Oscar 2026: ‘O Agente Secreto’ atualiza legado de ‘Cidade de Deus’
Com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator para Wagner Moura, o filme de Kleber Mendonça Filho sintoniza Hollywood com um novo pedaço do Brasil
16:02 | Jan. 22, 2026
Quando a multidão do centro de Recife tomou a tela do Grand Theatre Lumière, em maio de 2025 na estreia mundial de “O Agente Secreto” no 78º Festival de Cannes, os brasileiros foram incendiados por um calor brasileiro demais para aquela sala tão fria.
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De repente, parecia que eu estava até nas ruas da Praça do Ferreira, em Fortaleza, naquela confusão de gente que é a cara do nordeste brasileiro. Ao fim da sessão, a dúvida era unânime entre nós: a imprensa internacional havia mesmo compreendido o rebuliço da trama ou ela pareceu alienígena?
A resposta veio logo em seguida, quando o filme venceu os prêmios de Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura), traçando como destino uma longa jornada que chegou no seu estágio final nesta quinta-feira, 22. Depois de diversos festivais ao redor do mundo e campanha intensa nos Estados Unidos, “O Agente Secreto” chegou no Oscar com um histórico quarteto de indicações: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco, categoria inaugural da premiação neste ano.
Numa ótica mais recente, o impacto dessa celebração parece ainda mais fascinante por acontecer apenas um ano depois que “Ainda Estou Aqui” se tornou o primeiro brasileiro a vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional. Visto num escopo mais amplo, a conquista do filme pernambucano encontra uma camada intrigante: o último filme brasileiro que havia conquistado quatro indicações foi “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Kátia Lund.
O longa carioca também estreou em Cannes e também tem grande parte da sua história acontecendo no Brasil dos anos 1970, em plena ditadura militar. De certa forma, os dois mergulham num cenário de violência e perseguição que acontecia de maneira cruel enquanto o mundo fingia girar normalmente ao redor. Em 2002, a estética veloz e entrecortada de “Cidade de Deus” pareceu bastante estranha diante do referencial que a crítica hegemônica tinha tanto sobre a linguagem do cinema quanto sobre o que era o Brasil.
O Brasil e “O Agente Secreto”
Em 2026, “O Agente Secreto” chega ao Oscar com certa sensação de revolução para uma Hollywood cada vez mais disposta a fugir de si mesma. Depois de todo barulho que Fernanda Torres e o Carnaval causaram na maior premiação americana, fazendo o presidente da Academia de Artes e Ciências de Hollywood visitar o Festival do Rio meses mais tarde, o filme atualizou seu próprio caráter político diante das ameaças de Donald Trump contra a soberania da América Latina.
O votante mais clássico do Oscar, que conhecia o Brasil pelos sertões de Glauber Rocha ou pelas ruas amarelas de Fernando Meirelles, de repente se deparou com Tânia Maria, estrela do filme brasileiro que facilmente nos lembra das nossas avós, ou com a fábula da perna cabeluda interrompendo um roteiro que andava tão pé-no-chão. Se “Ainda Estou Aqui” dialogava mais com os dramas de época produzidos na Europa, “O Agente Secreto” facilmente consegue soar como anarquia.
Diante da celebração desse reconhecimento, também é preciso compreender que essa configuração histórica não lança “O Agente Secreto” como o favorito para vencer nenhum dos prêmios que foi indicado. Na categoria internacional, concorre diretamente com a precisão dramatúrgica do norueguês “Valor Sentimental” que recebeu nove indicações, incluindo Direção e Roteiro. Em atuação, a presença contida de Moura - o primeiro brasileiro a receber essa indicação - é confrontada pela eletricidade de Timothée Chalamet em “Marty Supreme”. Na de elenco, enfrenta favoritos a Melhor Filme, como “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”.
Sua presença, porém, lado a lado de filmes tão importantes para a indústria de Hollywood, parece adiantar um destino talvez ainda mais imperecível do que todos os outros brasileiros que chegaram até aqui. Mais do que nunca, talvez essa febre faça o espectador mais comum de todos perceber que há muito mais acontecendo no Brasil, há muito tempo.