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Paraíba: cidade zera fila do SUS em dois dias com ação de startup social

Segundo a Secretaria da Saúde do município, procedimentos levariam cerca de dois anos para serem realizados, pelo ritmo habitual; cidade de Bananeiras tem cerca de 20 mil habitantes
05:18 | Out. 19, 2021
Autor Leonardo Maia
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Leonardo Maia Estagiário
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Tipo Notícia

A cidade de Bananeiras, no interior da Paraíba, conseguiu zerar a fila do Sistema Único de Saúde (SUS) de cinco especialidades médicas em dois dias. Foram elas: odontopediatria, oftalmopediatria, ortopedia, urologia e dermatologia. O pequeno município, com cerca de 20 mil habitantes, levaria cerca de dois anos para cumprir todos os atendimentos realizados, conforme a secretária de Saúde local, Ledna Jeronimo.

O feito foi atingido após ação da startup social SAS Brasil, que tem atuação integrada ao SUS e trabalha de forma itinerante para áreas carentes de acesso a médicos especialistas, resolvendo os problemas de saúde desde a prevenção até o diagnóstico e o tratamento. Durante a última edição do Rally dos Sertões, a instituição tirou 625 pessoas da fila do SUS em Bananeiras e outras três cidades do Nordeste.

Manuel Carneiro, coordenador de Saúde da SAS Brasil, aponta que a pandemia do novo coronavírus “escancarou o abismo social” existente no Brasil, evidenciando a má distribuição de médicos especialistas no País. Para ele, uma das apostas para aperfeiçoar a saúde pública brasileira é o investimento em telessaúde.

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“A pandemia abriu a possibilidade de aplicarmos o teleatendimento até então muito criticado e visto de uma forma preconceituosa, porém que demonstrou sua eficácia, viabilidade e valor, sendo responsável pela continuidade e acesso a muitas pessoas neste período”, aponta Carneiro, ressaltando que, em alguns casos, moradores do interior do País precisam percorrer mais de 1.200 quilômetros para receber atendimento médico.

Além da telemedicina, a instituição tem outros dois focos para combater os problemas de saúde no território brasileiro. “Consideramos a saúde infantil, uma vez que problemas de visão e dor de dente são responsáveis por muitos problemas de evasão escolar e desatenção em sala de aula. Outro pilar é a saúde da mulher, com todo cuidado com a saúde integral. Acreditamos que ao iniciar o cuidado com as mulheres chefes de família, em pouco tempo esse cuidado também recairá sobre todo seu núcleo familiar”, argumenta o especialista.

Ceará tem décima pior colocação em ranking de médicos per capita, aponta pesquisa

O Ceará tem 1,65 médicos a cada mil habitantes, de acordo com a edição de 2020 da pesquisa Demografia Médica, realizada pela Universidade de São Paulo (USP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). A Federação ocupa a décima pior colocação entre os 26 estados do Brasil e o Distrito Federal. Já em relação ao Nordeste, o Ceará fica em quinto, atrás de Paraíba (2,04) Pernambuco (2,02), Rio Grande do Norte (1,92) e Sergipe (1,90).

Há ainda uma diferença significativa entre as capitais e as cidades do interior do País. No Nordeste, por exemplo, nenhum dos estados supera a proporção de 1 médico a cada mil habitantes quando se trata das áreas fora das capitais e de grandes regiões. No Ceará, são 0,60 médicos para cada mil habitantes do Interior.

Comparado a outras regiões os dados são consideravelmente inferiores. São Paulo, por exemplo, tem 3,20 médicos a cada mil habitantes quando se leva em conta toda a população do estado — quase o triplo da razão cearense. Fora a capital do estado sudestino, os números ficam em 2,30, representando a região interiorana com maior número de médicos per capita.

No relatório, os pesquisadores apontam que ao longo dos últimos anos houve um crescimento no número de registros de médicos, mas a desigualdade persiste entre as regiões. “O País e sua população não se beneficiam igualmente desse crescimento, que sequer foi avaliado à altura da complexidade de questões como a qualidade da formação e os movimentos e condições de absorção dos novos profissionais pelo sistema de saúde”, enfatizam.

(Colaboraram Ana Beatriz Arruda e Marina Cardoso, da SAS Brasil)

Leia a íntegra da entrevista com Manuel Carneiro, coordenador de Saúde da SAS Brasil

O POVO: Hoje nós ainda vivemos com uma grande escassez e desigualdade de profissionais da saúde. Como o senhor avalia essa situação?

