29ª Mostra de Cinema de Tiradentes exibe o curta cearense ‘Cavalo Serpente’
Documentário de Priscila Smiths propõe um gesto de olhar que rompe dualismos e investiga memória, espiritualidade e corpos negros
Apresentado na Mostra Foco da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o curta-metragem documental cearense "Cavalo Serpente", dirigido por Priscila Smiths, teve sua primeira exibição pública na quarta-feira, 28 de janeiro, seguida de um bate-papo com a diretora na quinta, 29, aprofundando os sentidos e processos por trás da obra.
O filme nasce de uma experiência de violência que não se manifesta de forma direta, mas no campo do olhar, uma violência silenciosa, cotidiana, vivida por corpos negros em espaços como o cinema e a academia.
A partir dessa vivência, Priscila constrói um documentário que se recusa a operar em dualismos fáceis, evitando tanto a exposição explícita da dor quanto sua substituição por imagens idealizadas.
Em “Cavalo Serpente”, criança, menina e mulher caminham entre tempos, compartilhando um mesmo corpo em transformação.
A narrativa se constrói a partir de memórias familiares, fotografias e atravessamentos espirituais, criando uma relação com o tempo que foge da linearidade. Há segredos transmitidos, chaves simbólicas e rastros que conectam passado, presente e futuro.
"Cavalo Serpente": dimensão espiritual
O filme evoca uma espiritualidade múltipla, marcada pela convivência entre diferentes crenças e saberes, sem indicar caminhos únicos ou fechados.
Com forte componente autobiográfico, incluindo a participação da mãe da diretora em cena, "Cavalo Serpente" aposta em um gesto de olhar que devolve o olhar ao espectador.
Os corpos encaram a câmera, interpelam quem assiste e afirmam a agência das mulheres negras como guardiãs de memória, espiritualidade e fabulação. O resultado é um filme aberto, sensível e político, que propõe outros modos de ver e existir.