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NOTÍCIA

O que é fascismo, nazismo, antifa e o que têm a ver com o Brasil

A discussão acerca da acepção de nazismo e fascismo volta e meia vem à tona no Brasil e já pôs em campos opostos os governos brasileiro e alemão

Leonardo Igor
13:58 | 07/06/2020
Protesto contra Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo em 31 de maio de 2020 (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)
Protesto contra Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo em 31 de maio de 2020 (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Na esteira dos protestos antirracistas eclodidos nos Estados Unidos após o assassinato do afroamericano George Floyd por um policial branco em Minneapolis, no estado de Minnesota, o último fim de semana de maio no Brasil também foi de desassossego por dois eventos singulares que voltaram a lançar luz para termos como fascismo, nazismo e antifa.

No sábado, 30, em Brasília, o grupo autointitulado ‘300 do Brasil’ marchou na capital federal com tochas, máscaras e palavras de ordem contra o Supremo Tribunal Federal. Menos de 30 participaram da caminhada, segundo o jornal O Globo, mas as semelhanças com a manifestações de supremacistas brancos, como em 2017 na cidade de Charlottesville, nos Estados Unidos, chamaram atenção das autoridades e das redes sociais.

No dia seguinte, em São Paulo, uma frente de torcidas organizadas em prol da democracia e contra o racismo encontrou um grupo de manifestantes a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na avenida Paulista. Os dois blocos dividiram a avenida, em meio às hostilidades, até a Polícia Militar usar força para reprimir o grupo de torcedores identificados como antifa (abreviação de antifascista). Do outro lado, na marcha bolsonarista, foram identificados símbolos associados a movimentos neonazistas na Ucrânia. A PM afirmou que iria investigar o uso do símbolo.

o grupo ‘300 do Brasil’ marchou na capital federal
o grupo ‘300 do Brasil’ marchou na capital federal (Foto: REPRODUÇÃO INSTAGRAM 300 DO BRASIL)

A discussão acerca da acepção de nazismo e fascismo volta e meia vem à tona no Brasil e já pôs em campos opostos os governos brasileiro e alemão - para Bolsonaro, o nazismo é proveniente da esquerda; na Alemanha, berço da barbárie nazista, o movimento é amplamente reconhecido como de extrema-direita. Em janeiro, o então secretário especial da Cultura do governo federal, Roberto Alvim, foi demitido após referenciar o ministro nazista Joseph Goebbels, em discurso veiculado nas redes sociais.


Mas, afinal, o que é o nazismo? E o que é o fascismo? Confira um resumo a seguir

-  O fascismo é uma ideologia que prega um partido único e um Estado totalitário, contrário ao liberalismo econômico e ao comunismo. É embasado em sentimentos nacionalistas e ufanistas, como manifestado pelos fascistas entusiastas do irredentismo italiano (que defendia anexação à Itália de todas as regiões ligadas ao país por costumes e idioma ou laços semelhantes) e, no nazismo alemão, pela máxima Deutschland über alles: Alemanha acima de tudo. 

- O fascismo adota uma militarização da vida política e a presença da figura militar na vida pública, projetos de expansão imperial e enfrentamento de supostos inimigos, internos ou externos. Uma das frases mais famosas do líder fascista Benito Mussolini, um ex-combatente de guerra, era: “Muitos inimigos, muita honra”. A pesada máquina de propaganda fascista também é uma das características do movimento, que tende a formar redes de delação, apontar “inimigos” e publicizar uma ideologia oficial, comumente baseada em mentiras e terror.

Líder fascista Benito Mussolini: "Muitos inimigos, muita honra"
Líder fascista Benito Mussolini: "Muitos inimigos, muita honra" (Foto: REPRODUÇÃO)

Como surgiu o fascismo?

- O fascismo nasceu na Itália pós-Primeira Guerra Mundial, em um contexto de crise política e econômica e temor de supostos movimentos comunistas após a Revolução Russa de 1917.

- Segundo o historiador italiano Emilio Gentile, o termo fascismo deriva do termo em latim fascio littorio, que representa um conjunto de galhos amarrados a um machado, símbolo da punição na Roma Antiga.

