes destacam problemas relacionados à infraestrutura e à preservação ecológica do local.
A professora de biologia Juliana de Araújo utiliza o espaço como extensão da sala, com aulas de campo no Parque do Cocó há mais de 15 anos. Na manhã da última quarta-feira, 29, ela aproveitava a reta final do semestre letivo nas escolas públicas de Fortaleza para novamente levar seus alunos ao Parque.
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“Eu gosto muito daqui e os alunos também sempre se mostram muito interessados”, comenta Juliana. Contudo, por conhecer bem as trilhas interligadas, a professora relata dificuldades no percurso. “Em época de chuva, aqui fica com muita lama e é difícil se locomover, então temos que tomar muito cuidado”, aponta a educadora.
Para desopilar da agitação da Cidade e se conectar com a natureza, Luiz Matos Batista também esteve no parque na companhia dos dois netos, José Arthur Oriá, de 9 anos, e Maria Luíza, de 13 anos. Animado com o dia de lazer, o pequeno Arthur não enfrentou muitos obstáculos nas trilhas, mas também relatou o problema da lama no trajeto. “É ruim porque a gente pode escorregar. Mas também vimos muito lixo na água, o que não é legal”, disse o morador do bairro Cocó.
A lama é um problema recorrente na área, principalmente com a ocorrência de chuvas. Em abril deste ano, dois acessos (Trilha do Rio e a Trilha da Lagoa) chegaram a ser interditados para evitar que os visitantes se acidentassem no solo escorregadio. Em julho, os trechos foram novamente abertos.
Outra questão apresentada por quem trafega pelas trilhas é a falta de sinalização. Para Ana Karoline Fonseca, 35, que visitou o Parque do Cocó com seu filho Levi Henderson, 10, o trajeto se tornou confuso devido às poucas placas com mapas da área. “Claro que há placas com a indicação dos metros, mas você não tem orientação maior sobre para onde ir. Acho que para pessoas como eu, que estamos vindo pela primeira vez, encontram uma dificuldade”, aponta.
O Parque do Cocó é caracterizado como uma área de mangue, tendo como característica a presença de lama. De acordo com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), não há como intervir de maneira tão veemente no solo, para não descaracterizar o espaço.
“Com as chuvas, as trilhas naturalmente alagam, gerando inclusive interdição de alguns pontos. No período da seca, como nestes meses, a Sema realiza algumas intervenções nos pontos mais críticos. Mas a natureza do mangue faz com que estas sejam soluções paliativas”, explica a pasta.
Ao caminhar pelos mais de dois quilômetros de extensão, outra questão observada foram as tábuas soltas e/ou frágeis em certas pontos. Além disso, árvores secas e com aspecto queimado, principalmente na trilha que tem início na av. Sebastião Abreu, causam preocupação com a conservação da flora e, consequentemente, da fauna local.
Sobre a questão, a Sema explica que tem projetos de florestamento e reflorestamento em várias áreas do Parque. Nesse espaço específico, porém, só é possível o replantio da vegetação de mangue por causa do tipo de solo, que é salinizado.
“O próprio bioma enfraquece por conta da variação climática, mas depois se regenera. As trilhas do Cocó têm o objetivo de fazer com que os visitantes andem somente naqueles trechos, evitando a entrada em outros locais, já que se trata de uma área de proteção integral, dando chance à mata se recuperar naturalmente”, detalhou a gestão.
Ainda de acordo com a Sema, realizar alterações na área — como instalação de placas e equipamentos de descanso nas trilhas — requer cautela em decorrência ao Plano de Manejo do Parque. “Temos que fazer o mínimo de intervenções possíveis, de forma a não causar poluição visual, por se tratar de área de proteção integral”, disse, em nota.
Por se tratar de uma Unidade de Proteção Integral, a bióloga e técnica do Parque, Viviane Carneiro, destaca que certas atividades no Cocó são limitadas pela legislação. “É essencial compreender que o Cocó não é apenas uma área bonita para lazer, mas sim uma unidade de conservação, como o nome indica, destinada à preservação de todas as espécies, principalmente as nativas”, diz.
Existem três atividades permitidas dentro do Cocó: contemplação da natureza, educação ambiental e pesquisa científica. “Nossa responsabilidade é adequar o espaço da melhor maneira possível para atender às necessidades da população, sem perder de vista a essência de uma unidade de conservação”, conclui a bióloga.
O Parque ainda tem a área Adahil Barreto, com 10 hectares equipada com parquinhos, academia de ginástica, área para caminhada, um campo de futebol, equipamentos de arvorismo, viveiro e um anfiteatro.
Parque Estadual do Cocó sob nova gestão
No último dia 20 de novembro, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema) divulgou o agrônomo Narciso Ferreira Mota, que atuava como servidor da Universidade Federal do Ceará (UFC), como o novo gestor do Parque Estadual do Cocó. O anúncio ocorreu após oito meses desde que o cargo foi desocupado. No dia 28 de março de 2023, o antigo gestor Paulo Lira deixou a função.
Na legislação, os gestores das Unidades de Conservação (UCs) ocupam cargos comissionados. Eles têm algumas responsabilidades principais, como administrar e monitorar as Unidades de Conservação, analisar os processos relacionados ao meio ambiente, organizar e acompanhar as reuniões dos conselhos gestores das UCs e também coordenar campanhas de educação ambiental.
Narciso Mota explica que inicia sua gestão se deparando com um Cocó com problemas ecológicos, sociais e econômicos. Um deles é a necessidade de despoluir o rio e a retomada do Pacto pelo Rio Cocó.
“Almejamos revigorar o que foi iniciado com o Pacto pelo Rio Cocó. Isso demandará a coordenação de diversos setores institucionais, não apenas da Sema. Portanto, necessitamos do apoio das prefeituras dos municípios, a fim de tentarmos engajar tanto o poder público quanto à iniciativa privada, já que empresas contribuem para a deposição de resíduos no rio”, comenta o novo gestor.
Narciso também ressalta o plano de reflorestamento da área. “Sabemos que existem áreas que foram degradadas e queimadas, e estamos empenhados em recuperá-las. Há um projeto de reflorestamento e florestamento em andamento, que inclui viveiros de produção de mudas. Atualmente, estamos conduzindo estudos para realizar esse trabalho, especialmente em regiões que enfrentam condições de muita seca em determinados períodos do ano”, afirma.