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Vidas Negras Importam: movimento norte-americano traz luz à desigualdade racial no Brasil

Entenda os principais acontecimentos que influenciaram a atuação dos ativistas americanos e brasileiros em protestos a partir do movimento Black Lives Matter (BLM), traduzido no Brasil para Vidas Negras Importam

Ismia Kariny
15:21 | 03/06/2020
Times Square em 1º de junho de 2020, Os manifestantes deitaram-se no chão com as mãos atrás das costas em um pedido de justiça a George Floyd, durante um protesto do "Black Lives Matter". (Foto: TIMOTHY A. CLARY / AF)
Times Square em 1º de junho de 2020, Os manifestantes deitaram-se no chão com as mãos atrás das costas em um pedido de justiça a George Floyd, durante um protesto do "Black Lives Matter". (Foto: TIMOTHY A. CLARY / AF)

Atualizada às 17h29min do dia 03/06/2020

A morte do negro norte-americano George Floyd foi o estopim para manifestações em diversas partes do mundo, capaz de unir pessoas de diferentes classes e etnias na luta contra o racismo e na defesa da democracia. O momento, já considerado histórico por pesquisadores e analistas sociais, surge como impulso à causa dos movimentos antirracista e antifascista, que consideram insustentáveis a crescente violência e desigualdade entre os grupos minoritários.

O estopim das manifestações que iniciaram em maio lembra o que aconteceu com Eric Garner, outro negro morto pela polícia de Nova Iorque, em 2014. Na época, Garner tinha 43 anos quando foi, da mesma forma que Floyd, asfixiado. Ele repetiu por onze vezes as palavras "Não consigo respirar". O episódio causou uma grande revolta entre a população negra americana. E o movimento Black Lives Matter, que já tinha pelo menos dois anos de existência, se fortaleceu desde então.

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Também em 2014, o Brasil passava por um momento importante na luta contra a violência e racismo estrutural, com o surgimento da Campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, segundo relata a pesquisadora Geísa Mattos de Araújo Lima, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. A campanha visava chamar a atenção para as primeiras estatísticas que apontavam que, entre a população morta pela polícia, a maioria era de jovens, e, destes, 70% eram negros.

“Mesmo antes disso, nos anos 1990, houve chacinas violentas provocadas por policiais, que ficaram famosas no Brasil, como a chacina do Carandiru e a Chacina da Candelária. Mas não se acentuava na mídia o fato de que as vítimas eram negras; não eram consideradas como crimes racistas”, detalha Geisa. As mudanças na compreensão do racismo de Estado foram percebidas principalmente a partir de 2014, quando surgiram dados apontando que a população negra é a que mais morre em decorrência da violência policial.

Com isso, os movimentos a favor da vida dos negros passou a se intensificar no Brasil, conforme explica a pesquisadora. O debate se fortaleceu também internacionalmente, com a contribuição dos movimentos de mães de vítimas da violência policial no Brasil e os movimentos de favelas na denúncia do racismo de Estado.

Apesar dos flagrantes de violência contra os negros serem comumente associados a episódios ocorridos no Estados Unidos, casos semelhantes não são raros no Brasil. Em 2014, a negra Claudia da Silva Ferreira foi baleada enquanto saia de casa para comprar pão. Ela teve o corpo jogado no porta-malas de uma viatura da Polícia Militar. Quando supostamente estaria sendo levada para atendimento em um hospital, a porta do veículo se abriu, e a mulher foi flagrada em vídeo sendo arrastada por pelo menos 300 metros.

A morte do menino João Pedro, ainda mais recente, também voltou a ser discutida na medida em que as manifestações se intensificaram no País. O caso teve inclusive repercussão internacional, demonstrando o vínculo entre os ativistas de outros países. João era um estudante de apenas 14 anos quando foi morto a tiros dentro de sua própria, durante operação da polícia Civil e Federal em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em 18 de maio deste ano.

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Não é por acaso que está havendo esse paralelo. São dois países conhecidos pela forma opressora, discriminatória e desigual no tratamento da população negra e indígena, com um pesado histórico escravista”, frisa Sandra Haydée Petit, coordenadora do Núcleo das Africanidades Cearenses na Faculdade de Educação da UFC. A professora também e engajada no movimento anti racismo da Universidade e na Marcha Contra o Racismo.

Racismo estrutural é característico da desigualdade no Brasil e Estados Unidos

Embora uma parte dos brasileiros possa considerar que, comparado aos Estados Unidos, o sistema de desigualdade no Brasil é de peso mais social do que racial, Haydée acredita que estejamos em uma situação inversa. “Em termos demográficos, a população negra americana, ainda que na minoria, se encontra em situações mais importantes social e politicamente do que a população negra do Brasil”, comenta.

