O "adeus dos orelhões" marca o fim de um símbolo da comunicação no Ceará
Telefones orelhões começaram a ser retirados nesse mês de janeiro. Ceará ainda registra 462 dos aparelhos
Resumo
Os telefones públicos foram essenciais para a democratização da comunicação no Brasil.
Atualmente, restam 38,3 mil orelhões no país, com previsão de manutenção de 9 mil até 2028.
No Ceará, há 462 orelhões em 118 municípios, sendo 282 ativos.
O fim dos orelhões levanta discussões sobre a preservação da memória e história da comunicação no País.
Durante décadas, eles testemunharam notícias urgentes, histórias de amor, relatos de saudades e chamadas feitas às pressas. Agora, os Telefones de Uso Público (TUP), popularmente conhecidos como orelhões, caminham para uma despedida definitiva das ruas brasileiras.
Na quarta-feira passada, 21, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que as concessionárias de telefonia, que operavam por meio de um serviço público, passaram a operar no regime privado, como prestadoras autorizadas. Agora, elas não têm mais a obrigação formal de manter esses equipamentos em funcionamento no País.
Durante décadas, especialmente entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, os orelhões desempenharam um papel central na comunicação da população. Em um período em que os telefones fixos residenciais ainda não eram amplamente difundidos e os celulares praticamente inacessíveis, esses equipamentos permitiam o contato entre familiares, amigos e serviços, inclusive para chamadas interestaduais.
Segundo o professor e historiador Evaldo Lima, por volta da década de 1970, o telefone era um item considerado de luxo. Assim, a popularização dos orelhões se tornou um marco da democratização da comunicação no Brasil.
“No Ceará, isso é ainda mais significativo, porque a gente associa muito o orelhão às praças centrais, como, por exemplo, a Praça do Ferreira, ou então às rodoviárias. O orelhão era o elo entre Fortaleza e os sertões”, aponta o especialista.
O historiador destaca que, em determinadas localidades, se faziam festas para comemorar a chegada de um telefone público. “Principalmente em bairros periféricos ou cidades do interior. Era uma conquista da comunidade e, muitas vezes, também uma conquista política”, afirma Evaldo Lima.
Apesar da perda de usuários com a popularização dos telefones móveis, atualmente ainda resistem no Brasil cerca de 38,3 mil orelhões, conforme dados da Anatel. A estimativa é que, até o fim de 2028, continuem a ser mantidos no país apenas 9 mil orelhões em funcionamento. Até lá, as empresas devem manter o serviço de voz, inclusive por orelhões, onde não há telefonia móvel.
No Ceará, 118 municípios ainda mantêm 462 aparelhos, dos quais 282 estão em atividade e 180 constam como “em manutenção”. Confira os municípios:
Acaraú, Acopiara, Aiuaba, Altaneira, Alto Santo, Amontada, Antonina do Norte, Apuiarés, Aracati, Aracoiaba, Ararendá, Araripe, Aratuba, Arneiroz, Assaré, Banabuiú, Baturité, Beberibe, Bela Cruz, Boa Viagem, Brejo Santo, Camocim, Campos Sales, Canindé, Capistrano, Caridade, Cariré, Caririaçu, Cariús, Carnaubal, Cascavel, Catarina, Catunda, Caucaia, Chaval, Choró, Coreaú, Crateús, Crato, Croatá, Ererê, Farias Brito, Forquilha, Fortim, General Sampaio, Graça, Granja, Granjeiro, Guaraciaba do Norte, Ibaretama, Ibiapina, Ibicuitinga, Icó, Independência, Ipaporanga, Ipu, Ipueiras, Irauçuba, Itapajé, Itapipoca, Itapiúna, Itarema, Itatira, Jaguaretama, Jaguaribara, Jaguaribe, Jaguaruana, Jati, Jijoca de Jericoacoara, Madalena, Marco, Martinópole, Massapê, Mauriti, Milagres, Milhã, Miraíma, Missão Velha, Mombaça, Monsenhor Tabosa, Morada Nova, Novo Oriente, Ocara, Pacatuba, Palhano, Parambu, Paramoti, Pedra Branca, Pentecoste, Pereiro, Piquet Carneiro, Poranga, Porteiras, Potiretama, Quiterianópolis, Quixadá, Quixelô, Quixeramobim, Redenção, Russas, Saboeiro, Salitre, Santa Quitéria, Santana do Acaraú, Santana do Cariri, Senador Sá, Sobral, Solonópole, Tabuleiro do Norte, Tamboril, Tarrafas, Tauá, Tejuçuoca, Trairi, Umirim, Uruoca, Várzea Alegre e Viçosa do Ceará.
Apesar da ausência de registros de orelhões em funcionamento em Fortaleza, ainda é possível encontrar diversos equipamentos instalados em diferentes bairros da Capital. Grande parte, contudo, já bem danificada.
Para Dona Iranir Rodrigues, 83, moradora do bairro Barra do Ceará, em Fortaleza, além de funcionarem como meio de comunicação, esses telefones públicos eram ponto de encontro e marca de solidariedade entre vizinhos.
Morando desde 1959 na rua Manuel Moura, ela lembra que quase em frente à sua casa havia um orelhão. “Eu conhecia todo mundo. Quando tocava, eu chamava a pessoa, se fosse alguém que morasse perto”, conta.
