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Por que Bolsonaro e apoiadores, que criticavam o "fique em casa", agora estão contra o Carnaval?

O POVO ouviu especialistas que explicam a nova incoerência do presidente e da base bolsonarista
17:37 | Nov. 26, 2021
Autor Alice Araújo
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Tipo Notícia

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou na quinta-feira, 25, que se a decisão coubesse a ele, não haveria Carnaval em 2022. A declaração do mandatário também foi seguida por seus apoiadores que iniciaram, nas redes sociais e em grupos bolsonaristas, manifestações em oposição à festa.

Para além do motivo óbvio do possível cancelamento da celebração, que seria a nova onda de Covid-19 na Europa, e a necessidade de manter sob controle o avanço da pandemia no país – que já perdeu mais de 600 mil vidas para a doença –, questionamentos estão sendo levantados a respeito das reais intenções de Bolsonaro e seus simpatizantes ao se afirmarem contra o Carnaval.

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Desde o início da pandemia de coronavírus, o presidente é opositor das medidas sanitárias, como o uso de máscara e a vacinação, postura que é seguida fielmente por seus apoiadores. O mandatário sempre foi um crítico ferrenho da campanha “fique em casa”, culpando as restrições por problemas econômicos, desemprego e inflação no País.

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Diante da aproximação da comemoração do Carnaval, no entanto, a incoerência do discurso do presidente e de sua base de apoio, que sempre foram contra medidas sanitárias, está sendo questionada: Por que Bolsonaro e apoiadores, que criticavam o "fique em casa", agora estão contra o Carnaval?

Para entender o paradoxo que é o novo posicionamento de Bolsonaro e bolsonaristas, O POVO ouviu cientistas políticos que analisaram os possíveis motivos para a mudança nos direcionamentos do chefe do Executivo. Entre as razões, estão as contradições entre discurso e prática do ex-capitão desde o início de seu mandato, a preocupação com sua reeleição, os atritos com governadores e até o fato do Carnaval ser uma festa popular que propicia manifestações de insatisfação com os governos.

Desconexão entre prática e discurso

Para Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, as contradições de Bolsonaro, entre discurso e atitudes, não são de agora. A recém declaração de ser contra o Carnaval, mesmo contrário ao “fique em casa”, é mais uma das “desconexões” que o mandatário está adicionando à sua "longa lista" de incongruências iniciada desde que iniciou seu governo. “Essa contradição entre o discurso e a prática do presidente Bolsonaro, é mais uma desconexão entre tantas outras”, disse o especialista.

“Vamos lembrar que o presidente era contra a velha política, e hoje ele está de braços dados, é refém do Centrão. O presidente tinha colocado um plano de governo de combater a corrupção e acabou demitindo o ministro Sérgio Moro. O presidente se dizia, na campanha, liberal, e que faria reformas, mas não há nada de liberalismo e reformas no governo. Então ele costuma ter um discurso que inflama a militância e uma prática governamental que se rende àquilo que é mais tradicional e nem sempre republicano na política brasileira. Então é apenas mais uma contradição entre discurso e prática que a gente tem desse governo nos últimos três anos”, explicou o especialista.

A jornalista e cientista política Deysi Cioccari reiterou a explanação de Prando. Para Cioccari, um dos aspectos de Bolsonaro é a constante mudança de sua narrativa. “Outro ponto que a gente nunca pode esquecer é que é característica dele essa narrativa subjetiva, não linear e sempre na direção da sua autopreservação. [...] Ele muda o discurso conforme o clima eleitoral. É uma característica dele mudar o tempo todo. Ele tem a sua própria narrativa, não compartilha a mesma base de fatos”, argumentou.

De olho nas eleições 2022

Conforme Cioccari, o posicionamento atual do presidente está, acima de tudo, relacionado à sua preocupação em se reeleger. Ele estaria, neste momento, “alinhando seu discurso”. A especialista explica que a intenção do presidente pode ser criar um atrito com os gestores estaduais. Bolsonaro já chegou a culpar governadores e prefeitos pelas mortes da pandemia, citando o Carnaval de 2020, que não foi cancelado. Caso a festa seja realizada esse ano com o aval dos estados, o mandatário poderá usar as possíveis consequências do Carnaval contra a oposição.

