Bairros de Fortaleza: da vida ao redor da 13 de Maio ao santuário de Fátima
Guardião da estátua de Nossa Senhora de Fátima e símbolo de fé na capital cearense, este é um dos bairros mais tradicionais e queridos de Fortaleza. Descubra sua história
Resumo
Ainda na década de 1950, a Paróquia e Santuário Nossa Senhora de Fátima foi erguida em Redenção, local que posteriormente seria nomeado Bairro de Fátima, em Fortaleza. A partir daí, como diz uma crônica da jornalista Ethel de Paula em 13 de abril de 2013 (ler mais abaixo), todos os segredos do bairro passaram a ser confiados à santa.
Antes de se tornar esse reduto religioso da Capital, cortado pela avenida 13 de Maio, o local já era predominantemente residencial, comercial e familiar, tal como se conhece hoje.
Integrante da Regional IV e vizinho aos bairros Benfica, Joaquim Távora e José Bonifácio, a região figura como um dos endereços mais tradicionais da Cidade.
Confira a história do bairro que carrega o nome da santa que intercedeu por milagres no Ceará.
Fátima: origens do bairro e a avenida 13 de Maio
Por volta da década de 1930, a área era chamada de "Redenção", em homenagem à cidade cearense que foi a primeira do Brasil a abolir a escravatura. Pela região, cotidianamente passavam vários "comboieiros" com mercadorias e compradores dos pequenos comércios locais.
Nos anos 40, o translado naquele espaço começou a ficar caótico e o então prefeito Tarcísio Moreira Rocha fez um acordo com o empresário Eugênio Porto, proprietário de terrenos locais. O plano era criar uma grande via para beneficiar toda o bairro.
A Prefeitura, então, demarcou vias de acesso com calçamento e meio-fio de pedra; em troca, o latifundiário vendeu os terrenos. Foi assim que surgiu a 13 de Maio, uma nova via ligando o São João do Tauape, um dos caminhos de barro que os comboieiros usavam, ao Prado - posteriormente chamado de Benfica.
Hoje, a avenida começa na rua José Jatahy e termina no viaduto da avenida Pontes Vieira. Na época, possuía pouco mais de três quilômetros e ainda não era ligada à avenida Jovita Feitosa.
A chegada da Virgem de Fátima
Próximo à inauguração da 13 de Maio, Pergentino Ferreira doou parte de seu terreno para a construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima e do Colégio Santo Tomás de Aquino.
Em sua homenagem, foram nomeadas uma rua no Bairro de Fátima e uma das quatro estações do corredor de BRT da avenida Aguanambi.
A ideia de construir o santuário estava ligada à visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que saiu de Portugal e percorreu vários redutos do Brasil.
Em destaque no O POVO, o Comitê de Imprensa da Comissão de Recepção anunciava a chegada à Fortaleza: "Deveis estar presentes a todas as homenagens que serão atribuídas à Virgem durante sua honrosa permanência nesta capital".
Em outra página, registrava-se que o comércio abriria apenas pela manhã e fecharia às 12h no dia da chegada, decisão tomada e divulgada pelo Diário Oficial do Município. A imagem esteve em terras alencarinas de 9 a 16 de outubro de 1952 e reuniu 60 mil pessoas para saudar a Virgem.
Durante a passagem da Imagem Peregrina, Lúcia — a mais velha das três pastorinhas que presenciaram as aparições em Fátima, Portugal — afirmou que a Virgem lhe revelara ter acompanhado sua imagem em todo o percurso realizado em Fortaleza. A notícia chegou à Cidade por meio de uma carta enviada pelo sacerdote belga Padre Francisco Demoutiez.
A partir daí, vários milagres imputados à santa foram registrados pelo Estado, inclusive na Capital:
Construção do santuário e desenvolvimento do bairro
No final de 1952, a pedra fundamental da Igreja de Fátima foi lançada durante uma missa campal na avenida 13 de Maio. A imagem peregrina retornou à Cidade em dezembro de 1953.
A paróquia foi erguida no ponto mais alto do terreno doado, fazendo alusão às colinas de Cova da Iria, em Portugal, onde ocorreram as aparições da Virgem.
Inaugurado em 13 de setembro de 1955, o santuário tornou-se o marco central da região, levando a Prefeitura de Fortaleza a oficializar, um ano depois, o nome do local como "Bairro de Fátima".
Após a construção da igreja, o bairro foi ocupado por novos moradores e residências de alto padrão.
Em 13 de agosto de 1956, O POVO noticiou: "Fábricas em construção no novo Bairro de Fátima". Os empreendimentos eram voltados principalmente à produção de sabão, pertencentes aos comerciantes João Guilherme, João Felipe Néri e Olívio Oliveira Barbosa.
Nesse mesmo ano, portugueses radicados no Ceará e o então vice-cônsul lusitano, Alexandre Vidal, presentearam a Cidade com uma imagem da Virgem de Fátima, aquela que até hoje se posta à frente da igreja, protegendo a Praça Pio IX, local que passou anos sendo apenas um areal.
A imagem foi esculpida na cidade do Porto, em Portugal, pelo artista Guilherme Thedim, utilizando cedro brasileiro.
Entretanto, com o desenvolvimento, surgiram insatisfações com o abandono e a falta de saneamento básico. Matérias como "No bairro de Fátima só tem lixo e mato" e "Bairro de Fátima reclama de abandono" estampavam as páginas do jornal em 1970.
Nessa mesma época, foi construído o Terminal Rodoviário Engenheiro João Thomé, chamado apenas de Rodoviária pelos moradores. Localizado na avenida Deputado Oswaldo Studart, esquina com a av. Borges de Melo, o terminal faz do bairro a porta de entrada para quem chega à Capital de ônibus.
Outro avanço emblemático foi a criação do viaduto no cruzamento da 13 de Maio com a Aguanambi, no início dos anos 1990, facilitando o tráfego no trecho que, inclusive, é um dos acessos à sede do O POVO.
O bairro de Fátima hoje
Fátima segue sendo um bairro residencial e comercial ao mesmo tempo, conhecido por sua população idosa e pelos eventos religiosos. Abriga mais de 23mil habitantes em seus 2.863 km² e cerca de 10.360 domicílios registrados.
Outros colégios e praças surgiram, como o Colégio Nossa Senhora das Graças e a Praça Argentina Castelo Branco.
O bairro atrai moradores de perfil classe média e alta devido à localização central e à oferta de serviços. Figura entre os locais mais caros para se morar em Fortaleza. Atualmente, o metro quadrado no Bairro de Fátima custa em média R$ 14.029, conforme o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon Ceará).
Desde a visita da imagem peregrina, as procissões são uma tradição, e as celebrações do Dia de Nossa Senhora de Fátima, em 13 de maio, congestionam anualmente a grande avenida.
A estátua e a Praça Pio IX foram reformadas em 2025 para restauração de danos causados pelo tempo.
Leia mais
-
Bairros de Fortaleza: Barra do Ceará guarda origens históricas e sociais da Capital
-
Bairros de Fortaleza: Granja Lisboa nasceu de migrações e lutas comunitárias
-
Bairros de Fortaleza: Passaré é sinônimo de afeto, laços e luta
-
Bairros de Fortaleza: Jangurussu, da "Favela do Lixo" ao protagonismo cultural
-
Bairros de Fortaleza: José Walter, modelo de urbanização e berço de "lendas"