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Afeganistão: Talibã assume governo do país; entenda o conflito

Após retirada de tropas estadunidenses e fuga do presidente afegão, grupo fundamentalista Talibã assumiu o controle da capital Cabul e tomou o governo do Afeganistão; entenda as origens do conflito na região
07:24 | Ago. 16, 2021
Autor Bemfica de Oliva
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Bemfica de Oliva Repórter
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A última semana tem sido de intensos conflitos no Afeganistão. Em maio deste ano, o governo dos Estados Unidos anunciou a retirada das tropas restantes no país asiático. Com a movimentação, o grupo extremista Talibã iniciou uma série de ataques a diversas províncias do país, capturando todo o território afegão. Neste domingo, 15, a capital Cabul foi tomada pelo grupo.

+ Guerra no Afeganistão hoje, 17: confira últimas notícias do país tomado pelo Talibã

Veja o momento em que pessoas tentam embarcar para fora do país:

Contando apenas o conflito mais recente, iniciado em 2001, a Guerra do Afeganistão durou duas décadas. As origens do conflito e o surgimento do Talibã, porém, remontam a 40 anos atrás. O POVO reuniu as principais informações abaixo, confira:

 

O que é o Talibã? Quando e como ele surgiu?

O Talibã é um grupo fundamentalista que atua no Afeganistão desde os anos 1990. Com uma visão extremista da religião islâmica, a agremiação atua tanto de forma política quanto militar.

A origem do Talibã se deu após a Guerra Afegã-Soviética, que aconteceu de 1979 a 1989. Neste conflito, a União Soviética e o governo do Afeganistão, de orientação marxista e que havia chegado ao poder com um golpe de Estado em 1978, enfrentaram milícias ligadas ao Paquistão e à Arábia Saudita.

Estes grupos paramilitares, chamados mujahidins, tinham também apoio logístico e treinamento dos Estados Unidos e da Inglaterra. Esta foi uma das chamadas "guerras por procuração", comuns no embate entre Estados Unidos e União Soviética, em que os dois países nunca entravam em conflito direto.

Entre as tropas que receberam treinamento, dinheiro e armas dos Estados Unidos, estavam nomes como Mohammed Omar, Akhtar Mansour e Hibatullah Akhundzada. Os três são fundadores do Talibã, que começou como um grupo de estudos do islã ("talib", no idioma afegão).

Em 1994, Omar, com cerca de outros 50 estudantes, decidiu criar uma organização que militasse pelo endurecimento das leis no Afeganistão segundo uma interpretação extremista da Sharia, código de conduta islâmico. Com amplo apelo em escolas religiosas do Afeganistão e do Paquistão, em 1995 o Talibã já tinha cerca de 15 mil membros.

Entre os posicionamentos de Omar estavam a oposição tanto à invasão soviética, que trouxe costumes ocidentalizados ao Afeganistão, quanto às milícias que governavam partes do país após o fim do conflito. À época, diversas facções de mujahidins disputavam o vácuo de poder deixado pelos soviéticos, em uma guerra civil que durou de 1992 a 1996. Na visão do Talibã, os conflitos geravam sofrimento ao povo afegão, e aconteciam porque a população não seguia as interpretações mais rígidas da Sharia.

Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15
Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15 (Foto: Wakil Kohsar / AFP )

O Talibã já governou o Afeganistão antes?

Já em seu princípio o Talibã tinha sua própria milícia, devido às armas e treinamentos recebidos de Paquistão e Estados Unidos, durante a guerra contra a União Soviética. Lançando, em dezembro de 1994, em um ataque na cidade natal de Omar, Kandahar, o grupo tomou o poder na região. Nos meses seguintes, as investidas militares continuaram: em setembro de 1996, o Talibã havia conquistado Cabul.

Entre 1996 e 2001, o Talibã foi o governo de fato do país, com o nome de Emirado Islâmico do Afeganistão. Após duas décadas de conflitos, entre a invasão soviética e a guerra civil, todavia, a região estava destruída, e acesso a itens básicos como água potável, comida e eletricidade dependiam de ajuda humanitária. Com uma política de desconfiança em relação a não-muçulmanos, o Talibã dificultou ou impediu ações de organismos internacionais no país.