- Em 1919, O líder político Benito Mussolini reuniu ex-combatentes da Primeira Guerra e formou o grupo “Fasci di Combattimento” (Grupo de Combate), que passou a agir como milícia contra políticos de esquerda, judeus e homossexuais.

- Em 1921, o grupo é convertido em legenda por Mussolini, o Partito Nazionale Fascista (Partido Nacional Fascista, o PNF), e entra no Parlamento. O símbolo do partido era justamente o machado do fascio littorio.

- O movimento fascista mobilizou, principalmente, a pequena e média burguesia, elites empresariais e latifundiárias, a classe média e setores do Vaticano. Segundo o historiador britânico Ian Kershaw, em seu livro “De Volta do Inferno”, em 1939 quase metade da população italiana estava filiada a alguma organização fascista.


Fascismo é o mesmo que nazismo?

Não. O fascismo foi geminado na Itália e, posteriormente, na Alemanha, uma legenda com proposta semelhante foi fundada, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische, abreviado: nazi). Portanto, a ideologia serviu de base para o nazismo, que é fundamentado no fascismo.

Segundo professor de ciências políticas da Universidade Federal do Ceará, Fabio Gentile, os dois são muito semelhantes, mas não iguais. “O cerne ideológico do fascismo é o Estado totalitário que visa mobilizar e incorporar as massas, enquanto no nazismo, desde logo, o Estado totalitário ganha um sentido racial-racista, de cunho biológico, que no fascismo, pelo menos no início, não é prioridade do regime”, elucida.

A Itália, por exemplo, só passou a perseguir judeus após a associação com a Alemanha, preparando-se para a guerra. A lei racial italiana é de 1938, mais tardia que a legislação nazista. As duas ideologias são derivadas da extrema-direita, como pontua o museu do Holocausto Yad Vashem, em Israel.

E o neonazismo, o que é?

Símbolos nazi-facistas em manifestações pelo mundo
Símbolos nazi-facistas em manifestações pelo mundo (Foto: ARI MESSINIS/AFP)

É um movimento iniciado após a Segunda Guerra Mundial com objetivo de retomar o projeto racial-racista do nazismo, reforçando a “supremacia branca” ou da “raça ariana”. Nos anos seguintes, nasceram várias células neonazistas, simpatizantes ou mesmo descendentes de movimentos nazistas da primeira metade do século XX.

Na Grécia, o partido Aurora Dourada é apontada como de clara associação nazista, inclusive no uso de símbolos. O porta-voz da legenda, Ilias Kasidiares, até possui uma suástica tatuada. Na Dinamarca, o Movimento Nacional Socialista não esconde sua inspiração nazista, enquanto na Alemanha o partido Alternative für Deutschland (AfD) minimiza a barbárie hitlerista.

Na Ucrânia, a organização paramilitar Pravyi Sektor (Setor Direito) virou partido político e chega mesmo a estampar símbolos da milícia nazista Schutzstaffel (mais conhecida como SS). O grupo ucraniano é classificado oficialmente como neonazista na Rússia, segundo a Folha de S. Paulo.

Nos Estados Unidos, em 2017, uma marcha neonazista na cidade de Charlottesville bradava contra negros, homossexuais, judeus e imigrantes. Centenas compareceram ao movimento com tochas e símbolos do grupo racista estadunidense Ku Klux Kan (KKK) - anterior ao nazismo, mas que compartilha com o mesmo a ideologia supremacista branca e de extrema-direita.

Material apreendido pela Polícia em SP
Material apreendido pela Polícia em SP (Foto: DIVULGAÇÃO POLÍCIA CIVIL DE SÃO PAULO)

Aqui, o grupo “300 do Brasil” replicou muitas características da KKK e de Charlottesville em marcha na cidade de Brasília no último sábado de maio, 30. O agrupamento já reconheceu guardar armas em seu acampamento na capital federal, artefatos que, segundo a principal porta-voz do grupo, Sara Winter, servem para “proteção”. A ativista, cujo nome de batismo é Sara Geromini, adotou a alcunha “Sara Winter”, nome da inglesa membro da União Britânica Fascista que atuou como espiã nazista para o Terceiro Reich.


