Hank, o cão "fisioterapeuta" que ajuda pacientes com dores na coluna
Golden retriever de oito anos transforma rotina clínica e reforça movimento como chave para recuperação de pacientes com limitações motoras
A cena se repete quase todos os dias: um paciente chega à clínica Equilibrar, em Fortaleza (CE), curvado pela dor, com medo de se movimentar após uma crise aguda de coluna. Poucos minutos depois, ainda com receio, se abaixa instintivamente para acariciar um golden retriever de quase 50 quilos, pelo claro e olhos mansos.
O movimento, que antes parecia impossível, acontece sem comando técnico, sem estímulo verbal e sem planejamento. O nome do “responsável” por esse avanço é Hank, um cão de oito anos que, sem treinamento formal, tornou-se parte crucial do processo terapêutico de dezenas de pessoas.
A tutora de Hank, a fisioterapeuta Macelle Gomes, relata nunca ter imaginado que levar o cão para o trabalho seria mais que companhia. Ele chegou à sua vida aos dois anos de idade, após um acidente que exigiu cirurgia e fez o antigo tutor decidir que o animal merecia um lar definitivo.
Desde então, veio “pronto”, como ela diz ao O POVO: com a docilidade típica da raça e um comportamento naturalmente acolhedor. Com o tempo, a presença de Hank deixou de ser um simples conforto no expediente e passou a funcionar como ferramenta clínica involuntária.
Um gigante dócil no consultório
O impacto da presença de cães no ambiente de saúde, embora pareça intuitivo, já é amplamente documentado pela literatura científica e por experiências de projetos nacionais de Terapia Assistida por Animais.
Iniciativas como o Pelo Próximo e o Instituto Cão Terapeuta relatam, há anos, benefícios físicos, emocionais e sociais decorrentes da interação entre pacientes e animais. Os avanços vão desde melhora da ansiedade até redução de dores, aumento da motivação e estímulo à socialização.
Pesquisas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam ainda para aumento de endorfina e serotonina, além da diminuição dos níveis de cortisol, hormônio relacionado ao estresse. Estes fatores estão diretamente associados ao manejo da dor e ao bem-estar físico e mental.
Na Equilibrar, esse efeito ganhou contornos particulares. Por atender muitos pacientes com crises de hérnia de disco, lombalgias agudas e dores crônicas, Macelle observa frequentemente um dos principais desafios para quem trabalha com reabilitação da coluna: o medo de se movimentar.
A presença de Hank atua, segundo ela, como um “gatilho positivo”. Quando o cão se aproxima, o receio diminui e o paciente se inclina espontaneamente para alcançá-lo, quebrando a rigidez inicial.
Esse gesto, simples, mas clinicamente importante, permite à fisioterapeuta avaliar padrões de movimento e iniciar o tratamento de forma mais natural.
O fator emocional no tratamento da dor
Além do benefício prático, surge o afeto. Muitos pacientes relatam que a melhor parte da fisioterapia é “passar um tempo com o Hank”.
Em casos de crises intensas, em que a dor limita até mesmo a comunicação, o contato com o cão oferece alguns minutos de alívio emocional, o que, para Macelle, já representa um ganho terapêutico significativo.
Publicações científicas da Rede Câncer reforçam esse entendimento ao mostrar como cães terapeutas, em hospitais do Rio de Janeiro e de São Paulo, atuam como facilitadores da adesão aos tratamentos, aproximam o ambiente hospitalar da ideia de lar e reduzem tensões comuns ao processo de recuperação.
Cuidados e critérios na rotina com Hank
Apesar do sucesso espontâneo, Macelle explica que a presença de Hank sempre exigiu cuidados rigorosos. Vacinação em dia, higiene reforçada, escovação, controle ambiental e atenção aos pacientes com medo ou alergia são práticas constantes.
O comportamento naturalmente calmo do companheiro também facilita: ele não salta nas pessoas, não força interação e parece entender instintivamente como se aproximar sem causar sustos.
Quando necessário, é retirado do ambiente sem dificuldade. Em tantos anos de convivência, nunca houve incidentes, de acordo com a tutora.
“Sabendo haver respaldo científico de qualidade, minha intenção é, no futuro, organizar isso de forma profissional, para que outros animais também possam fazer parte desse processo”, comenta a fisioterapeuta.
Da convivência natural ao desejo de estruturar um projeto
Os relatos de pacientes e colegas de equipe fizeram Macelle pensar em estruturar, no futuro, um projeto profissional voltado à terapia assistida por animais, ampliando o que começou de forma orgânica.
Para ela, mais profissionais de saúde deveriam considerar essa possibilidade, desde que o bem-estar do animal seja prioridade e que a relação com ele seja genuína.
“O animal traz uma mudança de humor geral e um 'efeito analgésico' gratuito, sem qualquer repercussão negativa, até o efeito colateral é uma risada inesperada num dia difícil”, afirma.
E ela reforça: a presença de Hank trouxe leveza à rotina da equipe e impactou positivamente o humor geral da clínica.
A nova batalha do “super-cão”
A história deste golden retriever também atravessa desafios próprios: de grande porte e já com oito anos, Hank apresentou recentemente um quadro de displasia de quadril, comum em cães da raça.
Macelle optou pelo tratamento conservador, com fisioterapia veterinária, além de adaptações em casa e na clínica para poupar articulações.
Ele respondeu bem, recuperou força e voltou a viver sem dor. Para ela, cada melhora é motivo de celebração: “O tempo de vida dele me aperta o coração, pois cães de grande porte vivem menos. Mas sou profundamente grata pelo que já construímos. Ele cura de um jeito que só os animais conseguem.”
Enquanto estiver ao lado de Macelle, Hank seguirá cumprindo seu papel não oficial, mas essencial: o de encorajar movimento, aliviar dores e transformar a experiência de reabilitação em algo mais leve e cercado de carinho.
Assim como os projetos de terapia assistida mostram em hospitais e instituições do Brasil, a presença dos animais, quando bem acompanhada, segue revelando uma potência difícil de medir, mas fácil de sentir. No consultório da Equilibrar, no Ceará, essa potência atende pelo nome de Hank.
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