Durante seu governo, o Talibã firmou parceria com a organização terrorista Al-Qaeda. O grupo criado por Osama Bin Laden teve grande integração com as forças de segurança do Afeganistão no período, auxiliando o governo do Talibã a manter a autoridade no país mesmo com o colapso social.

O Talibã é uma organização terrorista?

A princípio, o foco do Talibã não era atuar como grupo terrorista. Embora tenha posicionamentos similares ao de grupos como Al-Qaeda e Daesh (Estado Islâmico), o objetivo inicial do Talibã era o estabelecimento de um governo sob uma visão extremista do islã.

Diferentemente destas organizações, que realizam ações como o atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e diversos ataques a bomba, em países como Inglaterra, Espanha, Iraque e Indonésia, o Talibã focava em ações de política interna, primariamente no Afeganistão e em partes do Paquistão. Após a queda do governo, devido à invasão estadunidense em 2001, o Talibã passou a usar táticas de terrorismo, como homens-bomba.

Há, ainda, relações próximas do Talibã com grupos terroristas. A Al-Qaeda, por exemplo, atuou durante anos dentro do governo afegão, na época que este era comandado pelo Talibã. A filha de Mohammad Omar, fundador do Talibã, se casou com um dos filhos de Osama Bin Laden, em um estreitamento dos laços entre os dois grupos.

Apesar de não ter sido sempre considerado um grupo terrorista, por não realizar habitualmente ataques e atentados como organizações do tipo, o Talibã é conhecido por usar de extrema violência. Entre suas ações há a execução de opositores, coerção e ameaças.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, por exemplo, ficou conhecida por sua resistência às políticas do Talibã, que proíbe mulheres de estudar nas regiões que ocupa. Em 2012, ela foi atacada por um atirador do Talibã em retaliação a seu ativismo.

Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15
Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15 (Foto: Wakil Kohsar / AFP )

Como o Talibã retomou o Afeganistão?

Após o ataque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas, em 2001, o governo dos Estados Unidos, em conjunto com outros países, invadiu o Afeganistão, dando início à chamada "Guerra ao Terror". A ofensiva foi intensa e, em cerca de dois meses, o governo do Talibã havia sido deposto.

Ao longo das duas décadas seguintes, tropas estadunidenses se mantiveram na região, além de realizar incursões em outros países próximos, como Iraque (resultando na Guerra do Iraque), Síria e Iêmen. Apesar de ter gasto mais de 1,5 trilhão de dólares nestes conflitos, sendo mais de US$ 1 trilhão somente no Afeganistão, o governo dos Estados Unidos nunca conseguiu remover totalmente a influência do Talibã no país.

Até 2014, as tropas estadunidenses estavam envolvidas diretamente em combates com remanescentes do Talibã no Afeganistão. Em outubro daquele ano, porém, o papel do exército dos Estados Unidos se tornou de treinamento e apoio logístico às forças armadas do Afeganistão, reunidas em 2011.

A partir de então, o Talibã passou a se reorganizar para não apenas reagir em combate contra as tropas estadunidenses, voltando a usar táticas políticas e militares para se reerguer. Além da reestruturação das milícias, o Talibã passou a atuar no interior do Afeganistão, argumentando que a ocupação dos Estados Unidos e os governos de transição impediam que o nível de vida da população melhorasse.

Com um contingente renovado, o Talibã aproveitou as negociações de retirada das tropas internacionais para retomar de forma significativa diversas províncias do Afeganistão. Em fevereiro de 2020, já com controle territorial significativo no país, o Talibã e o governo dos Estados Unidos assinaram um acordo de paz que previa o fim da ocupação estrangeira no país.

Apesar da transição entre os governos de Donald Trump e Joe Biden ter gerado atrasos no planejamento inicial, em maio de 2021 as últimas tropas estadunidenses começaram a retirada. Conforme as forças armadas do Afeganistão eram deixadas como única linha de defesa em diversas regiões do país, o Talibã avançou na captura de mais regiões.

