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NOTÍCIA

Sobrevivente de incêndio no CT do Flamengo, Cauan volta ao Fortaleza por sonho profissional

Jovem atacante cearense relembra vida pós-trauma no Ninho do Urubu, fala sobre retomada da carreira, explica saída do Rubro-Negro e projeta se firmar no Tricolor

16:48 | 28/06/2021
Atacante Cauan em treino do Fortaleza no CT Ribamar Bezerra, em Maracanaú (Foto: Thais Pontes / Fortaleza EC)
Atacante Cauan em treino do Fortaleza no CT Ribamar Bezerra, em Maracanaú (Foto: Thais Pontes / Fortaleza EC)

Nas constantes reviravoltas do mundo da bola, as trajetórias de Cauan Emanuel Gomes Nunes e Fortaleza se reencontraram há cerca de 20 dias. Revelado em projeto de futsal do clube, o cearense de 17 anos retornou ao clube para dar sequência ao sonho que poderia ter sido interrompido de forma trágica no dia 8 de fevereiro de 2019: o jovem atacante foi um dos sobreviventes do trágico incêndio no Ninho do Urubu, CT do Flamengo-RJ, que vitimou dez garotos.

Dos 16 sobreviventes, Cauan foi um dos três feridos e chegou a quebrar a janela de vidro do contêiner que servia de alojamento para salvar alguns companheiros. As cicatrizes e marcas físicas foram rapidamente curadas e superadas, mas trauma vivido por um garoto de 14 anos à época demandou ajuda profissional e suporte da família para trabalhar a parte psicológica.

"Meu pai foi um dos principais, que sempre conversou comigo, porque depois do acontecido eu não estava muito motivado mais para jogar futebol. Estou sendo bem sincero, porque é muito difícil a pessoa falar isso, mas depois do incêndio foi bem difícil botar na cabeça: 'Ah, eu quero jogar futebol'. Mas tive o apoio do meu pai, da minha vó, da minha namorada, da família da minha namorada, então tanto os profissionais quanto as minhas famílias me deram esse apoio. Hoje estou bem tranquilo sobre isso", relatou o atacante, em conversa virtual de cerca de 20 minutos com O POVO.

Fisicamente recuperado, o cearense de Maracanaú voltou aos treinos pouco mais de três meses após o incidente. Não custou a disputar jogos e balançar as redes - principal ofício em campo. Em meados de 2020, assinou contrato profissional com o Rubro-Negro, mas foi informado neste ano que estava fora dos planos. O empecilho não o abateu e a volta para casa se apresentou como cenário ideal no momento.

Cauan deu os primeiros passos no futebol em Santa Cruz e Estação, dois clubes focados em categorias de base no futebol cearense. Em 2017, fez parte do Leõezinhos, projeto do Fortaleza de futsal para jovens, e já era bem avaliado internamente. Ao final daquele ano, fez teste no Flamengo-RJ e se mudou para o Rio. Agora, no caminho inverso, o atacante comemora a proximidade maior da família e espera realizar o sonho de se tornar profissional com a camisa tricolor. E já sabe em quem se espelhar no próprio clube.

"Hoje, como referência, eu vejo o Tinga, um cara que se entrega muito dentro de campo, dá a vida, o último suspiro pelo time, então é um cara que eu vejo como referência para o clube. Mas um jogador que eu me inspiro é o Wellington Paulista, que é da minha função. Um cara decisivo, que sempre que tem a oportunidade vai botar a bola para dentro do gol. São esses dois jogadores", disse o camisa 11, que já estreou pelo sub-17 do Leão e marcou gol.

O POVO - A sua recuperação física após o incêndio foi uma das mais rápidas. Você lembra como foram aqueles dias, o período no hospital?

Cauan - "Minha recuperação física foi bem rápida. Acredito que não demorou tanto, até porque eu voltei a jogar, fui o mais rápido. Os médicos me deram toda a atenção, fizeram de tudo para eu me recuperar o mais rápido possível e a recuperação em si foi muito tranquila, muito rápida. Não fiquei com nenhuma sequela depois do acontecido, me cuidei bem e hoje tenho um físico muito bom, consegui me recuperar, a minha saúde. Então foi bem tranquila"

Na época, você tinha entre 14 e 15 anos e sofreu um grande trauma, inclusive perdendo companheiros. Como foi lidar com a parte psicológica?