 

O que é o antifascismo ou movimento antifa?

O antifascismo ou movimento antifa não é uma organização hierarquizada - em geral, é um conjunto de pessoas que propõe ação política direta - e, se preciso, por meio da força - para combate ao fascismo. É comum a presença de anarquistas nas fileiras e também a adoção da tática black bloc.

Historicamente, o antifascismo surgiu na Itália logo após Mussolini tomar o poder em 1922. Embora tenha raiz comunista, no movimento antifascista italiano havia opositores ao regime de diferentes trajetórias, como socialistas, católicos e liberais. O antifascismo italiano teve um primeiro grande momento nas greves operárias no norte da Itália em fevereiro de 1943, logo antes do país de Mussolini cair em abril de 1945 perante as tropas Aliadas na Segunda Guerra Mundial.

Desde a década de 30, na Alemanha nazista, também se formaram grupos antifa, como o Antifaschistiche Aktion, ligado ao Partido Comunista Alemão. “Hoje a palavra antifascismo está sendo ressignificada, não tendo mais um regime fascista ‘clássico’ no poder. Hoje, ser antifascista quer dizer se opor a todas aquelas ameaças autoritárias, “fascistas” e racistas à democracia”, explica o professor Fabio Gentile, de origem italiana.

Do outro lado do Mediterrâneo, um país africano se destacou no antifascismo. Em 1935, a Abissínia (atual Etiópia) do imperador Haile Selassie I foi invadida pela Itália. No segundo ano do conflito, o monarca etíope compareceu pessoalmente na Liga das Nações, organismo criado após a Primeira Guerra Mundial para manter a paz, e denunciou a agressão estrangeira. Pela primeira vez, um líder mundial condenou explicitamente o fascismo italiano. Naquele ano, Selassie foi capa da revista norte-americana Time como o homem do ano. Também naquele ano, seu país foi oficialmente anexado ao Império Italiano.

“É meu dever informar aos governos reunidos na Assembleia de Genebra do perigo mortal que os ameaça, descrevendo o destino que sofreu a Etiópia”
Haile Selassie I, imperador da Etiópia, em discurso na Liga das Nações, denunciando a agressão do regime fascista italiano

Protesto das torcidas organizadas na avenida Paulista, em São Paulo, em 31 de maio de 2020
Protesto das torcidas organizadas na avenida Paulista, em São Paulo, em 31 de maio de 2020 (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP)

Qual relação destes grupos ideológicos com o Brasil?

Na década de 30, os alemães eram o segundo maior mercado consumidor dos produtos brasileiros. Também naquela década, em 1932, o político Plínio Salgado voltou da Itália impressionado com regime fascista. No mesmo ano, lançou o Manifesto de Outubro, marco de fundação da Ação Integralista Brasileira.

O movimento integralista compartilhava ideais semelhantes ao nazifascismo: nacionalismo exacerbado, repúdio ao comunismo, partido único e uma luta contra o capitalismo “internacional”. O grupo usava uma saudação de braço erguido, semelhante aos hitleristas.

Mas a aproximação não era exclusividade dos integralistas. Ao longo da década e até mesmo durante parte da Segunda Guerra, o governo de Getúlio Vargas manteve posição simpática ao Terceiro Reich. Policiais e militares brasileiros treinaram na Gestapo, a polícia secreta alemã, e Vargas até deportou judeus, como no emblemático caso da militante comunista alemã Olga Benário, casada com o brasileiro Luís Carlos Prestes.

Naquele período, sucursais do partido nazista funcionavam legalmente no Brasil e, em 1942, uma marcha brasileiros nazistas reuniu 2 mil no centro de Florianópolis. Após romper com Hitler, no mesmo ano, Getúlio construiu campos de concentração no território nacional, para onde enviou cidadãos italianos, japoneses e alemães que viviam no País.

Segundo a doutora em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Adriana Dias, existiam, em 2019, 69 células neonazistas em Santa Catarina. O estado só fica atrás de São Paulo, onde 99 grupos do tipo estariam ativos por meio da web e encontros secretos.

Os protestos da última semana em todo mundo têm relação com esses movimentos?

