Teatro infantil: duas produções ousadas encerram o encontro de teatro para infâncias
Críticos convidados pelo VI Encontro de Realizadores de Teatro Para as Infâncias escrevem para sobre as montagens apresentadas durante o evento. O POVO publica os textos opinativos ao longo do evento
Dib Carneiro Neto/Crítico convidado do VI Encontro de Realizadores de Teatro Para as Infâncias
É sempre reconfortante e alentador frequentar teatro para crianças fora dos palcos do Sudeste e constatar – a despeito de tanto preconceito vigente no País – o quanto por esse Brasilzão afora temos grupos competentes, talentosos, ousados, praticando com muita criatividade e coragem essa delicada modalidade de artes cênicas de censura livre. Falo isso a propósito dos dois espetáculos, um goiano, outro cearense, incrivelmente audaciosos, que encerraram no sábado, 10, o VI Encontro de Realizadores de Teatro para as Infâncias, uma realização do grupo local Pavilhão da Magnólia.
É + que streaming. É arte, cultura e história.
O primeiro deles, apresentado no Hub Cultural Porto Dragão, veio de Goiânia, Goiás, do grupo Ateliê do Gesto. Do alto de seus dez anos de trajetória, a companhia nos ofereceu "Fica Comigo", espetáculo de dança para crianças, mas que os adultos adoram também. Virtuosismo do começo ao fim, com momentos surpreendentes de belo casamento entre coreografia, videomapping, figurinos, cenografia e trilha sonora. Tudo tão harmonioso, tão contemporâneo e, ao mesmo tempo, retrô.
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Estética em preto e branco nas roupas, cores e geometrismo nas projeções, 150 caixas de papelão servindo de cubos armazenadores de memória, canções que vão de Nelson Gonçalves a Tim Bernardes. Ou seja, uma criação sofisticadíssima, acima dos padrões do que comumente se vê em acomodadas produções caça-níqueis para crianças.
O uso múltiplo das caixas, em variados "empilhamentos", é atraente construtivismo para o olhar dos pequeninos. O desenho de luz faz os corpos dos quatro intérpretes (Daniel Calvet, João Gross, Isabel Mamede e Thaís Kuwae) bailarem também nas sombras do papelão, mostrando para as crianças, em dose dupla, que corpo é inteligência e movimento é vida.
Fica evidente desde o início que a ideia de "Fica Comigo" – um original de João Gross, com direção final de Daniel Calvet – é empilhar várias lembranças que estão nos nossos porões da imaginação, como é dito em off no início. Assim, vira um atrativo extra tentar ficar identificando, nas tão vigorosas coreografias, os atos e as brincadeiras que nos são familiares, como pular corda ou amarelinha.
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O quarteto nos seduz com a energia de brincar em cena – e é isso que faz do espetáculo uma atração apropriada para crianças. Em tempos de valorização de diversidades, os criadores ainda tiveram o precioso cuidado de, em uma determinada cena, fazer homem dançar com homem e mulher com mulher. E, em outra cena, sugerir a presença de um estado de morte no corpo da atriz. Por que não? Parabéns por tão potentes escolhas e pela maravilha de fazer dança para crianças, o que é tão raro neste País.
Na sessão seguinte do Encontro, já na sede da companhia anfitriã, a Casa Absurda, foi a vez de "Alugam-se Luas", com o grupo cearense Ortaet (teatro, ao contrário), da cidade de Iguatu, de menos de 100 mil habitantes. Quanto atrevimento saudável vindo de um pequeno município do sertão. De deixar de cara no chão muita gente do Sudeste que se acha tão à frente...
Cleilson Queiroz assina direção e dramaturgia, criando em seu palco-passarela um drama distópico com direto a cadeirante e criança em cena, drags acintosas gritalhonas, boneca de porcelana que pensa que é gente, baratas combativas fofoqueiras (incríveis criações do bonequeiro Chico Henrique), personagem com dois pais gays e, unindo tudo isso, uma trama sinistra, desvendada aos poucos à plateia.
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Com elenco formado por Valder César, Francielio Silva, Cecília Martins, Nicole Costa e Ronald Petrelli, a peça tem um começo que é totalmente nebuloso. Ações fragmentadas deixam no ar um clima de mistério do tipo: “Não estou entendendo nada”. Disse ao grupo, no debate que se seguiu, que sou o tipo de crítico que acha que provocar um estranhamento é muito saudável no teatro para crianças.
Quanto mais fragmentada e não linear for a trama, mais o público se instiga, mais a garotada sai do rame-rame enfadonho que acostumou ver nas adaptações precárias com personagens da Disney. Esse é o mérito de "Alugam-se Luas": não ter medo de ousar, de inovar, de ser estranho. Ou seja, não subestimam a inteligência da criança.
Claro, tudo tem limite, e às vezes a dramaturgia de Queiroz deixa brechas para que a trama não se esclareça completamente ou não se aprofunde, tantas são as intenções temáticas propostas. Chegando a um melhor equilíbrio, a peça pode ser um caso exemplar.
Cuidados serão necessários também com a participação no elenco da menina Cecília Martins, de 11 anos. Ela demonstra uma segurança inacreditável em cena, pela idade que tem, mas a missão extra da dedicada e estudiosa trupe cearense será não a deixar perder a infância antes do tempo, como acontece com tantas crianças-prodígio, que viram adultos em miniatura no palco – e na vida.
O VI Encontro de Realizadores de Teatro Para as Infâncias é um projeto que conta com o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, via Lei Paulo Gustavo (LC nº 195/2022) através do Edital de Apoio a Festivais Culturais do Ceará – 2023 e pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas nos Espaços Artísticos.
O VI Encontro de Realizadores de Teatro Para as Infâncias foi realizado entre os dias 6 e 10 de maio em vários locais de Fortaleza.
*Dib Carneiro Neto é jornalista, dramaturgo e crítico, responsável pelo site "Pecinha É a Vovozinha"
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