No começo de agosto, havia apenas cerca de 650 soldados dos Estados Unidos no Afeganistão. Conforme o Talibã capturava mais regiões do país, o exército afegão permaneceu com apenas dois pelotões, ambos na capital Cabul. Com pouca resistência, o Talibã aumentou a intensidade e a agressividade das ações, chegando a Cabul nesse domingo.

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, fugiu do país algumas horas antes das tropas do Talibã avançarem sobre Cabul. O grupo, que chegou aos limites da cidade na manhã de domingo (horário local), afirmou que não tomaria a capital antes de negociar uma transição pacífica do poder.

Com a fuga de Ghani, porém, o Talibã decidiu entrar na cidade. Em comunicado, o grupo afirmou que a mudança de posição aconteceu para "evitar o caos e os saques", uma vez que a polícia local abandonou os postos.

Na incursão, as tropas do Talibã capturaram prisões em Cabul e na cidade vizinha de Bagram, libertando milhares de prisioneiros. Entre os libertos, há membros do Daesh e da Al-Qaeda. Na noite de domingo, o Talibã chegou ao palácio presidencial, e declarou a retomada do governo deposto em 2001.

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Guerra no Afeganistão hoje, 17: últimas notícias do país tomado pelo Talibã

Geopolítica
01:31 | Ago. 17, 2021
Autor Redação O POVO
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O Afeganistão chega hoje, terça, dia 17 de agosto (17/08/2021), em mais um dia de guerra. Confira abaixo as últimas notícias do país que foi tomado pelo Talibã.

Afeganistão: Talibã assume governo do país; entenda o conflito 

A última semana tem sido de intensos conflitos no Afeganistão. Em maio deste ano, o governo dos Estados Unidos anunciou a retirada das tropas restantes no país asiático. Com a movimentação, o grupo extremista Talibã iniciou uma série de ataques a diversas províncias do país, capturando todo o território afegão. Neste domingo, 15, a capital Cabul foi tomada pelo grupo.

Veja o momento em que pessoas tentam embarcar para fora do país:

Contando apenas o conflito mais recente, iniciado em 2001, a Guerra do Afeganistão durou duas décadas. As origens do conflito e o surgimento do Talibã, porém, remontam a 40 anos atrás. O POVO reuniu as principais informações abaixo, confira:

 

O que é o Talibã? Quando e como ele surgiu?

O Talibã é um grupo fundamentalista que atua no Afeganistão desde os anos 1990. Com uma visão extremista da religião islâmica, a agremiação atua tanto de forma política quanto militar.

A origem do Talibã se deu após a Guerra Afegã-Soviética, que aconteceu de 1979 a 1989. Neste conflito, a União Soviética e o governo do Afeganistão, de orientação marxista e que havia chegado ao poder com um golpe de Estado em 1978, enfrentaram milícias ligadas ao Paquistão e à Arábia Saudita.

Estes grupos paramilitares, chamados mujahidins, tinham também apoio logístico e treinamento dos Estados Unidos e da Inglaterra. Esta foi uma das chamadas "guerras por procuração", comuns no embate entre Estados Unidos e União Soviética, em que os dois países nunca entravam em conflito direto.

Entre as tropas que receberam treinamento, dinheiro e armas dos Estados Unidos, estavam nomes como Mohammed Omar, Akhtar Mansour e Hibatullah Akhundzada. Os três são fundadores do Talibã, que começou como um grupo de estudos do islã ("talib", no idioma afegão).

Em 1994, Omar, com cerca de outros 50 estudantes, decidiu criar uma organização que militasse pelo endurecimento das leis no Afeganistão segundo uma interpretação extremista da Sharia, código de conduta islâmico. Com amplo apelo em escolas religiosas do Afeganistão e do Paquistão, em 1995 o Talibã já tinha cerca de 15 mil membros.

Entre os posicionamentos de Omar estavam a oposição tanto à invasão soviética, que trouxe costumes ocidentalizados ao Afeganistão, quanto às milícias que governavam partes do país após o fim do conflito. À época, diversas facções de mujahidins disputavam o vácuo de poder deixado pelos soviéticos, em uma guerra civil que durou de 1992 a 1996. Na visão do Talibã, os conflitos geravam sofrimento ao povo afegão, e aconteciam porque a população não seguia as interpretações mais rígidas da Sharia.

Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15
Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15 (Foto: Wakil Kohsar / AFP )

O Talibã já governou o Afeganistão antes?

Já em seu princípio o Talibã tinha sua própria milícia, devido às armas e treinamentos recebidos de Paquistão e Estados Unidos, durante a guerra contra a União Soviética. Lançando, em dezembro de 1994, em um ataque na cidade natal de Omar, Kandahar, o grupo tomou o poder na região. Nos meses seguintes, as investidas militares continuaram: em setembro de 1996, o Talibã havia conquistado Cabul.

Entre 1996 e 2001, o Talibã foi o governo de fato do país, com o nome de Emirado Islâmico do Afeganistão. Após duas décadas de conflitos, entre a invasão soviética e a guerra civil, todavia, a região estava destruída, e acesso a itens básicos como água potável, comida e eletricidade dependiam de ajuda humanitária. Com uma política de desconfiança em relação a não-muçulmanos, o Talibã dificultou ou impediu ações de organismos internacionais no país.

Durante seu governo, o Talibã firmou parceria com a organização terrorista Al-Qaeda. O grupo criado por Osama Bin Laden teve grande integração com as forças de segurança do Afeganistão no período, auxiliando o governo do Talibã a manter a autoridade no país mesmo com o colapso social.

O Talibã é uma organização terrorista?

A princípio, o foco do Talibã não era atuar como grupo terrorista. Embora tenha posicionamentos similares ao de grupos como Al-Qaeda e Daesh (Estado Islâmico), o objetivo inicial do Talibã era o estabelecimento de um governo sob uma visão extremista do islã.

Diferentemente destas organizações, que realizam ações como o atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e diversos ataques a bomba, em países como Inglaterra, Espanha, Iraque e Indonésia, o Talibã focava em ações de política interna, primariamente no Afeganistão e em partes do Paquistão. Após a queda do governo, devido à invasão estadunidense em 2001, o Talibã passou a usar táticas de terrorismo, como homens-bomba.

Há, ainda, relações próximas do Talibã com grupos terroristas. A Al-Qaeda, por exemplo, atuou durante anos dentro do governo afegão, na época que este era comandado pelo Talibã. A filha de Mohammad Omar, fundador do Talibã, se casou com um dos filhos de Osama Bin Laden, em um estreitamento dos laços entre os dois grupos.

Apesar de não ter sido sempre considerado um grupo terrorista, por não realizar habitualmente ataques e atentados como organizações do tipo, o Talibã é conhecido por usar de extrema violência. Entre suas ações há a execução de opositores, coerção e ameaças.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, por exemplo, ficou conhecida por sua resistência às políticas do Talibã, que proíbe mulheres de estudar nas regiões que ocupa. Em 2012, ela foi atacada por um atirador do Talibã em retaliação a seu ativismo.

Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15
Tropas do Talibã tomaram o controle da capital do Afeganistão, Cabul, neste domingo, 15 (Foto: Wakil Kohsar / AFP )

Como o Talibã retomou o Afeganistão?

Após o ataque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas, em 2001, o governo dos Estados Unidos, em conjunto com outros países, invadiu o Afeganistão, dando início à chamada "Guerra ao Terror". A ofensiva foi intensa e, em cerca de dois meses, o governo do Talibã havia sido deposto.

Ao longo das duas décadas seguintes, tropas estadunidenses se mantiveram na região, além de realizar incursões em outros países próximos, como Iraque (resultando na Guerra do Iraque), Síria e Iêmen. Apesar de ter gasto mais de 1,5 trilhão de dólares nestes conflitos, sendo mais de US$ 1 trilhão somente no Afeganistão, o governo dos Estados Unidos nunca conseguiu remover totalmente a influência do Talibã no país.

Até 2014, as tropas estadunidenses estavam envolvidas diretamente em combates com remanescentes do Talibã no Afeganistão. Em outubro daquele ano, porém, o papel do exército dos Estados Unidos se tornou de treinamento e apoio logístico às forças armadas do Afeganistão, reunidas em 2011.