“É muito mais uma pauta de olho nas eleições e no conflito com governadores. Se houver um aumento no número de infectados, ainda mais agora com a nova variante, durante as eleições ele tem um belo discurso para jogar contra os opositores. Agora, quando ele diz atualmente para ficarem em casa, ele busca, além do atrito com os governadores, que ficam numa situação delicada, o voto daqueles mais conservadores. O Carnaval pode recuperar a economia em muitos lugares dando crédito aos oposicionistas. Devemos lembrar que o presidente ainda não tem partido e não deve se aliar à maioria dos governadores”, disse Cioccari.

Para Prando, o foco na reeleição vem, inclusive, desde muito antes. O especialista explica que as orientações de Bolsonaro no início da Pandemia, sendo contra o “fique em casa”, já se apresentavam como indicações claras do intuito do mandatário em se reeleger.

“Quando o presidente colocou o binômio economia e vida, e disse que a economia não podia parar, e por isso que nós não deveríamos ficar em casa, a preocupação do presidente não era a economia ou a vida, a preocupação do presidente era reeleição, porque situações de crise econômica, situações de dificuldades para a população, por conta de uma crise econômica, o humor dos eleitores acaba recaindo sobre aquele que está no Palácio do Planalto. Então a grande preocupação do presidente, desde o início, sempre foi o projeto de reeleição e não a questão atinente à economia e às questões sanitárias de proteção às pessoas em relação ao coronavírus”, argumenta o cientista político.

De acordo com Rodrigo Prando, o paradoxo do presidente também acontece com objetivo de “inflamar a base bolsonarista” e a mídia neste ano pré-eleitoral. Embora o cancelamento da festividade seja a decisão mais coerente em respeito às medidas sanitárias e ao cenário pandêmico, para Prando, esse “não é o pensamento do presidente Bolsonaro e dos bolsonaristas” ao se manifestarem contra as aglomerações carnavalescas.

“Quando o coronavírus estava no auge, a pandemia contaminando e matando milhares de brasileiros, o presidente Bolsonaro foi contra o distanciamento social, o presidente Bolsonaro foi contra o uso de máscaras e a gente sabe o tanto que ele lutou contra as vacinas, né? E isso se expressa nas diversas ações do Ministério da Saúde, especialmente, sob a gestão do general (Eduardo) Pazuello. Então essa colocação de hoje ser contrária ao Carnaval, me parece ser muito mais uma tentativa de atrair a mídia. [...] de sempre manter a base animada, essa base bolsonarista mais radical, inflamada”, explicou.

Para Prando, os bolsonaristas mais fervorosos deverão continuar mantendo o apoio ao mandatário, mesmo com suas contradições. Conforme o cientista político, é por essa fidelidade, por exemplo, que o presidente “não tem problema nenhum em apontar um caminho no discurso, e na prática fazer completamente o contrário”. “Esses bolsonaristas radicais estarão com ele, independente dessa incoerência discursiva e prática governamental”, pontuou.

Manifestações no Carnaval

Para além do Carnaval incomodar a base mais conservadora que apoia o presidente, outra questão que desponta como uma das razões apontadas pelos cientistas políticos que fazem com que Jair Bolsonaro seja contra a realização da festa, é o próprio caráter de crítica política que parte do público costuma atribuir às manifestações carnavalescas. Conforme análise de Prando, Bolsonaro também teme as críticas que podem acontecer no Carnaval, em locais que desejarem ter a festa.

“No Carnaval, as ruas sempre foram um espaço de crítica aos poderosos, então por meio de marchinhas, de músicas, fantasias, de cartazes, sempre os presidentes da República foram criticados e satirizados, ironizados e também tem uma questão relacionada a isso. Político que não tem uma grande aprovação sempre tem muito medo de aglomerações nas ruas”, explica.

Já Deysi Cioccari,= lembra que a celebração é propícia para diversas manifestações, além de críticas ao governo. A cientista política afirmar que a festa pode dar maior visibilidade também àqueles gestores que decidirem por realizá-la.

“É um caldeirão de manifestações, né? De retomada econômica, de prestígio para os governadores… Tudo o que Bolsonaro não quer: as pessoas nas ruas, se manifestando, e os opositores sendo destacados pela mídia. É água fervente no governo!”, concluiu.

 

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