Morre Zé Tarcísio, multiartista cearense, aos 84 anos

Morre Zé Tarcísio, multiartista cearense, aos 84 anos

Referência nas artes plásticas cearenses, Zé Tarcísio reúne mais seis décadas dedicadas à cultura
Atualizado às Autor Bianca Raynara Tipo Notícia

Morreu nesta sexta-feira, 9, o multiartista cearense, Zé Tarcísio (1941-2026). O seu trabalho reuniu mais de seis décadas dedicadas às artes plásticas.

O velório de acontecer no 10 horas do sábado, 10, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Já o enterro está previsto para às 15 horas no  Cemitério São João Batista.

Nas redes sociais, o sociólogo e gestor cultural, Marcio Caetano comentou sobre a legado de Zé. “Zé Tarcísio se encantou _ virou uma estrela. além do artista foi um militante das artes e da cultura _ vai fazer uma falta danada _ vá na paz”, compartilha.

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A carreira de Zé Tarcísio

Fortalezense nascido em 1941, Zé Tarcísio iniciou a carreira artística aos 19 anos. Ganhou projeção nacional a partir dos anos 1970 com obras que variam entre pintura, objetos e instalações, e que buscam fortalecer o debate entre memória, natureza e cultura.

Nessa época, Zé Tarcísio foi reconhecido nacionalmente por participar da Bienal de Paris e do Salão Nacional de Arte Moderna.

Suas obras já foram expostas em diversos espaços culturais do país como: Museu Nacional de Belas Artes, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, o Museu Histórico Nacional e o Museu Afro Brasil, entre outros.

Recentemente ele ganhou uma homenagem aos 65 anos de carreira na Caixa Cultural Fortaleza, com a exposição “Zé Tarcísio – 6585", que reúne 60 de suas obras. A mostra segue em exibição até março de 2026.

Mensagens e legado

O artista deixa um rico legado às futuras gerações de artistas visuais. Com a sua partida, amigos e admiradores reafirmam o impacto de Zé e seu trabalho.

Para o administrador da Galeria Multiarte, Victor Perlingeiro, o trabalho do artista alçava questões para além da estética, alcançando debates políticos do momento em que suas criações estavam inseridas.

“Ele sempre foi um artista muito atento ao seu entorno. No Rio de Janeiro, tratava das questões políticas da época; ao voltar para o Ceará, passou a abordar temas territoriais de Fortaleza”, destaca.

Victor ainda reforça que o legado de Zé Tarcísio será bem recebido pelos curados e outros artistas contemporâneos.

“Acredito que a obra do Zé ainda será devidamente colocada no mercado e na história da arte. Seus contemporâneos são hoje nomes celebrados, e ele merece esse reconhecimento por tudo o que viveu e contribuiu artisticamente”, conclui.

Outra memória vem do vizinho do ateliê de Zé Tarcísio na Cidade 2000, o pintor Wilson Neto lembra das conversas frequentes que mantinha com o artista.

“O Zé era meu vizinho de ateliê, então toda semana eu o via passar. Às vezes, conversávamos no portão; às vezes, ele entrava para saber o que eu estava trabalhando”, conta.

Segundo ele, essas visitas se transformavam em momentos de aprendizado: “Ele sempre me dava muitos conselhos sobre a trajetória dele e me contava casos e histórias do passado das artes plásticas aqui no Ceará".

Ele ainda acrescenta: “Como ele tinha muita experiência no Rio e aqui no Ceará, falava sobre o trato comercial, sobre reservar sempre recursos para manter uma família e manter a qualidade da obra. E também sobre o que mostrar para curadores, era algo que ele sempre me orientava”.

Para Wilson, a morte de Zé Tarcísio representa uma grande perda para a cena artística cearense, ainda que o artista tenha deixado uma vida intensa e repleta de marcos culturais.

“Foi uma perda muito grande, apesar de ele ter uma vida repleta de acontecimentos importantes e relevância no cenário cultural”, afirma.

Ele lembra também da personalidade do amigo: “Ele gostava muito de conversar com os artistas e não tinha preconceito com arte popular ou arte conceitual. Ele gostava muito da vida”.

Já para Márcio Caetano, que deixou uma mensagem de amigo nas redes, a relevância de Zé Tarcísio ultrapassa gerações e fronteiras.

“Acho o Zé Tarcísio um dos principais artistas cearenses. Ele tem trajetória na militância cultural, foi secretário de cultura de Aracati e tem obras nas principais instituições brasileiras e também internacionais”, destaca.

Ele lembra ainda a generosidade e o legado do artista. “Durante muito tempo ele teve um ateliê na Rua Dragão do Mar, com acervo aberto ao público. O Zé era muito querido. Além de artista, virou um grande amigo. Tem representatividade nacional e internacional e deixa um legado enorme”, concluiu.

O artista plástico, designer gráfico e ilustrador cearense Mário Sanders relembra Zé Tarcísio como uma figura singular da arte brasileira, marcada pela liberdade criativa, pela pluralidade de linguagens e por uma postura ética distante das imposições do mercado.

Para ele, Zé carregava a aura de um artista à moda dos anos 1970, alguém guiado mais pelo pensamento e pela ideia do que por demandas comerciais.

“Desde que conheci Zé Tarcísio, sempre o vi como um artista à moda dos anos 1970, alguém não comprometido com o mercado, mas com a liberdade do pensamento e da criação. Ele tinha uma fala mansa, um jeito carinhoso e uma postura profundamente ética diante da arte”. 

Ao longo de sua trajetória, Zé Tarcísio transitou por diversas frentes da produção artística, das artes gráficas ao trabalho conceitual, passando pela performance, teatro, pintura, objeto e pela denúncia social.

Essa multiplicidade, segundo Sanders, foi uma de suas maiores contribuições para a arte cearense, especialmente por não se prender a uma linha técnica específica.

“Zé foi um artista completo. Atuou nas artes gráficas, no trabalho conceitual, na performance, no teatro, na pintura, no objeto e na denúncia social. Sua trajetória plural contribuiu de forma decisiva para a arte cearense, sempre guiada pela ideia, pelo pensamento, nunca presa a uma linha técnica”.

Além da importância artística, Mário Sanders ressalta o impacto pessoal do encontro com Zé Tarcísio, marcado por um gesto de generosidade e reconhecimento em um momento decisivo de sua carreira.

“Ele foi muito importante para mim porque foi o primeiro artista a se aproximar, falar do meu trabalho e elogiá-lo. Nosso primeiro encontro foi no Salão de Abril de 1985, quando fui premiado, e ele me procurou para conversar. Guardo esse momento com muito carinho”.

Exposição Zé Tarcísio – 6585

  • Quando: até 8 de março
  • Onde: Caixa Cultural Fortaleza (Avenida Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema)
  • Gratuito
  • Mais informações: instagram @caixaculturalfortaleza

 

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