Como o PCC criou uma cúpula para recrutar crianças e adolescentes no Ceará

Como o PCC criou uma cúpula para recrutar crianças e adolescentes no Ceará

Operação Vesúvio desarticulou a organização criminosa e identificou a "Sintonia Geral dos Menores" e condenou o chefe do grupo a 19 anos de prisão
Atualizado às Autor Jéssika Sisnando Tipo Notícia

A sentença judicial da Operação Vesúvio expõe que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) instituiu uma estrutura burocrática e hierarquizada, uma cúpula administrativa, dedicada exclusivamente à gestão, recrutamento e doutrinação de crianças e adolescentes no Estado do Ceará.

O chefe do grupo especializado em recrutar jovens menores de 18 anos foi condenado pela Justiça nessa quarta-feira, 8, por meio da Vara de Delitos de Organizações Criminosas

De acordo com documentos da investigação da Polícia Civil do Ceará, a estrutura chamada internamente de "Sintonia Geral dos Menores", funcionava como um departamento de recursos humanos do crime, com lideranças regionais responsáveis por coordenar as ações dos adolescentes conforme as diretrizes da cúpula nacional.

O trabalho policial no município de Independência, no Ceará, iniciou-se no ano de 2024 e identificou Marcos Vinícius Pereira da Silva, conhecido como Faixa Preta, ocupava o cargo de "Sintonia Geral dos Menores" e posteriormente "Geral da Regional".

A sua função era gerir o "Quadro dos Menores". Segundo as provas obtidas por meio da extração de dados do aparelho celular do acusado, ele controlava quem entrava e saía da facção criminosa, sendo responsável por organizar os "batismos", que são rituais de entrada de novos adolescentes.

Marcos confeccionava e gerava os "crachás", que são fichas de cadastro, dos novos integrantes adolescentes, encaminhando os dados para o sistema central da facção. Ele repassava as ordens e a ideologia da facção para a base juvenil, garantindo disciplina e obediência.

Conforme apuração do O POVO, a criação da cúpula específica atende a uma estratégia cínica da facção de usar a inimputabilidade penal de crianças e adolescentes para blindar as lideranças adultas.

A sentença destaca que os menores eram usados para missões perigosas a mando de Marcos Vinícius. Um caso citado é o de uma adolescente de 16 anos, utilizada para transportar duas armas de fogo pilotando uma motocicleta para a zona rural, servindo de "mula" para evitar que os adultos fossem presos em flagrante com o armamento.

Marcos Vinícius, que é o Faixa Preta, foi condenado pela Justiça cearense. O juiz do caso enfatizou na sentença que essa estrutura promove uma "exploração sistemática da vulnerabilidade dos menores", inserindo-os num ciclo de criminalidade e morte prematura do qual dificilmente conseguem sair

Grupo possuía ligação com Marcola e a hierarquia nacional

A estrutura do município de Independência respondia a uma cadeia de comando nacional. A "Sintonia Geral dos Menores" é um braço da "Sintonia Final Geral", liderada historicamente por Marcos Willians Herbas Camacho, o "Marcola".

Conforme a sentença judicial obtida pelo O POVO, a ligação de Marcos Vinícius com essa cúpula máxima ficou evidenciada em mensagens enviadas por ele no grupo de WhatsApp "Racha dos Amigos" no dia 24 de fevereiro de 2024. Essas conversas foram obtidas por meio de extração de dados autorizada pela Justiça. 

Na mensagem, Marcos fazia referência direta a Marcola como a liderança máxima a ser respeitada, demonstrando que a célula de menores em Independência não agia de forma isolada, mas sim sob a "ética" e as diretrizes estratégicas traçadas pelo líder fundador da facção, mesmo este estando em presídio federal.

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