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Durante pandemia, pedintes vão a portas de supermercados de Fortaleza

A situação é traço da desigualdade na qual vivem aqueles que já sobreviviam de ajudas na rua ou dos indivíduos que se tornaram obrigados a pedir para se alimentar

Marcela Tosi
17:10 | 23/04/2020
FORTALEZA, CE, BRASIL, 08.04.2020: pedintes ficam nas portas de estabelecimentos essenciais como supermercados e padarias para conseguir algum alimento. (Fotos: Fabio Lima/O POVO) (Foto: Fabio Lima)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 08.04.2020: pedintes ficam nas portas de estabelecimentos essenciais como supermercados e padarias para conseguir algum alimento. (Fotos: Fabio Lima/O POVO) (Foto: Fabio Lima)

O isolamento social, para retardar a proliferação do novo coronavírus, impôs novo cenário à Fortaleza: cresce a quantidade de pedintes em frente a supermercados. Mesmo com a ampliação de vagas em abrigos públicos, o funcionamento de equipamentos assistenciais de domingo a domingo e as campanhas de auxílio social, muitas pessoas ainda vivem um cotidiano de vulnerabilidade e exposição à pandemia. A situação é traço da desigualdade na qual vivem aqueles que já sobreviviam de ajudas na rua ou dos indivíduos que se tornaram obrigados a pedir para se alimentar.

“Essas famílias estão ali porque ainda não têm o suporte público necessário nos seus territórios. As pessoas não estão ali simplesmente porque querem; elas se expõem dessa forma por não ter o que comer, não ter ajuda próximo de onde estão”, afirma a coordenadora da Pastoral do Povo da Rua, Fernanda Gonçalves. Ela analisa que os cortes aplicados às políticas federais de assistência social nos últimos anos fazem parte da explicação. “Tínhamos saído do mapa mundial da fome e as populações estavam mais fortalecidas. Agora temos políticas cada vez mais fragilizadas e isso tem um impacto enorme nos indivíduos, que voltam para o patamar de miséria do qual tinham saído.”

Para ela, o teleatendimento implantado nos Centros de Referência da Assistência Social (Cras), “apesar de fazer parte das medidas importantes colocadas pelo governo estadual e municipal”, também é um fator explicativo. “A rua tem ampliado seu público por conta das famílias em vulnerabilidade que vêm das comunidades. Muitas pessoas não conseguem ser atendidas por telefone, seja por dificuldade pessoal seja pela complexidade do que precisam”, expõe. “O ideal seriam atuações do Cras nos territórios e até com equipes emergenciais para atender às demandas.”

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Nesta semana, O POVO esteve em alguns supermercados e conversou com seus responsáveis administrativos. Em um deles, o gerente Ednardo Nascimento afirma que a cena não era comum, mas nos últimos dias se tornou corriqueira. “A gente entende como um movimento natural. Com shoppings e comércio fechado, eles acabam migrando para onde tem movimentação de pessoas”, analisa.

Apesar de alegar que compreende a situação, Nascimento afirma que é incômodo para parte dos clientes. “O problema é a aglomeração e o incômodo pro cliente. Ele já sai para ser rápido, mas é abordado. Às vezes se chateia. Ninguém sabe quem são essas pessoas ou a índole. Pode trazer risco de um assalto. É mais o resguardo à frente da loja. No mais, a gente tenta resolver tudo tranquilo”, acrescenta.

Ao longo do último mês, desde que a o Ministério Público do Ceará recomendou a elaboração de um plano de contingência voltado à população de rua, a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHSD) vem adotando algumas medidas.

Sobre alimentação, o secretário Renato Borges explica que mil almoços, cestas básicas e sopas são distribuídos diretamente nos locais em que os grupos costumam se reunir. O objetivo é evitar filas e aglomerações no refeitório social e no restaurante popular.

Além de garantir o funcionamento dos Centros Pop, das unidades de acolhimento e da Casa de Passagem, foram abertos três locais pensados para o momento. “A pousada social no centro foi transformada para atender 24 horas. Além disso, abrimos um abrigo emergencial na Barra do Ceará e uma unidade destinada somente às pessoas que apresentarem sintomas e precisarem de isolamento”, enumera Borges. Todos os equipamentos estão recebendo visitas do núcleo de saúde municipal, equipamentos de proteção individual e maior limpeza dos prédios.

Em relação aos Cras, o secretário explica que todos os serviços podem ser feitos pelo telefone 156 ou pelos contatos de cada centro. Em alguns casos haverá atendimento presencial, mas apenas em situações extremas, após avaliação profissional.

Campanhas solidárias

Organizada com outros grupos da sociedade civil, a Pastoral do Povo da Rua vem demandando ações públicas e, ao mesmo tempo, organizando campanhas de doação. Entre os dias 23 de março e 7 de abril, foram entregues 1.202 cestas básicas e 513 kits de higiene pessoal às pessoas em situação de rua e a moradores das comunidades de Fortaleza.

A solidariedade vem também de iniciativas autônomas que surgem nas redes sociais. Entre elas está um financiamento coletivo para a família do artista de rua Yorge Luís Ruiz, conhecido por seu trabalho como estátua viva junto da cadelinha Jaspe na Praça do Ferreira. “Com a quarentena, não tem como trabalhar na rua. Por sugestão de seguidores, criamos a vaquinha e em poucas horas tínhamos batido a meta”, conta sua esposa, Yorgelys Aular. Diante da contribuição calorosa, a vaquinha se tornou uma forma ajudar mais pessoas.“A gente já estava dando marmitas e água para os moradores de rua no Centro e agora estamos conseguindo ampliar essa ajuda.”

Conforme as doações de dinheiro ou comida chegam, o casal também ajuda amigos venezuelanos que também trabalham nas ruas e está articulando doação de uma tonelada de ração para cuidadores de animais. “Com tantas pessoas ajudando, sentimos que precisava fazer mais alguma coisa. Retribuir esse carinho”, explica Yorgelys. (Colaborou Ítalo Cosme)