"Eu vou ser bem sincero contigo: no começo foi bem difícil, bem difícil mesmo, porque o que aconteceu ali foi muito pesado, muito pesado mesmo. Então foi muito difícil. Apesar de terem acontecido coisas que você não vai esquecer. No começo foi bem difícil, aí depois já fui conversando com profissionais, psicólogos, a minha própria família vinha ajudando. Essa parte psicológica, no começo, foi bem difícil de se lidar, mas depois foi melhorando aos poucos e hoje, graças a Deus, não consigo lembrar tanto. Algumas vezes vem na minha cabeça, mas nem tanto eu consigo lembrar. Até porque se eu ficar lembrando toda hora, me afeta às vezes na parte profissional, do futebol"

Em poucos mais de três meses, você já voltou a treinar e depois a disputar os jogos. O que você sentiu naquele momento? Era um misto de sensações?

"Eu fiquei muito feliz, muito feliz, muito feliz mesmo, mas eu senti muita falta de muitas pessoas também. Muito feliz em poder me recuperar o mais rápido possível, poder voltar aos campos, fazer o meu papel de atleta, de profissional, então fiquei muito feliz, mas também fiquei um pouco triste por estar ali e não poder ver os meus companheiros. Porque você está ali e vai imaginar a pessoa que convivia há muito tempo. Eu fiquei muito feliz, mas me afetava um pouco"

Mas a sensação de voltar a pisar no gramado e bater na bola foi de uma estreia?

"Foi. Parece que eu estava recomeçando a minha carreira. Era o primeiro jogo profissional da minha vida, então, para mim, foi muito especial. Aliás, até estreei - é como se fosse uma estreia, né? - com gols, dei assistência, então para mim foi um começo de carreira perfeito"

Outros 15 garotos sobreviveram ao incêndio, inclusive graças a sua ajuda para sair do contêiner. Como ficou a relação de vocês depois disso?

"Na verdade, depois do incêndio, que todo mundo se reuniu, parece que a gente ficou mais unido. Antigamente, a gente não tinha essa relação muito apegada, mas depois que a gente foi conversando, eu, Jhonata e Dyogo, e outros também que conseguiram sair, tivemos uma aproximação maior. Hoje todo mundo é amigo, parceiro, todo mês a gente se comunica. Então todo mundo tem uma união muito forte, uma amizade muito legal"

O Dyogo, aliás, é cearense também, segue no Flamengo-RJ e chegou a ser chamado para a seleção brasileira sub-17. Você tem um contato maior com ele?

"Eu tinha mais contato com ele antigamente. Eu perdi mais contato com ele, por ele estar treinando mais em cima (outra categoria), perdi um pouco de contato, mas torço muito por ele. Apesar de não ter muito contato, torço muito por ele e sei que ele tem potencial para ser um grande atleta"

No ano passado, você assinou o primeiro contrato profissional no Flamengo-RJ, que iria até 2022, mas acabou voltando agora para o Fortaleza. O que ocorreu?

"Na verdade, eu vinha treinando no começo do ano, lá no Flamengo-RJ, e vinha bem, treinando forte, recebendo elogios, mas aí, não sei o que aconteceu, os caras falaram que não iam me utilizar mais. Daí eu tomei a decisão de entrar em contato com o Fortaleza, porque sabia que seria um clube que ia me abraçar. A minha empresa e os dirigentes do Fortaleza aceitaram a proposta e eu retornei à casa. E fiquei muito feliz também porque é o clube que me revelou. Também agradeço muito ao Flamengo por todo o suporte que eles me deram, sou muito grato aos profissionais de lá e desejo sucesso para eles"

E como foi a negociação para acertar com o Fortaleza? Você chegou a participar diretamente?

"Na verdade, quem entrou em contato primeiro foi o meu empresário. Ele entrou em contato com o Agnello (Gonçalves, diretor executivo da base), com o Marcelo Paz (presidente do Fortaleza), e entrou em um acordo. E os caras me acolheram, falaram que iam me abraçar, que sempre ia ser uma cria do Fortaleza. Fiquei muito feliz em vir, sem dúvidas. Hoje estou aqui e pode ter certeza que vou contribuir muito mais"

Imagino que a sua família também tenha ficado muito feliz com esse retorno para o Estado, né?