A partir de então, o Talibã passou a se reorganizar para não apenas reagir em combate contra as tropas estadunidenses, voltando a usar táticas políticas e militares para se reerguer. Além da reestruturação das milícias, o Talibã passou a atuar no interior do Afeganistão, argumentando que a ocupação dos Estados Unidos e os governos de transição impediam que o nível de vida da população melhorasse.

Com um contingente renovado, o Talibã aproveitou as negociações de retirada das tropas internacionais para retomar de forma significativa diversas províncias do Afeganistão. Em fevereiro de 2020, já com controle territorial significativo no país, o Talibã e o governo dos Estados Unidos assinaram um acordo de paz que previa o fim da ocupação estrangeira no país.

Apesar da transição entre os governos de Donald Trump e Joe Biden ter gerado atrasos no planejamento inicial, em maio de 2021 as últimas tropas estadunidenses começaram a retirada. Conforme as forças armadas do Afeganistão eram deixadas como única linha de defesa em diversas regiões do país, o Talibã avançou na captura de mais regiões.

No começo de agosto, havia apenas cerca de 650 soldados dos Estados Unidos no Afeganistão. Conforme o Talibã capturava mais regiões do país, o exército afegão permaneceu com apenas dois pelotões, ambos na capital Cabul. Com pouca resistência, o Talibã aumentou a intensidade e a agressividade das ações, chegando a Cabul nesse domingo.

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, fugiu do país algumas horas antes das tropas do Talibã avançarem sobre Cabul. O grupo, que chegou aos limites da cidade na manhã de domingo (horário local), afirmou que não tomaria a capital antes de negociar uma transição pacífica do poder.

Com a fuga de Ghani, porém, o Talibã decidiu entrar na cidade. Em comunicado, o grupo afirmou que a mudança de posição aconteceu para "evitar o caos e os saques", uma vez que a polícia local abandonou os postos.

Na incursão, as tropas do Talibã capturaram prisões em Cabul e na cidade vizinha de Bagram, libertando milhares de prisioneiros. Entre os libertos, há membros do Daesh e da Al-Qaeda. Na noite de domingo, o Talibã chegou ao palácio presidencial, e declarou a retomada do governo deposto em 2001 (Bemfica de Oliva).

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Biden: Quantas gerações mais de filhas e filhos vocês querem que eu envie?

