Dia de Finados: famílias partilham lembranças em visita a cemitérios de Fortaleza
Momento de relembrar a vida dos entes queridos aumenta fluxo dos cemitérios nesta quinta-feira, 2. Locais têm programação especial para a data
“Eu sei que ele não está aqui, mas foi aqui que deixei ele”. Esse é o sentimento que levou a atendente Sônia Maria, 55, a visitar a lápide do pai. A sensação de proximidade com o familiar falecido é o que move outras centenas de pessoas aos cemitérios nesta quinta-feira, 2, Dia de Finados, em Fortaleza.
No cemitério Parque da Paz, no bairro Passaré, Sônia levou uma rosa e velas para fazer uma oração para o pai, que morreu há quase três anos. “Meu pai era a base de tudo na minha casa. Tento não lembrar dele, mas é impossível. A gente se acostuma com a dor, mas esquecer a gente não esquece”, afirma.
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O local tem movimentação intensa desde o começo desta manhã, quando o fluxo de veículos próximo à entrada do cemitério era lento e formava filas de cerca de 600 metros. O trânsito conta operação da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) com apoio dos agentes da Via Livre, em operação especial para este Dia de Finados.
“É uma coisa maravilhosa prestar homenagem a eles. Eles são anjos de Deus, não são mais pessoas. E venho também agradecer a Deus por essa graça, porque de qualquer maneira ficou conosco tanto tempo”, diz a dona de casa Zeneide Moura, 65, que foi ao local visitar o jazigo de uma pessoa que auxiliou na sua criação durante a infância. Para ela, o sentimento é de amor e gratidão.
Bruna Bruno, 23, que perdeu o pai há cinco meses, também foi ao Parque da Paz. “É como se fosse um alívio, é muito bom estar aqui. Mesmo só sendo um alívio psicológico”, afirma a jovem. Maria Pires, 56, acompanhou a filha na visita. “Aqui é como estar mais próximo dele”, relata. As duas aproveitaram o dia para rememorar lembranças boas que tinham com o familiar.
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Encontrar na fé o conforto para a dor causada pela perda do filho de 17 anos foi o caminho percorrido por Rogério Xavier, 47. O pai, que foi ao jazigo do adolescente no Parque da Paz, conta que o filho teve uma morte súbita há dois anos. “Dói muito a saudade, mas essa presença do amor de Deus, do amparo, a gente sabe que o espírito santo nos conduz”, diz.
O administrador do Parque da Paz, Paulo Queiroz, afirma que a preparação para receber os visitantes durou um mês. O cemitério organizou tendas para auxiliar as pessoas a encontrar os jazigos, para aferição de pressão e para apoio religioso, com representantes do Shalom e da Igreja Universal. Além da missa de 9h, outra está agendada para as 16h.
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No cemitério São João Batista, no Centro, o fluxo de pessoas na entrada é intenso. Os visitantes chegam com flores, velas e com blusas com imagens dos entes queridos. A rua Padre Mororó, que dá acesso ao cemitério, está bloqueada no cruzamento com a rua Senador Alencar.
O local terá missas durante todo o dia, às 12h, 14h e 16h. Já ocorreram três missas no período da manhã. A expectativa, conforme a administração do local, é que 50 mil pessoas visitem os entes queridos nesta semana. O funcionamento do local é até às 18 horas.
No Cemitério Municipal São Vicente de Paula, no Mucuripe, o fluxo era bem tranquilo por volta das 12h30min. O local passou por serviços de requalificação na última semana. No cemitério, a entrada e ponto de apoio estão com estruturas pintadas. Também foram instalados banheiros químicos no entorno para receber o público até às 17 horas.
Charlene Rodrigues, 37, é zeladora do cemitério do Mucuripe e ocupa o cargo da mãe há três anos após o seu falecimento. "Estou dando continuidade ao trabalho dela. A dor do luto, a gente suporta, mas têm dias que aperta e hoje é um dos dias", disse.
A mãe da zeladora, que tinha 69 anos, está enterrada no cemitério municipal após ter a vida atravessada por um cenário de depressão. Charlene conta que é difícil está no local que trabalha nesta data. Ela relata que, neste momento, prefere ficar isolada e lembrando da mãe de longe.
Com o cemitério do Mucuripe, Fortaleza tem mais quatro: Parangaba, Bom Jardim, Messejana e Antônio Bezerra. Expectativa de público é de quatro mil visitantes neste feriado.
Ao todo no feriado, aos cinco cemitérios municipais devem receber mais de 24 mil visitantes, conforme previsão da Secretaria Municipal da Gestão Regional (Seger).
Durante a visita aos cemitérios, as pessoas também puderam contar com pontos de apoio para informações, principalmente para localizar jazigos e lápides onde os entes queridos foram enterrados.
Nos locais, os visitantes informavam o nome completo da pessoa e a administração localizava onde ela estava. O serviço ocorre durante todo o funcionamento dos equipamentos.
A movimentação do Dia de Finados também atraiu vendedores ambulantes, que aproveitaram o período para comercializar produtos nas entradas dos cemitérios, como flores, velas, santinhos e produtos alimentícios.
Luto para diferentes crenças
Em toda religião há rituais e formas de se conectar aos familiares e amigos que já se foram. Na Umbanda, Alex Fiorino, 38, conhecido como "Pai Alex de Omulu", do Terreiro Zé da Virada, no bairro Messejana, em Fortaleza, destaca que o Dia de Finados é um momento sagrado para religião.
No Cemitério São João Batista, pai Alex comenta que a visita busca zelar pelo local onde os seus ancestrais estão depositados. "A gente vem acender velas pelas almas. Quantos ancestrais passaram na terra para você está aqui? Então, eles também precisam ser cuidados", destacou.
Segundo o umbandista, o Dia de Finados na crença é dia de Omolu, orixá da terra. "Ele ajuda na transição entre vida e morte. A gente sempre vem, acende uma vela para ele para outras almas benditas, além de Exu e Pomba-Gira, que são guardiões", comenta.
A católica e aposentada Dulce Bezerra, 65, disse que a data é um momento de espiritualidade. "Momento de lembrar da vida, que tudo é passageiro, além de ficar mais perto das pessoas que já se foram. É uma data de reflexão. De saber que um dia esse momento vai chegar, essa hora da partida", reflete.
A aposentada disse que acompanhou a missa em um momento para se conectar com Deus e com o marido que já faleceu há quatro anos, vítima de câncer. (Colaborou Mirla Nobre)
Com informações da repórter Mirla Nobre
Atualizada às 15h15min
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