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Indígenas e servidores da Funai no Ceará denunciam ataques e cobram justiça por Dom e Bruno

Assassinato de indigenista e jornalista britânico no Amazonas não é caso isolado, defendem indígenas e servidores da Funai cearenses que reclamam de insegurança

Povos indígenas e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) do Ceará realizaram protesto na manhã desta quinta-feira, 23, no bairro Benfica. Eles pediram justiça e esclarecimentos sobre o assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira. O protesto ainda denunciou ataques sofridos por lideranças indígenas, assédio institucional a servidores da Funai e a falta de segurança vivida pelos dois grupos.

A manifestação foi iniciada na sede da Funai, na rua Gervásio de Castro, seguiu pela avenida Carapinima e pela avenida Treze de Maio até a Praça da Gentilândia. Em todo o Brasil, indígenas e servidores do órgão federal se reuniram para protestar. No Ceará, o Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado do Ceará (Sintsef) também participou da organização do ato.

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A coordenação da Regional Nordeste II da Funai, que funciona em Fortaleza, atende indígenas do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Cerca de 30 etnias divididas entre 45 municípios dos três estados são atendidas por 21 servidores da Fundação.

De acordo uma servidora presente no protesto que não quis se identificar devido ao medo de perseguições, a Funai tem serviços precarizados e passa por um “desmonte da política indigenista”. “A gente tem sido cortado. São informações técnicas que não andam, documentos que são modificados”, conta.

“Nunca foi fácil, mas acho que agora há um momento mais grave. Porque antes não queriam nos matar. Mas agora, meu colega Bruno foi assassinado porque queria fazer um bom trabalho. Ele teve que pedir licença por motivo particular porque estava sendo perseguido dentro da Funai. Eu acho que essa é uma dimensão de violência mais severa do que a gente tinha antes”, afirma a servidora que trabalha na Fundação há mais de quatro anos.

Paulo Anacé, liderança indígena do povo Anacé e membro da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince), afirma que pessoas que lutam pelos direitos dos povos indígenas estão em perigo.

“Eu, por exemplo, sou um que vive em programa de proteção, sou ameaçado de morte. Nós que somos originários somos os mais perseguidos. Resolvemos dar esse grito para dizer que não aceitamos esse governo genocida e esses representantes que eles colocam dentro da fundação”, diz.

Ceiça Pitaguary, liderança indígena de Maracanaú, denuncia casos de violência dentro do território indígena do povo Pitaguary e descaso da Funai
Ceiça Pitaguary, liderança indígena de Maracanaú, denuncia casos de violência dentro do território indígena do povo Pitaguary e descaso da Funai (Foto: Letícia Alves/Sintsef-CE)

A liderança indígena Ceiça Pitaguary também defende que os assassinatos do indigenista e do jornalista britânico não são casos isolados. “Não se tem demarcação de terra, não se tem proteção das terras indígenas e chega ao ponto dos próprios indigenistas serem assassinados, como o Bruno Pereira. Aqui no Ceará também não é diferente, as nossas lideranças vêm sofrendo ataques permanentemente. Nós que estamos fazendo a proteção, a vigilância, e pagando também com a vida”, reclama.

Ceiça lembra do atentado ocorrido contra a cacique Madalena Pitaguary, dentro do território indígena, em 2018. Madalena sofreu um ataque de um homem armado, levando um tiro na nuca. A vítima também estava no protesto denunciando não só a violência, mas o descaso da Funai perante a crimes contra indígenas.

“Nesses casos de violências, atentados, mortes, nós dentro da aldeia não recebemos nem a nota de pesar da Funai, imagina uma visita. Imagina ir lá perguntar se a família tá bem ou o que está precisando. Isso nos deixa muito tristes, angustiados, porque nós precisamos de um órgão que carregue o nome e a bandeira de defender o povo indígena”, lamenta Madalena.

Violência de facções criminosas em terras indígenas

 

Além do descaso estatal, os indígenas presentes na manifestação denunciaram a violência causada pela presença de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas dentro dos territórios. O POVO apurou que pelo menos 13 famílias indígenas do povo Tapeba, localizado em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), foram expulsas de suas casas por membros de facções.

Também são registradas ameaças de morte, violência física e impossibilidade de realização de atividades produtivas indígenas. “As facções tomaram conta de todos os territórios e vão pra cima da gente. A gente é perseguido tanto pelo Estado quanto pela falta de segurança dessas quadrilhas organizadas”, diz Paulo Anacé.

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