INTERNACIONAL
23:35 | Ago. 16, 2021
Autor Agência Estado
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Nos primeiros comentários sobre o retorno do Taleban ao poder no Afeganistão e a caótica retirada de diplomatas americanos do país, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, defendeu nesta segunda-feira, 16, sua decisão de manter a retirada de tropas dos Estados Unidos do país e reconheceu que a situação se deteriorou mais rápido do que o previsto pelo Pentágono. Ele ainda culpou o governo afegão do presidente deposto Ashraf Ghani pelo colapso e o antecessor, Donald Trump, pela atual força militar do Taleban.
"Eu mantenho totalmente minha decisão", afirmou Biden. "Os líderes afegãos fugiram e o Exército entrou em colapso sem tentar lutar."
Nos seus quase 20 minutos de pronunciamento, o democrata defendeu a decisão da retirada das tropas -- um movimento amplamente apoiado pela população americana -- mas não assumiu culpa pela estratégia de retirada considerada catastrófica. O grande foco das críticas que seu governo tem recebido não está voltado para a saída dos militares americanos do país após 20 anos, mas sim pela maneira como foi realizada. "Depois de 20 anos, aprendi da maneira mais difícil que nunca é um bom momento para retirar as forças americanas. É por isso que ainda estamos lá", disse.
Até semana passada, o Departamento de Estado rejeitava a ideia de fechar a embaixada em Cabul e defendia que a tomada da capital pelo Taleban poderia levar meses. Hoje, Biden admitiu que a situação "se desenrolou mais rapidamente do que o previsto".
O presidente argumentou que herdou o acordo feito por Trump com o Taleban, segundo o qual os EUA se retirariam do país até 1o de maio. "Pouco mais de três meses depois que eu assumi o cargo", disse Biden, ao lembrar que o governo do republicano reduziu de 15,5 mil para 2,5 mil o contingente de soldados no país. Ele tinha uma escolha, disse, cumprir o acordo ou voltar a lutar com o Taleban.
Ele disse que, em julho, o governo de Ghani prometeu que as forças afegãs lutariam para impedir o avanço do Taleban. "Obviamente ele estava errado", afirmou Biden. "As tropas americanas não podem e não devem estar lutando em uma guerra e morrendo em uma guerra que as forças afegãs não estão dispostas a lutar por si mesmas. Gastamos mais de um trilhão de dólares. Treinamos e equipamos uma força militar afegã maior em tamanho do que os militares de muitos de nossos aliados da OTAN. Nós demos a eles todas as ferramentas de que eles poderiam precisar", disse Biden. "Demos a eles todas as chances de determinar seu próprio futuro. O que não podíamos fornecer era a vontade de que lutassem por esse futuro", justificou o americano.
Ele também colocou no governo de Ghani parte da culpa por não ter retirado os aliados civis mais rapidamente do país, uma das mais severas críticas ao governo americano. Com a caótica estratégia de retirada das tropas e o avanço do Taleban, tradutores e outros civis que ajudaram os americanos ficaram para trás e temem retaliações.
"Sei que há preocupações sobre o motivo pelo qual não começamos a evacuar os afegãos e civis antes. Parte da resposta é que alguns dos afegãos não queriam partir mais cedo, ainda esperançosos por seu país. E em parte porque o governo afegão e seus apoiadores nos desencorajaram a organizar um êxodo em massa para evitar o desencadeamento, como eles disseram, de uma crise de confiança", afirmou o presidente americano.
Biden interrompeu as férias de verão em Camp David e viajou para a Casa Branca para o pronunciamento sobre o Afeganistão. Ele já vinha sendo cobrado por críticos e tido sua empatia com o povo afegão questionada pelo silêncio de mais de 24 horas.
Ele centrou os argumentos no que mais toca o eleitorado americano: o custo financeiro e pessoal de manter a guerra. "Quantas gerações mais de filhas e filhos da América vocês querem que eu envie para a Guerra Civil Afegã quando as tropas afegãs não lutam (essa guerra)? Quantas filas intermináveis de lápides no Cemitério Nacional de Arlington? Não vou repetir os erros que cometemos no passado, o erro de permanecer lutando indefinidamente em um conflito não é do interesse nacional dos Estados Unidos", afirmou.
Biden prometeu usar diplomacia e influência geopolítica para batalhar pelos direitos de mulheres e civis afegãos, o que foi imediatamente criticado por analistas como "promessas vazias". "Eu sei que minha decisão será criticada. Mas eu prefiro pegar todas essas críticas a passar essa decisão para outro presidente dos EUA, para um quinto presidente, porque é a decisão certa para o nosso povo", disse o presidente, que não respondeu perguntas de jornalistas.

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Governo Bolsonaro pede reação da ONU e respeito às mulheres no Afeganistão

Conflitos
23:21 | Ago. 16, 2021
Autor Lara Vieira
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O governo Jair Bolsonaro divulgou comunicado na noite desta segunda-feira, 16, em que expressa "apreensão com o aumento da instabilidade na Ásia Central". Foi frisada, ainda, a necessidade de respeitar os direitos de mulheres e meninas da região. A nota faz referência aos conflitos registrados desde o domingo, 15, quando o grupo Talibã assumiu o poder da capital, Cabul.

"O governo brasileiro expressa sua profunda preocupação com a deterioração da situação no Afeganistão e as graves violações dos direitos humanos", expressa a nota emitida pelo Ministério das Relações Exteriores. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o comunicado também ressaltava a rápida ação da ONU. "O Brasil espera o rápido engajamento das Nações Unidas para o estabelecimento de canais de diálogo e espera que o Conselho de Segurança possa atuar para assegurar a paz na região", escreveu o Itamaraty.

É essencial assegurar a atuação plena da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama)", continua a pasta. O governo também suplica que os líderes locais devem "proteger civis, respeitar o direito internacional humanitário, garantir o acesso desimpedido da ajuda humanitária e respeitar os direitos fundamentais do povo afegão, em especial de mulheres e meninas".

