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O futuro do bolsonarismo sem Olavo de Carvalho

Analistas ouvidos pelo O POVO avaliaram que o movimento gerado a partir das obras do astrólogo e ensaísta tem força para continuar após a morte do autor e independentemente do governo Bolsonaro
15:09 | Jan. 25, 2022
Autor Vítor Magalhães
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Vítor Magalhães Repórter de Política
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Tipo Notícia

Parte importante nos primeiros anos da gestão Bolsonaro, a ala ideológica, ou “olavista”, perdeu nesta terça-feira, 25, seu representante máximo: o escritor e astrólogo Olavo de Carvalho. A morte do autor, em um hospital no estado da Virgínia, nos EUA, aos 74 anos, reverbera dentro e fora do bolsonarismo que, ainda hoje, abriga atores ditos olavistas no governo federal.

Analistas ouvidos pelo O POVO apontaram que um primeiro ponto a ser considerado é que o bolsonarismo não é monolítico, ou seja, é composto por diversos segmentos que foram se aproximando da figura de Bolsonaro conforme o andamento da gestão.

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“Você tem olavistas; ala militar; uma corrente evangélica; e já teve um setor lavajatista. Enfim, vários grupos foram se associando”, explica Cleyton Monte, cientista político vinculado ao Lepem-UFC.

Para Monalisa Torres, pesquisadora política e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a segmentação da base do governo provocou disputas por poder, que produziram ruídos, desentendimentos e afastamento.

“A base ideológica foi, e ainda é, uma parte importante para o bolsonarismo enquanto movimento político. E o Olavo cumpriu um papel importante nesse sentido, como ideólogo”, avalia, ressaltando a influência do escritor entre bolsonaristas que devem continuar incorporando pensamentos do autor em seus discursos.

Em um cenário de luta por corações e mentes, Olavo se apresentou como aquele que ofereceria as ferramentas para a batalha. A partir dessa reflexão, a pesquisadora analisa que não foi à toa que ministérios do primeiro escalão, que de alguma forma cuidam de agendas culturais, tenham sido ocupados pela ala ideológica.

Os Ministérios da Família e Direitos Humanos (ainda ocupado por Damares Alves); Educação (outrora chefiado por Vélez Rodriguez e Abraham Weintraub); e Relações Exteriores (comandado por cerca de dois anos por Ernesto Araújo) são alguns dos exemplos citados por ela.

Cleyton Monte projeta ainda que o olavismo sobreviverá à morte de Olavo. “Mesmo sendo uma figura desprezada pela academia, e talvez também por isso, seus seguidores o enaltecem. As milhares de pessoas que fizeram seus cursos ou tiveram acesso ao seu acervo, continuarão reproduzindo seu pensamento”, diz.

Ele acrescenta que o olavismo preparou terreno para o bolsonarismo e que sobreviverá dentro do governo e continuará para além da estadia de Bolsonaro na Presidência. “Terá uma continuidade mesmo após Bolsonaro, porque ele (Olavo) foi a figura que primeiro trouxe essa visão de mundo” presente na extrema direita brasileira e com traços similares a outros movimentos que ocorrem pelo mundo.

Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece) afirmou, em artigo escrito para O POVO, que o legado de Olavo continuará reverberando após sua morte. “Sobretudo como modo disruptivo de linguagem política” Segundo Freitas, mesmo a morte do autor “não freará os movimentos de seus discípulos, dentro e fora do bolsonarismo”.

Apesar da proximidade com o governo, a relação entre Olavo e Bolsonaro estava estremecida, com o autor fazendo acusações públicas contra o presidente e sendo atacado por bolsonaristas. Sua morte pode até significar uma espécie de alívio para parte do grupo, que não precisará lidar com as sequentes críticas do guru. 

Torres classifica o bolsonarismo como um “movimento autofágico”, que expulsa aqueles que não seguem à risca as determinações. Segundo os especialistas, apesar do olavismo perder força decisória conforme o governo curvou-se ao Centrão, ele ainda tem influência no jogo político.

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