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Fortaleza
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Mondubim: ruas movimentadas e negação da pandemia no bairro mais afetado de Fortaleza

A região foi a que registrou o maior aumento do número de mortes por Covid-19 na última semana epidemiológica em Fortaleza

20:40 | 13/04/2021
Movimentação nesta terça em ruas do Mondubim, com algumas pessoas sem máscara (Foto: FABIO LIMA)
Movimentação nesta terça em ruas do Mondubim, com algumas pessoas sem máscara (Foto: FABIO LIMA)

Pelas ruas estreitas do Parque Santana, localizado no bairro Mondubim, a situação preocupante da pandemia na região pode ser compreendida. O comércio aberto e a grande quantidade de pessoas sem máscara ou fazendo o uso inadequado do equipamento refletem os números negativos que o bairro apresentou no último boletim epidemiológico de Fortaleza.

O Mondubim é o bairro de Fortaleza com maior número de mortes por Covid-19 desde o início da pandemia. No último boletim epidemiológico da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), aparece também com o e terceiro maior número de novos casos entre os dias 26 de março e 9 de abril. O período corresponde à última semana epidemiológica em Fortaleza. Nesse intervalo, foram 32 mortes e 436 casos confirmados em 14 dias.

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Nas calçadas do bairro, os números negativos parecem não assustar os que ali vivem. Cenas de pessoas conversando sem máscara se repetem a cada quarteirão. Há quem prefira não lembrar da gravidade do momento.

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"Na verdade, a gente nem fala dessa doença aqui no nosso estabelecimento. Aqui não se fala sobre doença ou pandemia. Vemos pelo outro lado, porque o que queremos é que as pessoas se motivem a continuar vivendo, porque o negócio está sério (para o comércio). Pandemia não existe aqui pra gente, praticamente, a gente está tentando se reerguer", diz Rosicleide Soares, 38, que possui um mercadinho no bairro.

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A comerciante discorda das medidas de segurança sanitária adotadas pelo Governo do Estado durante a pandemia, e conta que precisou se reinventar para sobreviver.

Rosicleide Soares, 38 anos, comerciante teve de reinventar o negócio e não quer ouvir falar em pandemia
Rosicleide Soares, 38 anos, comerciante teve de reinventar o negócio e não quer ouvir falar em pandemia (Foto: FABIO LIMA)

"Aqui, era minha loja de variedades e eu tive que me transformar e vender como mercadinho, porque o comércio fechou pra mim, eu não tive como trabalhar e precisei recomeçar. É bem complicado, estou trabalhando graças a Deus, fico bem triste por quem não está conseguindo", lamenta.

Em 2021, o cenário pandêmico no Ceará voltou a se agravar. No primeiro dia do ano, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) confirmou que o Estado havia ultrapassado a marca de 10 mil mortes pela Covid-19. Em pouco mais de três meses, os números já superam a casa dos 15 mil mortos.

O agravamento da situação preocupa aqueles que temem a doença. Amanda Passos, 32, lamenta a falta de cuidado das pessoas durante o pior período da pandemia.

"O que eu tenho visto aqui no Mondubim são pessoas que não acreditam na pandemia. Eu creio que não acreditam, já que não se cuidam, não se previnem, nem sequer usam máscara ou pensam no próximo. Acho que só pensam nelas ou pensam que a doença não existe. Os casos aqui estão aumentando sim. Eu me preocupo demais e conheço pessoas que tiveram a doença", desabafa.

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Aos 78 anos, Maria do Carmo dá exemplo pelas ruas do bairro. Mesmo vacinada com as duas doses, a aposentada não baixa a guarda.

"Graças a Deus eu não tive nada não, já vi casos de muitas pessoas nessa região. Ninguém quer fazer o que é para fazer. Não usam máscara e ficam andando por aí. Eu tenho me cuidado e continuo me cuidando, mesmo tendo tomado as duas doses".

Ângelo Araújo, 35, é um dos moradores do bairro que percebeu o agravamento da pandemia na região. O açougueiro conta que o número de vítimas tem aumentado.

"Conheço muita gente que já teve a doença, muitos clientes meus perderam conhecidos e muitos outros estão infectados. A gente tem medo, todo tempo me cuidando e me prevenindo, porque sei que o negócio é sério. Conheço gente que já faleceu da doença, aqui mesmo, na minha rua, já morreram algumas pessoas", lamenta.

A gravidade da pandemia também é reconhecida por Rose Silva, 26. A vendedora conta que o negacionismo das pessoas tem prejudicado a região.

"Tem cliente que chega aqui sem máscara, a gente pede para colocar e a pessoa responde que 'o pessoal não está nem aí', como se todo mundo tivesse esse pensamento. Acaba piorando as coisas. A situação ainda está feia, acho que tão cedo a gente não sai dessa", conta.

Rose explica que perdeu muitos conhecidos para o vírus, pessoas que faziam parte do cotidiano de sua loja.

"Aqui está infestado, o bairro inteiro. Aumentou muito. Vários clientes da loja já faleceram, gente conhecida mesmo, de muito tempo. Teve caso que a pessoa ficou mais de 90 dias na UTI, e morreu depois", finaliza.

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