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Museu de Arte Negra abre exposição, neste sábado, 4, em galeria no Inhotim

Projeto idealizado há quase 70 anos pelo multiartista Abdias Nascimento (1914-2011), o MAN ganha sede temporária num dos mais importantes espaços culturais do País, em Minas Gerais
11:11 | Dez. 04, 2021
Autor Cinthia Medeiros
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Cinthia Medeiros Editora Chefe do Núcleo de Cultura e Entretenimento do O POVO
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Tipo Notícia

Era por volta dos anos 1950 quando Abdias Nascimento (1914-2011) começou a idealizar um projeto voltado a catalogar e divulgar obras de artistas negros em suas mais diferentes linguagens. Ele iniciava ali um processo de desconstrução histórica de narrativas brancas sobre aqueles trabalhos, que quase sempre resumiam a estética proposta pelos negros ao campo da produção etnográfica.

Sendo ele próprio artista - poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico - bem sabia da relevância dessa iniciativa na luta contra o racismo estrutural e estruturante que também resvala na arte. Nascia assim a ideia do Museu de Arte Negra (MAN).

Inaugurado conceitualmente quase 70 anos atrás mas nunca materializado em forma de uma sede física, apesar dos muitos esforços de seu criador, o MAN foi crescendo em volume de acervo, a partir de doações e aquisições do próprio Abdias. Nesse período, as obras vêm sendo apresentadas em exposições pontuais em outros museus e ainda em versão digital, disponível no site do Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), também idealizado e fundado por ele em 1981.

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Neste 4 de dezembro, certamente, Abdias abriria um sorriso largo ao ver a semente que plantou anos atrás brotar em meio à vegetação exuberante que circunda as galerias do maior museu a céu aberto do mundo. É que pelos próximos dois anos, o Inhotim, em Brumadinho (MG), abre um pavilhão especial para abrigar a sede do MAN. "Um museu dentro do museu", como explica Douglas de Freitas, curador de Inhotim, ao se referir à iniciativa inédita da instituição em sediar um museu, fruto de uma parceria com o Ipeafro.

Imagem da exposição montada na Galeria da Mata, em Inhotim
Imagem da exposição montada na Galeria da Mata, em Inhotim (Foto: Divulgação)

"Botar a obra do Abdias e do Museu de Arte Negra aqui no espaço do Inhotim é fazer com que essa obra ganhe relevância, para que a gente, quem sabe um dia, consiga ter estrutura financeira, humana, pra poder construir nosso museu. Esse foi o grande sonho do Abdias, que não foi possível realizar com ele em vida por conta do racismo estrutural", enfatiza Julio Menezes, pesquisador do Ipeafro e coordenador do projeto do MAN.

Até dezembro de 2023 o público do Inhotim terá acesso a um importante panorama da arte negra - não somente composto por trabalhos feitos por artistas negros, mas também por obras em que a cultura negra esteja representada. A temporada será dividida em quatro "atos", como estão sendo chamados os ciclos de cinco meses entre uma renovação e outra das obras expostas na galeria.

No primeiro deles, que se inicia neste sábado, é o trabalho do próprio Abdias que ganha destaque, bem como sua conexão com o pernambucano Tunga (1952-2016), expoente da artes visuais e performáticas no País e grande amigo de Nascimento. Cerca de 90 obras, entre pinturas, desenhos, esculturas e videografias ocupam o espaço, montado estrategicamente ao lado da Galeria True Rouge, uma das primeiras da instituição e que expõe de forma permanente a instalação de título homônimo de Tunga.

"Nada melhor que pensar o Tunga, essa figura marcante do Inhotim, que está aqui desde os primórdios, que tem dois pavilhões dedicados a ele no Inhotim, recebendo e acolhendo o Abdias. Essa exposição celebra esse encontro, essa relação de admiração mútua entre os dois artistas", contextualiza Douglas de Freitas, enfatizando o caráter afetivo desta primeira etapa da mostra.

Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias e co-fundadora do Ipeafro, acompanhou a abertura da exposição emocionada. Percorreu em olhar e sorriso as obras expostas em paredes estrategicamente pintadas no amarelo de Oxum, tão presente na obra de seu companheiro de vida e de ativismo por 38 anos. "É um privilégio estar nesse espaço que é sagrado por ser o lugar dos orixás, que são as forças da natureza. Não há nada mais apropriado pra mim do que essa exposição acontecer aqui no Inhotim", celebrou.

Quem foi Abdias Nascimento

Poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico e professor universitário, Abdias Nascimento (1914-2011) foi também deputado federal e senador, e um dos maiores ativistas na luta contra o racismo no Brasil, sendo um dos pioneiros na organização do movimento negro e da luta pela consciência racial no País. Fundador do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), é considerado um dos grandes brasileiros do século 20. Em 2010 foi indicado oficialmente ao prêmio Nobel da Paz.

Conexão com o Ceará

Entre as obras expostas, um quadro em especial dialoga com o visitante cearense: "Invocação noturna ao poeta Gerardo Melo Mourão: Oxóssi (1972)". Natural do Ceará, Gerardo Melo Mourão (1917-2007) foi um intelectual com atuação na literatura e no jornalismo, parceiro de Abdias numa sociedade literária na década de 1930 e, não por coincidência, pai de Tunga.

A jornalista viajou a convite do Inhotim e Ipeafro

Serviço

Museu de Arte Negra - Primeiro Ato: Abdias do Nascimento e Tunga
Quando: De 4/12 a 10/4/2022. (Quinta e sexta:9h30min às 16h30min. Sábado, domingo e feriados: 9h30min às 17h30min)
Onde: Galeria Mata (Instituto Inhotim - r. B, 20, Fazenda Inhotim, Brumadinho/MG)
Quanto: Ingresso a partir de R$ 22, no Sympla. Entrada gratuita na última sexta cada mês, exceto feriados, mediante retirada prévia no Sympla

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