"A minha família ficou muito feliz, até porque eu estou muito perto deles agora, tenho uma convivência mais próxima. Quando eu estava no Rio de Janeiro, só via de seis em seis meses, e isso também me afetava bastante lá. Hoje posso estar perto da minha família, convivendo, vivendo todos os momentos com eles e poder fazer o meu futuro aqui"

Antes de ir para o Rio de Janeiro, você já tinha jogado no futsal do Fortaleza, no projeto Leõezinhos. Quais lembranças você tem dessa época?

"O que eu posso relembrar no Fortaleza são muitas alegrias. Os colegas que jogavam comigo, a maioria está aqui (no sub-17) hoje, jogam comigo, e os profissionais também, que estavam no futsal e hoje estão no campo. Fico muito honrado em ter feito meu papel antigamente e poder fazer o meu papel hoje. Posso contribuir muito no Fortaleza, trabalhar para poder chegar no objetivo principal, que é o profissional. Tenho muitas alegrias aqui, muitas conquistas pelo clube e fico muito feliz e honrado"

Ainda em 2019, você foi convidado pelo Fortaleza para conhecer a sede, ganhou camisa oficial e foi ao Castelão assistir a um jogo contra o Bahia. Como foi aquele dia para você?

"Eu fiquei muito feliz emocionado naquele dia. Não imaginava que eu iria naquele jogo, e o Marcelo Paz ligou para a minha assessoria e pediu que eu fosse lá. Fiquei muito feliz porque eu não imaginava ir em um jogo do profissional do Fortaleza, ir no vestiário, falar com os jogadores. Pude fazer parte dessa imagem, dessa lembrança tão importante... E entrar em campo, poder tirar foto com os jogadores, sentir o gramado do Castelão. Fiquei muito feliz em poder conhecer todos os jogadores, apesar de eu já ter contato com a maioria, graças a esse dia. Foi um dia muito especial para mim, fiquei muito emocionado e feliz pelo Fortaleza ter me dado essa oportunidade"

Você está em uma idade próxima de subir para a categoria profissional e já vive a rotina de um clube há alguns anos. Você tem alguma meta para o futuro, como ser ídolo do Fortaleza ou jogar na Europa?

"Eu penso em viver o hoje. Treinar hoje, treinar amanhã, fazer o meu papel, o que o treinador me pede. O que ele está me pedindo, eu tenho certeza que é o fruto que eu vou colher para chegar ao profissional. Fazer o meu papel na base, ainda sou jogador de base, apesar de ter contrato profissional, não posso me precipitar tanto. Precisa ter humildade para chegar, pé no chão, então estou fazendo o meu papel aqui e tenho certeza que o que eu fizer aqui vou contribuir no profissional. Se Deus quiser, o treinador vai me convocar para ir"

Por falar em profissional, você já teve contato com o treinador ou com os jogadores?

"O Vojvoda ainda não, mas já conheci Osvaldo, Tinga, Felipe... Esses que eu me lembro, mas conheci muito mais"

 Muitos torcedores ainda não devem conhecer suas características como jogador. O que você mais gosta em campo é de fazer gol mesmo? Até já estreou marcando...

"Eu sou um cara obcecado por gol, então sempre que tiver a oportunidade vou fazer. Inclusive, no jogo contra a Chapecoense-SC, no primeiro cruzamento que teve, eu fui oportunista em ter feito o gol para abrir o placar. E pude ajudar com passe para gol, com assistências, me entregar ao time, dar a vida, vibrar dentro de campo, comandar uma equipe, porque hoje em dia são poucos jogadores que têm a responsabilidade de cobrar e de ser cobrado. Foi muito especial para mim poder voltar a jogar pelo Fortaleza, fazer gol e todas essas funções. Espero fazer muito mais do que isso em todas as partidas, nos treinos, no profissional, que com certeza eu vou ter que me entregar o dobro. Pode ter certeza que esse retorno, para mim, foi um retorno mágico e muito perfeito"