CE: Doenças seguem como endemias em vilas do Rio São Francisco

CE: Doenças seguem como endemias em vilas do projeto de integração do rio São Francisco no CE

O resultado foi obtido a partir de pesquisa realizada pela UFC. Doença de Chagas e esquistossomose persistem como endemias nas comunidades reassentadas pelo projeto, apesar de melhorias na infraestrutura e condições sanitárias

Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) revelou que doenças tropicais associadas à pobreza persistem como endemias em comunidades reassentadas pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco no Ceará.

 

O estudo identificou casos de esquistossomose e a presença de barbeiros, que são os insetos vetores da doença de Chagas, em vilas produtivas rurais localizadas nos municípios de Jati, Brejo Santo e Mauriti, mesmo com melhorias nas condições sanitárias e na infraestrutura dos locais.

A área de atuação dos pesquisadores totalizou 39 quilômetros de extensão, onde estão construídas as vilas produtivas rurais de Ipê (Jati – 14 casas), Descanso (Mauriti – 77 casas) e Vassouras (Brejo Santo – 154 casas).

A pesquisa, cuja coleta de dados e as análises foram realizadas entre 2019 e 2020, envolveu moradores de áreas que receberam mais de 200 famílias reassentadas pelas obras de transposição, afetadas diretamente.

Em relação à esquistossomose, das 234 amostras analisadas, 11,5% dos participantes apresentaram resultados positivos no exame de urina.

Nas 368 amostras de sangue coletadas para avaliar a doença de Chagas, a prevalência foi de 0,3%.

Além disso, em quatro das 245 casas inspecionadas, foram encontrados insetos Barbeiros, embora nenhum deles estivesse infectado pelo Trypanosoma cruzi, agente causador da doença.

O estudo também realizou 300 avaliações clínico-epidemiológicas para a hanseníase. “A partir da identificação de alterações na pele e em nervos periféricos durante os exames, foram reconhecidos 8 casos suspeitos”, destaca um trecho da pesquisa. Após o envio das amostras para a avaliação com especialistas, nenhum caso foi confirmado.

A pesquisa contou com apoio do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS) e parceria da Secretaria da Saúde do Ceará e das prefeituras locais. Os resultados foram publicados no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.

Pesquisador destaca que vulnerabilidade social e acesso limitado aos serviços de saúde seguem sendo desafios

Os resultados obtidos pelos pesquisadores demonstraram que, ao todo, 810 pessoas habitavam as três vilas produtivas rurais (52 em Ipê, 275 em Descanso e 483 em Vassouras) no período do estudo.

De acordo com o estudo, em 180 unidades domiciliares (73,5%), havia o recebimento de algum benefício social, o meio de transporte familiar mais utilizado era a motocicleta (39,6%) e, considerando o salário mínimo de R$ 998 em 2019, a maioria das famílias (68,6%) possuía renda entre um e dois salário mínimos.

Em entrevista à UFC, o pesquisador, farmacêutico e doutor em Saúde Pública, José Damião da Silva Filho, destacou que os resultados revelam que a “infraestrutura, por si só, não elimina o risco”.

Para ele, a vulnerabilidade social e acesso limitado aos serviços de saúde continuam sendo fatores determinantes para a manutenção dessas doenças nas comunidades. O pesquisador destaca que o enfrentamento às doenças tropicais negligenciadas exige uma visão ampla e integrada, em que a saúde pública olhe para além das paredes das casas.

Conforme o pesquisador e professor Fernando Schemelzer de Moraes Bezerra, do Departamento de Análise Clínica e Toxicológica da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC, em entrevista à universidade, a presença desses insetos dentro e ao redor das resistências por si só representa um risco que ainda existe e precisa ser monitorado.

A pesquisa conclui que, considerando os “contextos de endemicidade e vulnerabilidade para esse grupo de doenças, torna-se fundamental fortalecer a inclusão do tema nas agendas públicas municipais e estadual para vigilância e controle, incluindo ações de educação permanente em saúde”.

O grupo pretende revisitar as vilas para investigar os impactos da chegada efetiva das águas do São Francisco sobre o comportamento dos vetores e a incidência das doenças.

Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente

Tags

Os cookies nos ajudam a administrar este site. Ao usar nosso site, você concorda com nosso uso de cookies. Política de privacidade

Aceitar