Entre os anos de 1996 e 2001, período em que o Talibã esteve no controle do Afeganistão, mulheres e jovens eram proibidas de estudar, bem como trabalhar fora de casa. Atualmente, de acordo com o Itamaraty, não há registro de brasileiros morando ou em trânsito no Afeganistão. Além disso, até o presente momento, o Brasil não tem embaixada no país sob comando do Taleban.


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Cineasta afegã pede ajuda em comunicado durante tomada pelo Talibã

TOMADA DO AFEGANISTÃO
21:33 | Ago. 16, 2021
Autor Nadine Lima
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A cineasta afegã Sahraa Karimi, por meio de uma carta aberta e de um vídeo no Twitter, pediu ajuda das comunidades de cinema ao redor do mundo para a situação enfrentada em seu país após a tomada do Afeganistão pelo Talibã. Ela é a primeira e única mulher a ter um doutorado em Cinema em seu país.

“Estou escrevendo isto com o coração partido e com a profunda esperança de que você se junte a nós para salvar meu país do Talibã. Eles massacraram nosso povo, sequestraram muitas crianças, mataram uma mulher em nome do vestido, torturaram e mataram um de nossos comediantes favoritos, mataram um poeta pré-histórico. Eles mataram pessoas ligadas ao governo, alguns de nós foram enforcados em público e deslocaram milhões de famílias”, relata Karimi em um trecho da carta.

Entre as pessoas que apoiaram Karimi após seu comunicado, estão a cineasta indiana Leena Manimekalai, o diretor irlândes Mark Cousins, o diretor indiano Vivek Ranjan Agnihotri e o cineasta indiano Anurag Kashyap.

Além de descrever o terror enfrentado, a cineasta também compartilhou imagens de cenas fortes do aeroporto de Cabul, em que inúmeras pessoas aparecem presas enquanto tentam fugir do Talibã. Entre essas pessoas, ao menos cinco morreram enquanto tentavam desesperadamente fugir. Com a tomada pelo grupo extremista, o Afeganistão não participará das paralimpíadas. 

Leia a carta aberta de Sahraa Karimi na íntegra: 

"A todas as comunidades de cinema do mundo e a quem ama filmes e cinema,

Meu nome é Sahraa Karimi, diretora de cinema e atual diretora-geral da Afghan Film, a única empresa cinematográfica estatal no Afeganistão, fundada em 1968.

Escrevo a você com o coração partido e uma profunda esperança de que possa se juntar a mim na proteção de meu belo povo, especialmente os cineastas do Talibã.

Nas últimas semanas, o Talibã conquistou o controle de muitas províncias. Eles massacraram nosso povo, sequestraram muitas crianças, venderam meninas como noivas para seus homens, assassinaram uma mulher por seu traje, torturaram e assassinaram um de nossos amados comediantes, assassinaram um dos nossos poetas e historiadores, assassinaram o chefe da Cultura e dos meios de comunicação do governo, têm assassinado pessoas afiliadas ao governo, enforcaram publicamente alguns dos nossos homens, deslocaram centenas de milhares de famílias.

As famílias seguem acampadas em Cabul após fugirem dessas províncias e estão em condições insalubres. Há saques nos acampamentos, e bebês estão morrendo por não terem leite. É uma crise humanitária, mas o mundo está em silêncio. Acostumamo-nos a este silêncio, mas sabemos que não é justo. Sabemos que essa decisão de abandonar nosso povo está errada, e que essa retirada precipitada das tropas americanas é uma traição ao nosso povo e a tudo o que fizemos quando os afegãos venceram a Guerra Fria para o Ocidente.

Nosso povo foi esquecido. Agora após vinte anos de ganhos imensos para nosso país, especialmente para nossas gerações mais jovens, tudo pode ser perdido novamente neste abandono.

Precisamos de sua voz. A mídia, os governos e as organizações humanitárias mundiais estão convenientemente em silêncio, como se o tal 'acordo de paz' com o Talibã fosse legítimo. Nunca foi legítimo. Reconhecê-lo deu-lhes confiança para voltar ao poder. O Talibã tem brutalizado nosso povo durante todo o processo das negociações. Tudo o que trabalhei muito para construir como cineasta em meu país corre o risco de acabar.