Com o passar das décadas, a paisagem da rua Manuel Moura foi mudando. O orelhão que ficava ao lado da casa de Dona Iranir foi retirado, assim como outros que existiram ao longo da via. Atualmente, resta apenas um telefone público um pouco mais adiante da residência da família, que já não funciona mais.
O filho de Iranir, Jaime Rodrigues, hoje com 60 anos, lembra que o orelhão era praticamente o único canal de comunicação para quem tinha familiares fora da cidade e até do Estado. “Antigamente o pessoal não tinha formas de se comunicar. As pessoas ligavam do interior, de outros estados, e aí a gente chamava o vizinho. Eu era menino ainda, mas atendia e ia bater na porta do vizinho”, relata.
O aparelho chegava a ser disputado. “Às vezes, no auge, chegava a formar fila aqui na frente para usar o orelhão. Pessoal vinha com a ficha, depois veio o cartão”, conta Jaime.
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Como funcionavam os telefones orelhões?
Os orelhões são compostos por uma estrutura em forma de “caixa”, que protege os componentes internos, além de um fone com microfone e alto-falante, teclado numérico, visor e um compartimento destinado a fichas ou cartões telefônicos. O design foi criado pela arquiteta e urbanista sino-brasileira Chu Ming Silveira em 1971.
Para realizar uma ligação, o usuário inseria a ficha, discava o número desejado e aguardava a conexão.
“A ficha telefônica dava, em média, três minutos de ligação. Esse marco cultural acabou servindo de referência, por exemplo, para músicas que tocavam no rádio, que precisavam ter cerca de três minutos”, relembra o professor Evaldo Lima.
A partir de 1992, as fichas começaram a ser substituídas pelos cartões telefônicos, que funcionavam com créditos, onde cada unidade correspondia a cerca de dois minutos de ligação local.
Orelhões movimentavam a economia das cidades
Esses aparelhos também eram parte essencial do trabalho de milhares de profissionais. Para os taxistas, por exemplo, os telefones públicos funcionavam como elo com os passageiros.
O motorista de táxi Sebastião Martins, conhecido como Tião, há cerca de 20 anos tem como ponto fixo a Praça General Murilo Borges, no Centro de Fortaleza. Ele lembra que antigamente o espaço contava com vários telefones plúbicos. Hoje, o local abriga apenas um, que está quebrado.
Muitas vezes, as ligações rendiam histórias inusitadas. “Teve um dia, no início dos anos 1990, que eu estava aqui na praça e o telefone orelhão tocou. Era um homem dizendo que o taxista que ele tinha combinado estava demorando. Eu disse: ‘Mas sou eu mesmo’, mesmo que não fosse”, relata.
Tião disse que estranhava o passageiro nunca sair do carro nas paradas que faziam, além de achar incomum as vestes do cliente: terno branco e portando uma espécie de mala de papelão. Questionado, o passageiro disse: “É porque eu estou meio embriagado. Saí do cassino agora de manhã.”
Ao chegar ao destino, o taxista conta que o passageiro entrou em casa e foi recebido com uma bronca severa da esposa. “Nós temos três fazendas e estamos acabando com uma, porque ele vive jogando. Entra sexta-feira e só volta na segunda-feira”, contou a mulher a Tião.
O homem então rasgou a bolsa de papelão que levava consigo e revelou uma grande quantidade de cédulas de cruzeiros. O pagamento foi outra surpresa para ele. O passageiro teria só remexido no montante de dinheiro buscando cédulas de valor mais baixo, como de 20 e 50, e entregado a Tião.
“Quando eu fui contar, tinha três vezes mais do que o valor da corrida. O bom é que, na volta para Fortaleza, ainda peguei outros passageiros. Tudo isso por conta de um orelhão”, conta, rindo.
Orelhões podem ser preservados como parte da história das cidades
Próximo ao cruzamento das ruas Monsenhor Bruno e Torres Câmara, no bairro Aldeota, em Fortaleza, um velho orelhão ganhou recentemente uma nova aparência. Apesar de já não contar mais com o telefone de fio, ganhou uma pintura verde, com desenhos em amarelo e branco que remetem a instrumentos musicais.
A intervenção dialoga com a fachada do estabelecimento ao lado, o recém-inaugurado Outeiro Restaurante e Bar. A iniciativa partiu do proprietário, Célio Paiva, 55. “Sobrou tinta e eu pensei: ‘Por que não ‘dar um grau’ nele? De repente ele fica ‘instagramável’, né?’”, conta.
Natural do interior de Goiás, o empresário cresceu utilizando esse tipo de comunicação. Para quem viveu aquela época, o sentimento é de nostalgia.
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“O pessoal mais jovem nem sabe o que é, mas para a gente que viveu essa época, fica saudoso. Foi uma época muito importante para todos nós. Eu sou do tempo em que a gente namorava no orelhão. Conversava com a namorada que morava em outro bairro, outra cidade”, conclui Célio, que ainda ressalta torcer para que o orelhão não seja retirado de sua calçada.
Para o historiador Evaldo Lima, eliminar definitivamente os telefones púbicos podem significar o apagamento de parte da história do Brasil. Além das intervenções urbanas, ele defende a preservação desses equipamentos por meio de museus, exposições, arquivos fotográficos e relatos orais.
“Os orelhões contam uma história sobre o Brasil, sobre o Ceará, sobre como nos comunicávamos e vivíamos a cidade”, diz. "A comunicação não é apenas uma inovação técnica. É política pública, é cidadania e é humanidade. Preservar essa memória é fundamental para compreender a nossa trajetória social”, conclui.