Tiradentes exibe longa cearense sobre o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Tiradentes exibe longa cearense sobre o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Longa revisita comunidade religiosa destruída em 1937 e convida público a imaginar história por meio das imagens

Exibido nesta quarta-feira, 28, na mostra Panorama da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa-metragem cearense “Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” propõe uma abordagem sensorial e experimental sobre um dos episódios mais violentos da história brasileira no século XX.

Dirigido por Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro e Mariana Smith, o filme revisita a experiência comunitária liderada pelo Beato José Lourenço, destruída em 1937 após ser invadida pela polícia e bombardeada pela Força Aérea Brasileira.

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto foi uma comunidade camponesa e religiosa formada no sul do Ceará, entre 1926 e 1937, baseada no trabalho coletivo, na partilha dos bens e na vida espiritual.

A experiência reuniu milhares de pessoas e se tornou referência de autonomia no sertão nordestino. Vista como ameaça pelas elites locais e pelo Estado brasileiro, a comunidade foi perseguida e destruída em uma operação violenta que resultou na morte dos moradores e no apagamento histórico do movimento.

Em entrevista ao O POVO em Tiradentes, o diretor Lucas Parente explicou que a proposta do filme foi se afastar de uma abordagem tradicional.

“É uma história que costuma ser tratada de forma documental mais clássica, mas cuja fala nunca dá conta da experiência, porque o Caldeirão foi algo irrepetível”, afirmou.

De acordo com ele, o longa busca lidar justamente com esse caráter irrecuperável da vivência comunitária e com a violência de sua destruição.

Filme aposta na materialidade da imagem como linguagem central

A obra foi filmada em 16mm com película vencida, encontrada em um antigo depósito da Aeronáutica  no Recife. “Desde o início, a proposta era utilizar a película vencida e filmar o Caldeirão sem dizer nada diretamente. É quase o contrário de um livro de história, porque não há narração. O espectador é quem projeta, imagina o que aconteceu”, destacou Parente.

As marcas, ruídos e abstrações da imagem criam o que o diretor define como uma “presença da ausência”.

“A película deixa marcas, são como pegadas de luz. Isso gera a sensação de que algo aconteceu ali e continua se manifestando”. Apesar da aparência, o longa não utiliza imagens de arquivo. “Não é um documento, é um efeito de arquivo vivo”, explicou o diretor.

Produzido de forma coletiva e artesanal, com recursos da Lei Paulo Gustavo do município do Crato, "Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto" reafirma o cinema como espaço de fabulação histórica e política.

Para Lucas Parente, o Caldeirão permanece atual, menos como lugar físico e mais como ideia.“É uma utopia realizada, baseada no comunitarismo, onde trabalho e espiritualidade não se separam”, arrematou.

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