Se o Talibã assumir o controle, eles vão banir toda a arte. Eu e outros cineastas podemos ser os próximos em sua lista de alvos. Eles vão tirar os direitos das mulheres: seremos empurrados para as sombras de nossas casas e de nossas vozes, e nossa expressão será abafada no silêncio. Quando o Talibã esteve antes no poder, nenhuma menina frequentava escolas. Desde que o grupo deixara o controle do país, mais de 9 milhões de meninas afegãs se matricularam na escola. Isso é incrível. Herat, a terceira maior cidade que acabou de ser dominada pelo Talibã, tinha quase 50% de mulheres em sua universidade. São ganhos incríveis que o mundo mal conhece. Nessas poucas semanas, porém, o Talibã destruiu muitas escolas, e 2 milhões de meninas foram forçadas a deixar a escola novamente.

Não entendo este mundo. Não entendo o silêncio (do mundo). Vou ficar e lutar pelo meu país, mas não posso fazer isso sozinha. Preciso de aliados como você. Ajude-nos a fazer com que o mundo se preocupe com o que está acontecendo conosco.

Ajude-nos informando aos meios de comunicação mais importantes de seus países o que está acontecendo aqui no Afeganistão. Sejam nossas vozes fora do Afeganistão. Se o Talibã assumir o controle de Cabul, talvez não tenhamos acesso à internet ou a qualquer ferramenta de comunicação. Por favor, envolva seus cineastas e artistas para nos apoiar e ser nossa voz. Esta guerra não é uma guerra civil. É uma guerra por procuração, é uma guerra imposta. Por favor, compartilhe este fato com sua mídia e escreva sobre nós em suas redes sociais. O mundo não deve virar as costas para nós.

Precisamos do seu apoio e da sua voz em nome das mulheres, crianças, artistas e cineastas afegãos. Esse apoio seria a maior ajuda de que precisamos agora.

Por favor, ajude-nos a fazer com que este mundo não abandone o Afeganistão. Por favor, ajude-nos antes que o Talibã assuma o controle de Cabul. Temos tão pouco tempo, talvez dias."

 

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Blinken chama China e Rússia para discutir colapso do Afeganistão

21:05 | Ago. 16, 2021
Autor AFP
Tipo Notícia

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, abordou nesta segunda-feira, 16, o colapso do governo do Afeganistão, apoiado pelo Ocidente, com autoridades da China e da Rússia, dois rivais frequentes dos Estados Unidos que anunciaram rapidamente que trabalhariam com o Talibã.

Blinken falou separadamente com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e seu homólogo chinês, Wang Yi, para discutir a situação de segurança e os esforços para evacuar as pessoas para um local seguro.

O Departamento de Estado não forneceu mais detalhes.

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A Rússia garantiu que Blinken e Lavrov discutiram a reaproximação iniciada por Moscou com várias forças políticas afegãs para "ajudar a garantir a estabilidade e a ordem pública".

Ambas as partes "concordaram em continuar as consultas com a participação da China, Paquistão e outras nações interessadas para estabelecer as condições certas para iniciar um diálogo inclusivo entre os afegãos", disse um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

Em discurso à nação na Casa Branca, nesta segunda-feira, 16, o presidente americano, Joe Biden, disse que prorrogar a guerra no Afeganistão teria beneficiado China e Rússia.

"Nossos verdadeiros concorrentes, chineses e russos, amariam que os Estados Unidos continuassem investindo bilhões de dólares em recursos e atenção para estabilizar o Afeganistão indefinidamente", declarou Biden na Casa Branca ao defender a decisão de retirar as tropas americanas do país.

Tanto a Rússia quanto a China intensificaram seus contatos com o Talibã depois que os Estados Unidos decidiram se retirar do Afeganistão, encerrando um envolvimento militar de 20 anos e causando um colapso rápido do governo do país asiático.

Moscou, que nos tempos soviéticos ocupou o Afeganistão por uma década durante a qual lutou contra as guerrilhas islâmicas então apoiadas por Washington, manteve sua embaixada aberta em Cabul e planeja negociações com os talibãs.

A Rússia disse que vê os talibãs "restaurando a ordem", enquanto a China anunciou na segunda-feira que deseja relações "amistosas e cooperativas" com o Afeganistão sob o comando do Talibã.


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