Com isso, Haydée situa a importância dos brancos aderirem à causa antirracista, visto que ainda ocupam os cargos dominantes do País. Outro paralelo feito pela professora diz respeito à ocupação desproporcional de negros e brancos no sistema carcerário, que também é alarmante. A população negra corresponde a 53% dos brasileiros e 64% dos presos no sistema carcerário, segundo o último levantamento realizado pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016.

Nos Estados Unidos, os negros ocupam 12% da população adulta, mas 33% da população carcerária condenada, enquanto os brancos são 64% dos adultos e 30% dos prisioneiros, conforme levantamento do Bureau of Justice Statistics, divulgado pelo Pew Research Center em maio deste ano.

Exposição do corpo negro demonstra a vulnerabilidade sempre presente

Mesmo diante da pandemia, os movimentos antirracistas tomaram as ruas em protestos nos Estados Unidos e também no Brasil. A eles se uniram os grupos antifascistas, que contam ainda com o apoio de torcidas organizadas, contra o presidente Jair Bolsonaro. A situação é alarmante, considerando o risco de exposição ao vírus causador da Covid-19 e a possibilidade de maior disseminação da doença no País.

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Embora o cenário seja preocupante e possa colocar em maior situação de vulnerabilidade os grupos que são ainda mais afetados pelo surto do novo coronavírus, a professora Sandra Haydée considera que é um ato simbólico, que destaca uma situação já insustentável. “As pessoas saírem para expôr seu corpo negro em uma situação que podem vir a ser maltratadas e até agredidas fisicamente ao ponto de morrer, é uma situação impressionante em tempos normais. Mas em período de pandemia, elas podem se arriscar porque sentem que seus corpos já viviam esse risco e vulnerabilidade”, reflete.

Essa ligação com o movimento antifascista levantou debates sobre a possibilidade de uma pauta se sobrepor a outra, podendo comprometer a luta contra o racismo. Entretanto, no entendimento da professora Sandra, eles estão mais próximos de se complementar e agregar na luta pelo direito das minorias. “Pelo que estamos vendo, há sim uma convergência de valores, e por que não? A pauta da democracia é importante para que tenhamos esperança de continuar combatendo o racismo”, diz ela. Sandra acrescenta que o fascismo utiliza o racismo para alcançar seus objetivos.

Pelo que luta o movimento antifascista?

O termo antifascista ganhou novos significados, desde que surgiu na Itália em 1922. Na época, estavam na linha de frente em oposição ao fascismo os grupos de diferentes trajetórias ideológicas e políticas, desde comunistas e socialistas até católicos e liberais, principalmente. Conforme Fabio Gentile, professor de Ciências Políticas do Departamento de Ciências Sociais da UFC, quando o movimento antifascista se organizou, deu-se início a “Resistenza”. Em setembro de 1943, a iniciativa se opôs ao que sobrava do fascismo no Norte da Itália, que estava sob o controle do exército nazista.

Desde então, conforme os regimes fascistas iam sendo derrubados, os movimentos foram se adaptando. Hoje, ser antifascista significa se opor às ameaças autoritárias contra a democracia. “Este movimento antifascista brasileiro, embora seja ainda muito difícil de entender o que é e qual a composição social, está se opondo ao movimento bolsonarista e ao seu líder, o presidente Jair Bolsonaro”, esclarece Fabio. Conforme o professor, apesar de não existir mais um regime fascista, a palavra “fascismo” é utilizada na luta política para definir todas as novas formas autoritárias, neofascistas e até populistas que surgem na sociedade.

Brancos possuem papel importante na luta contra o racismo estrutural

A professora Geisa Mattos tem pesquisado o papel do branco nas lutas antirracistas. Ela destaca que, diante da estrutura que desfavorece uma parte considerável da população pelas diferenças raciais, a omissão desse grupo é um obstáculo para a igualdade. “Não basta o branco dizer que não é racista, ele tem que ser antirracista. Se ele é omisso e a força policial se fortalece, ele está sendo cúmplice”, frisa. Nessa luta, Geisa ressalta que os brancos são conclamados a participar.

Para a professora Sandra Haydée, essa necessidade também é reforçada, visto que o “ódio racial” existe, independentemente de classe. “Ele é baseado na ideia da supremacia branca, que nega a humanidade do negro e da negra, e que por isso seriam descartáveis, e poderiam ser tratados da pior forma, sem piedade”, pontua. Esse pensamento, segundo Sandra, permanece em vários setores da sociedade brasileira.

Assim, enquanto as pessoas brancas que estiverem na hierarquia do poder não assumirem o seu papel contra as desigualdades, a luta antirracista não será fácil, complementa Geisa Mattos. “A gente tem visto muitos brancos indo para as manifestações, eles estão se colocando na linha de frente. E nos Estados Unidos tem policiais se ajoelhando em pedido de desculpas por toda a violência do próprio Estado; tem sido muito bonito”, conclui.