Também. Após a morte do norte-americano George Floyd, um homem negro, por um policial branco, os Estados Unidos se viram engolfados por uma onda de protestos da Costa Leste à Oeste contra o racismo. O movimento insuflou reações semelhantes pelo mundo, inclusive no Brasil.

No último domingo de maio, 31, grupos antifa e antirracistas foram à avenida Paulista protestar em prol da democracia e contra a violência policial sobre população negra no Brasil. Apesar de compartilharem as ruas e combaterem ideologias cuja síntese implica em teses de supremacia racial, os dois movimentos têm suas especificidades e origens distintas.

Ainda que o recrudescimento da ideologia antifa sinalize preocupação com a deterioração da democracia brasileira, na avaliação do professor Fabio Gentile, o Brasil não está suscetível a viver um regime fascista, “se por fascismo entendemos aquele clássico”. Mas contrapõe: “Não há dúvida de que Bolsonaro e seu movimento se apropriam de elementos da ideologia fascista”.


Os líderes do nazifascismo

Benito Amilcare Andrea Mussolini nasceu em 1883, na Itália. Ele combateu na Primeira Guerra Mundial. Criou o Partido Nacional Fascista e virou primeiro-ministro em 1922. Passou a utilizar o título Il Duce, que significa líder. Levou o país à Segunda Guerra Mundial e foi morto pela população em 1945.
Benito Amilcare Andrea Mussolini nasceu em 1883, na Itália. Ele combateu na Primeira Guerra Mundial. Criou o Partido Nacional Fascista e virou primeiro-ministro em 1922. Passou a utilizar o título Il Duce, que significa líder. Levou o país à Segunda Guerra Mundial e foi morto pela população em 1945. (Foto: REPRODUÇÃO)


Adolf Hitler nasceu no Áustria em 1889. Ingressou em 1919 na sigla que, mais tarde, seria o partido nazista. Virou chanceler (primeiro-ministro) em 1933. Passou a utilizar o título de Führer, que significa condutor ou líder. Levou o país à Segunda Guerra Mundial e cometeu suicídio diante da derrota iminente para os Aliados.
Adolf Hitler nasceu no Áustria em 1889. Ingressou em 1919 na sigla que, mais tarde, seria o partido nazista. Virou chanceler (primeiro-ministro) em 1933. Passou a utilizar o título de Führer, que significa condutor ou líder. Levou o país à Segunda Guerra Mundial e cometeu suicídio diante da derrota iminente para os Aliados. (Foto: REPRODUÇÃO)

Nazismo na lei
A legislação penal brasileira pune a apologia ao nazismo. A lei nº 7.716/89 penaliza atos de discriminação ou preconceito, que está no cerne do nazismo, e menciona no parágrafo primeiro: “Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”, estipulando pena de dois a cinco anos e multa.

O que assistir

O documentário brasileiro "Menino 23 - Infâncias Perdidas", do diretor Belisário Franca, parte da investigação do historiador Sidney Aguilar, que investigou a descoberta de tijolos com a suástica nazista em um fazenda no interior de São Paulo. Lá, encontrou vítimas: durante a década de 30, 50 meninos negros foram levados do Rio de Janeiro para o lugar, onde foram escravizados por empresários ligados aos pensamentos nazista e integralista.
O documentário brasileiro "Menino 23 - Infâncias Perdidas", do diretor Belisário Franca, parte da investigação do historiador Sidney Aguilar, que investigou a descoberta de tijolos com a suástica nazista em um fazenda no interior de São Paulo. Lá, encontrou vítimas: durante a década de 30, 50 meninos negros foram levados do Rio de Janeiro para o lugar, onde foram escravizados por empresários ligados aos pensamentos nazista e integralista. (Foto: REPRODUÇÃO)

O que ler
O livro “De volta do Inferno”, do historiador britânico Ian Kershaw, faz um compilado do período entre 1914 a 1949, com pesquisa arrojada no período entreguerras, o que diferencia a obra ao explicar não somente os conflitos, mas o contexto que permitiu a deterioração das instituições democráticas e lançou o mundo à barbárie nazifascista.

Com colaboração da repórter Ismia Kariny