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Impacto da água nas culturas alimentares é mote da websérie "Olho d’Água"

Produção da Peixe-Mulher reflete sobre identidade e consumo a partir de visitas a quatro municípios cearenses de diferentes regiões e costumes alimentares
17:20 | Ago. 16, 2021
Autor João Gabriel Tréz
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João Gabriel Tréz Repórter
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Tipo Notícia

Seja pelo desejo de abundância nas chuvas, pela ampla faixa litorânea ou pela concretude da escassez, a água é central para o Ceará. Os impactos da relação de presença-ausência do elemento nas culturas alimentares do Estado são o ponto de partida para a websérie “Olho d’Água - O brotar da comida cearense”. A obra apresenta lições importantes sobre consumo e identidade a partir de costumes preservados em quatro iniciativas nos municípios de Viçosa, Tauá, Icapuí e Fortaleza. Da produtora Peixe-Mulher, a série é comandada pela jornalista Renata Monte e pelas cozinheiras Bia Leitão e Luana Caiubi. “Olho d’Água” apresenta quatro episódios semanais que começaram a ser disponibilizados nesta segunda, 16, no Instagram.

O projeto da websérie, produzida pela Peixe-Mulher, é de Bia Leitão, Luana Caiubi e Renata Monte.
O projeto da websérie, produzida pela Peixe-Mulher, é de Bia Leitão, Luana Caiubi e Renata Monte. (Foto: Arlan Elton / divulgação)

“Sempre tive interesse em me debruçar sobre a relação que nós, cearenses, temos com a água. Enquanto humanidade, entramos em processo civilizatório, principalmente, a partir do momento em que descobrimos a cocção, o poder de misturar insumos em água fervente e aquilo resultar em outra coisa, outro sabor”, elabora Renata. Na crença do elemento como força “criadora de tudo”, a jornalista já tinha o projeto esboçado e, com as possibilidades de apoio via Lei Aldir Blanc, ele foi concretizado.

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O recorte escolhido, então, foi o das culturas alimentares existentes no Ceará. “O que nós comemos diz sobre quem somos, sobre que território nós pertencemos, sobre a nossa identidade”, compreende a jornalista.

A visita à Viçosa abre o projeto. No município, a produção segue a água que dá vazão às plantações de cana-de-açúcar e feijão da região, que por sua vez resultam em bebidas e comidas artesanais como baião de fava, cachaça e licor.

Em Tauá, foram descobertas a carne de carneiro, animal resistente aos tempos de seca, e a ova de curimatã, que vem dos açudes. Já em Icapuí, despontam o sururu e a moqueca de búzios, bem como a cultura do caju. Fortaleza é vista a partir da Sabiaguaba, onde a pesca de ostras revela outras possibilidades na capital.

Seu Veremundo, produtor de caju de Icapuí, é um dos personagens de 'Olho d'Água'
Seu Veremundo, produtor de caju de Icapuí, é um dos personagens de 'Olho d'Água' (Foto: Arlan Elton / divulgação)

Cada município, como atesta Bia Leitão, funciona como uma “amostra” das diversidades geográficas e alimentares do Ceará. “Um estado grande como o Ceará tem uma cultura da serra, do sertão, nosso litoral é bem extenso. Pegamos uma amostra de vários tipos de Ceará”, explica a chef.

“É curioso pensar sobre os paralelos e contradições que a presença ou escassez da água provocam”, atenta Renata. “No episódio de Tauá, pegamos dias de chuva, de plantação verdinha, de açude cheio, de bom humor das pessoas graças ao cair de água do céu. Já em Icapuí, cidade do litoral, onde se pensa primeiramente na abundância do mar, encontramos a dificuldade de uma família que, por não morar na beira da praia, passa por dificuldades na plantação de caju justamente por falta de água”, destrincha.

Marcado por estereótipos limitadores, o Ceará é mais do que a ideia da fome, mas também é preciso entender que ela segue existindo e, até, é elemento fundante das culturas alimentares que se construíram no Estado. “Apesar de ao longo do tempo termos superado a clássica trajetória do sertanejo que precisa fugir da seca, a nossa cultura alimentar também passa pela chamada ‘culinária da fome’, onde o cearense consome o que melhor resiste às nossas condições climáticas”, lembra Renata.

Feijão, milho e mandioca são resistentes à aridez e, por isso, acabam por ser alguns dos principais ingredientes dos pratos cearenses e nordestinos, por exemplo. “Se comida é cultura e cultura é algo que atravessa o tempo, não é possível fugir de como a escassez de água também nos trouxe até aqui”, compreende a jornalista.

A discussão ganha contornos ainda mais urgentes a partir do crítico cenário nacional de segurança alimentar. “Nossas escolhas de personagens foram baseadas em quem produz, faz, cria, de fato encontra sustento na natureza ou pode fazer uso dela. Infelizmente, não é a realidade de todos”, reconhece Luana. “O cenário que a gente viu nas viagens, apesar das dificuldades, é que existe uma forma de alimentar-se ainda baseada em coleta, pesca, plantio, com uma parte de alimentação obtida por essa interação com o entorno”, acrescenta Bia.

Uma lição possível deixada pela experiência é a do reconhecimento da produção em menor escala. “Não há personagem ou história que passe por grandes indústrias ou grandes produtores. A série não tem condições de solucionar a crise que vivemos, mas confirmou pra mim que consumir o que é nosso, da terra, do pequeno produtor, valorizar o sabor do nosso Ceará e o suor de quem planta, pesca, cria ou cozinha é uma forma de burlar a indústria alimentícia que só oferece produtos de péssima qualidade nutricional e que, por conta do cenário econômico, se tornam cada vez mais consumidos pela grande massa”, elabora Luana.

Olho d’Água
Quando: quatro episódios semanais a partir desta segunda, 16
Onde: @_peixemulher

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