Manuel Carneiro: Como sabido o Brasil apresenta grandes desigualdades em diversas áreas e na saúde não é diferente. Hoje, 65 milhões de pessoas vivem em localidades em que possuem menos de 1 especialista para cada 1 mil habitantes. Este é o lugar em que atuamos, com a SAS Brasil, levamos saúde especializada a quem precisa. Para muitas especialidades, o problema maior não é a escassez de profissionais, mas sim a super concentração desses especialistas em grandes centros urbanos, o que dificulta o acesso de pessoas que vivem em regiões mais afastadas.

O POVO: Quando se fala da medicina especializada os problemas são ainda mais graves. Que passos nós podemos dar enquanto País para que esse quadro melhore?

Manuel Carneiro: O acesso à saúde é o pilar em que devemos agir, garantindo isto, através de modelos de inovação que devem ir além dos tradicionais. A telessaúde é um dos principais passos que acreditamos ser essencial para democratizar o acesso à saúde especializada no Brasil. Através dela, conectamos pacientes e profissionais a distância, diminuindo o tempo de espera por uma consulta e reduzindo os deslocamentos de pacientes para centros de referencia.

Outra etapa importante é garantir modelos de atuação que otimizem e garantam maior resolutividade para os atendimentos presenciais e remotos. Nossas Unidades de Telemedicina Avançada, por exemplo, garantem estrutura necessária para a realização de consultas, procedimentos e até pequenas cirurgias em mutirões presenciais mas também garantem estrutura necessária para teleatendimentos em regiões sem estrutura básica, com equipamentos de ponta que permitem que o profissional que atua a distância, com apoio de um profissional de saúde local, tenha mais respaldo e informações sobre o paciente.

O POVO: Como surgiu a ideia de atuação da SAS Brasil? Quais são os principais focos em que a organização trabalha?

Manuel Carneiro: A SAS Brasil nasceu em 2013 com a missão de levar saúde especializada para quem não tem. Com o tempo, percebemos que isso seria impossível sem unir pessoas, propósitos e inovações. Atualmente, nosso modelo de atuação, batizado de Saúde 1.5, é integrado ao SUS porque funciona como uma engrenagem entre a atenção primária (dos postos de saúde) e a secundária (das especialidades). Temos três focos de atuação: o primeiro é a saúde infantil, com atendimento em odontopediatra e oftalmopediatria, uma vez que problemas de visão e dor de dente são responsáveis por muitos problemas de evasão escolar e desatenção em sala de aula.

Outro pilar é a saúde da mulher, com foco na prevenção, diagnóstico precoce e tratamento do câncer de colo de útero e de pele, além de todo cuidado com a saúde integral da mulher. Acreditamos que ao iniciar o cuidado com as mulheres chefes de família, em pouco tempo esse cuidado também recairá sobre todo seu núcleo familiar. O terceiro pilar de atuação é a telessaúde, como forma de democratizar o acesso à especialistas, de forma segura e prática, com um sistema próprio para os teleatendimentos.

O POVO: Desde que começou a atuar como coordenador da área de saúde da SAS, sua visão sobre a saúde pública brasileira mudou? Se sim, como?

Manuel Carneiro: Sim, como morador de grandes centros, temos uma visão enviesada sobre o acesso à saúde. Ao nos afastarmos deles, indo às periferias e ao entrarmos no interior do Brasil, nos deparamos com a escassez e a dificuldade em ter um acesso digno à saúde. Convivemos de perto com realidades de pacientes que precisam se deslocar 1.200 quilômetros numa viagem de 24h de carro para ter acesso a um médico especialista, como em Araripina no interior do estado de Pernambuco, onde fizemos uma ação presencial em agosto e agora seguimos atendendo a cidade por telemedicina. Isto te transforma pois a cada paciente que alcança o impacto proporcionalmente a sua vida é maior.

O POVO: Como a pandemia do novo coronavírus, que saldo podemos ter para a situação da presença de médicos generalistas e especializados no Brasil?

Manuel Carneiro: Em tudo que vivemos, sempre poderemos tirar lições positivas e negativas. O negativo é claro, desde a quantidade de mortes até a desinformação. O momento da pandemia escancarou o abismo social e o tornou mais evidente. A distribuição de profissionais especialistas, muitos ainda afastados por comorbidades ou pela idade, tornou o acesso ainda mais difícil, e sem políticas públicas ou velocidade para dar solução a tempo para estas questões.

A criação de parcerias público-privadas se torna uma solução rápida e importante. Além disto, a pandemia abriu a possibilidade de aplicarmos o teleatendimento até então muito criticado e visto de uma forma preconceituosa, porém que demonstrou sua eficácia, viabilidade e valor, sendo responsável pela continuidade e acesso a muitas pessoas neste período.

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