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Corais de Fortaleza sofrem branqueamento após temperatura do mar subir; pesquisadores estão em alerta

Corais de Fortaleza sofrem branqueamento após temperatura do mar subir e alertam pesquisadores. Mesmo fenômeno foi observado em praias de Pernambuco e Alagoas; especialistas afirmam que branqueamento dos corais tem impacto ambiental e socioeconômico

Catalina Leite
14:36 | 03/08/2020
Corais do Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio após branqueamento. 
 (Foto: Marcus Davis Andrade Braga)
Corais do Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio após branqueamento. (Foto: Marcus Davis Andrade Braga)

 

Os corais do parque estadual marinho da Pedra da Risca do Meio, em Fortaleza, estão branqueando por causa do aumento da temperatura do mar. De acordo com o professor Marcelo Soares, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) na Universidade Federal do Ceará (UFC), já faz mais de sete semanas que a temperatura do mar está entre 29°C e 30°C. Normalmente, as águas cearenses ficam entre 26°C e 29°C.

Apesar de o aumento parecer mínimo para os humanos, ele é drasticamente recebido pelos corais, seres vivos imprescindíveis para a manutenção dos ecossistemas marinhos. “Nos últimos 34 anos, a temperatura do mar do Ceará subiu quase um grau. Aí você me dizer assim, ‘isso é pouco’, mas não é. Porque se você pensar que aqui no Ceará a temperatura é bem estável, com quatro graus de diferença, a gente tem um aumento de quase 20% de temperatura”, explica Marcelo.

Dessa forma, o principal fator relacionado ao branqueamento dos corais é o aquecimento global. Afinal, basta imaginar a quantidade de calor necessária para elevar a temperatura do mar. “A maior parte do excesso de calor é absorvida pelo oceano, [já que] a água esquenta mais rápido. O oceano está esquentando mais rápido que a superfície da Terra”, alerta o especialista.


A última vez que esse fenômeno foi observado no Ceará com a mesma intensidade foi em 2010. Segundo o pesquisador, Alagoas e Pernambuco também estão registrando casos de branqueamento, assim como a Bahia em 2019. O branqueamento de corais deveria ser um fenômeno raro, mas tem sido observado com mais frequência ao redor do mundo.

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Branqueamento alerta pesquisadores

Corais são animais que vivem em simbiose (parceria entre dois organismos de espécies diferentes) com microalgas, conhecidas como zooxantelas. Durante o dia, as microalgas alimentam os corais por meio da fotossíntese, enquanto à noite eles sacam pequenos tentáculos para capturar zooplânctons e fitoplânctons - minúsculos animais e plantas.

Quando a temperatura dos mares está mais alta que o normal, as microalgas ficam impossibilitadas de fazer a fotossíntese e o coral as expulsa para tentar sobreviver. Esse processo provoca o branqueamento dos corais, já que as zooxantelas são as responsáveis por colori-los.

Quem explica é a doutoranda em Ciências Marinhas Tropicais do Labomar e mergulhadora Sandra Paiva. "Os recifes de corais são ambientes de alimentação, de berçário, enfim, uma série de serviços ecossistêmicos tanto para o ambiente marinho, quanto para a sociedade de maneira geral. Então a gente fica em alerta e preocupado com a possível ocorrência frequente de eventos como esse", conta.

Corais saudáveis. Na foto, os animais estão mais coloridos - verdes e avermelhados. Ainda, há maior presença de peixes se alimentando nos corais.
Corais saudáveis. Na foto, os animais estão mais coloridos - verdes e avermelhados. Ainda, há maior presença de peixes se alimentando nos corais. (Foto: Marcus Davis Andrade Braga)

Sem a presença de corais saudáveis, a rotina de muitos outros seres vivos é impactada. Os peixes, por exemplo, perdem o local de alimentação, reprodução e desova. Ainda que a pesquisadora não possa confirmar a relação dos fenômenos, Sandra comenta que percebe redução no fluxo de peixes nos corais branqueados do parque marinho.

Consequências

Além de impactar diretamente no ecossistema marinho, o branqueamento dos corais tem consequências socioeconômicas. Marcelo Soares, que também é cientista chefe de meio ambiente da Secretaria de Meio Ambiente do Ceará(Sema), menciona que o primeiro impacto perceptível é para o turismo.

Principalmente no litoral nordestino, os recifes de corais coloridos e habitados por várias espécies marinhas são chamariz para a visitação turística. Mesmo que exista a possibilidade de os corais sobreviverem ao período de branqueamento, também há chances de que muitos morram, transformando os belos recifes em uma espécie de cemitério. "Até 2050, estima-se que 80% dos corais vão morrer. E até 2100, a estimativa é de 100% de morte, ou seja, vão ser extintos", diz Marcelo.

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Ainda, o branqueamento compromete a segurança alimentar dos pescadores e cadeias econômicas baseadas na pesca. Há também os impactos ambientais. Assim como as florestas, os recifes de corais são responsáveis por capturar o carbono lançado pelas queimadas, carros e indústrias. Por último, eles também funcionam como uma barreira natural, absorvendo a energias de ondas muito fortes e evitando a erosão costeira.

Em 2017, um documentário original da Netflix narrou o processo de branqueamento de corais ao redor do mundo. Assista ao trailer com legendas em português: