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Coronavírus
NOTÍCIA

Com taxa de ocupação acima dos 90% nas UTIs, cenário da Covid-19 no público infantil requer atenção

UTIs do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias) estão totalmente ocupadas e especialistas acreditam ação da nova variante no aumento dos números. Desde início da pandemia, 26.649 crianças de zero a 14 anos tiveram a doença

Mirla Nobre
17:20 | 05/03/2021
Hospital Albert Sabin é referência em atendimento infantil (Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo)
Hospital Albert Sabin é referência em atendimento infantil (Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo)

Um cenário ainda de muitas dúvidas e incertezas, principalmente quando o debate é a infecção pelo novo coronavírus em crianças. Fortaleza registrou 95,65% na taxa de ocupação de leitos infantis de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com pacientes com Covid-19. Em comparação ao primeiro pico da pandemia, em 19 de maio de 2020, onde 52,94% dos leitos estavam ocupados, a alta é de 80,6% das internações de crianças nas UTIs em nove meses na Capital. Os dados são da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), e foram consolidados na quarta-feira, 3.

Os números são referentes a três hospitais específicos no atendimento ao público infantil na Capital, dois da rede pública e um particular: Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), Hospital Infantil Filantrópico (Sopai) e Hospital Luís França, da rede Hapvida.

No Hias, a UTI Infantil está em 100% na taxa de ocupação, com 21 leitos ocupados. Para intensificar o atendimento a este grupo, o Governo do Ceará, entregou, na última segunda-feira, 1º, dez novos leitos de UTI pediátrica, voltados para o tratamento de pacientes com Covid-19, ao Sopai. Até a última atualização do IntegraSUS, ainda não havia registro de ocupação desses leitos na unidade.

No entanto, no Sopai, onde estavam concentrados apenas leitos de enfermaria Covid-19 até a semana passada, a taxa de ocupação segue em alta, em comparação ao primeiro pico da pandemia. A unidade registrou 98% na taxa de ocupação. Em maio de 2020, essa ocupação estava em 16%.

Na rede privada, o Hospital Infantil Luís França registra taxa de ocupação na UTI Infantil de 50% e nos leitos de enfermaria Covid, 44%. No pico, em maio de 2020, os índices eram 11% e 18,75%, respectivamente.

Transmissão rápida e imunidade

Segundo a médica pediatra e presidente da Associação Brasileira de Imunizações (Sbim) da Regional Ceará, Jocileide Sales Campos, as novas variantes da Covid-19 são de transmissão rápida, por isso mais pessoas estão adoecendo ao mesmo tempo, o que coincide com o aumento de casos em crianças na Capital.

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Desde o início da pandemia, 26.649 casos da Covid-19 foram confirmados em crianças de 0 a 14 anos no Ceará. A maior alta ocorreu entre dezembro e janeiro. No primeiro, foram 1.822 diagnósticos positivos e no segundo, 2.476, uma alta de 35,9% entre o último mês de 2020 e o início de 2021.

Fevereiro também seguiu uma tendência de alta. Conforme os dados disponibilizados até ontem, 4, foram 2.507 casos positivos pela população infantil. Os números são atualizados diariamente na plataforma da Sesa.

Conforme o médico infectologista Keny Colares, do Hospital São José (HSJ), em Fortaleza, algumas teorias explicam a infecção em crianças e a diferença entre adultos e idosos. “Existem dois aspectos. O primeiro é o comportamento do sistema imune. A parte do sistema imune que dá o primeiro enfrentamento ao vírus é mais ativo na infância e depois ele vai perdendo um pouco. As crianças têm muito menos receptores do que com o avanço da idade, por conta disso elas têm menos porta de entrada para o vírus nas células, ou seja, uma chance menor de se infectar”, aponta.

O Hias informou, por meio de nota ao O POVO, que todas as crianças diagnosticadas com Covid-19 estão sendo "devidamente assistidas e recebendo tratamento adequado em ala isolada". A unidade reforça ainda que, devido ao período de chuvas e arboviroses, os meses iniciais do ano apresentam maior procura por atendimentos pediátricos, aumentando também a demanda no hospital.

Nova variante do vírus

No dia 8 de fevereiro, a Sesa confirmou a circulação da nova variante do novo coronavírus procedente da cidade de Manaus, no Amazonas. Identificada como P1 da Covid-19, ela surgiu no final de 2020 em Manaus, e foi classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma Variante de Preocupação (VOC, do inglês Variant of Concern), designação dada a variantes com múltiplas mutações.

Em relação à ação da nova variante no grupo infantil, o infectologista Keny Colares explica que o cenário ainda é de muitas dúvidas, mas que acredita que a alta de casos da Covid-19 em crianças pode estar associada à chegada da mutação do vírus no Estado. “Temos a possibilidade de vírus que são mais transmissíveis. É possível que a alta de casos em crianças esteja relacionada com a nova variante, mas não dá pra gente ter certeza por enquanto. Além disso, a gente sabe que tem aspectos virais nessa época do ano, onde a gente tem mais infecções respiratórias no primeiro semestre”, pontua.

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Óbitos em crianças

No total de óbitos por covid-19, de março de 2020 a 4 de março de 2021, foram confirmados 11.554 mortes no Ceará. Na faixa de 0 a 14 anos, estão contabilizados 32 óbitos no Estado desde o início da pandemia, conforme a plataforma IntegraSUS. São 26 mortes entre crianças de 0 a 4 anos; três mortes, de 5 a 9 anos e três mortes, de 10 a 14 anos.

Em janeiro de 2021, o Estado apresentou a pior marca de óbitos infantis desde maio de 2020. Foram 12 mortes, nessa faixa etária (0 a 14 anos). Esse foi o segundo maior registro de mortes nesse grupo desde o início da pandemia. Só ficou atrás de maio de 2020, pico da primeira onda de transmissão, que teve 18 mortes.

Dos 12 óbitos de janeiro último, nove foram registrados no grupo mais jovem: meninos e meninas que tinham até 4 anos de idade. Outras duas vítimas tinham entre 5 e 9 anos e, mais uma, entre 10 e 14. Em maio de 2020, das 18 mortes de crianças por covid, 12 tinham até 4 anos, três entre 5 e 9 anos e, mais três, entre 10 e 14.

Vacinação no público infantil

A campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil começou em janeiro de 2021, voltada apenas para o grupo prioritário no Programa Nacional de Imunizações (PNI). Estão inclusos profissionais da saúde, idosos de 75 anos ou mais e indígenas, boa parte já recebendo uma ou duas doses do imunizante. Para o grupo infantil, as vacinas não estão disponíveis - nem há previsão, conforme as autoridades sanitárias.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os testes das vacinas já liberadas no Brasil foram feitos apenas em indivíduos a partir de 18 anos. Os demais grupos precisam esperar até que haja estudos específicos, necessários para definir a dosagem correta, segurança e eficácia.

Entre os estudos sobre a imunização neste grupo, a Universidade de Oxford anunciou no dia 13 de fevereiro, que o imunizante produzido pela farmacêutica britânica AstraZeneca em conjunto com a universidade será testado pela primeira vez em crianças e adolescentes. O objetivo é avaliar a segurança e a resposta imune da vacina contra a Covid-19 neste grupo. As vacinas da Pfizer e Moderna também planejam testes clínicos para a população infantil.

Cuidados devem ser redobrados

A médica pediatra Jocileide Sales Campos, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm - Regional Ceará) e professora universitária, explica como a doença atinge o grupo infantil e os cuidados a serem seguidos.

O POVO - As novas variantes da Covid-19 são uma preocupação no aumento de casos em crianças?

Jocileide Sales - As novas variantes são de transmissão rápida, por isso mais pessoas estão adoecendo ao mesmo tempo, o que coincide com o aumento de casos em crianças. Entre essas crianças, naquelas com alguma comorbidade, o quadro tem sido bem mais severo, de acordo com a doutora Fábia Maria Holanda, diretora clínica do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias) durante uma live nas redes sociais.

OP - As crianças, por enquanto, ainda não podem ser vacinadas. Como a senhora analisa isso?

Jocileide Sales - Algumas farmacêuticas e laboratórios já estão desenvolvendo testes em crianças, como a Moderna e a Pfizer, essas duas no grupo de crianças acima de 7 anos de idade. A Sinovac já está trabalhando com crianças de 3 anos. É preciso conhecer as respostas das crianças, a segurança da vacina, a dosagem que precisa para a produção de anticorpos. Então, é preciso estudar para que depois possa ser realizada a vacinação nas crianças com segurança.

OP - Diante disso, quais os principais cuidados que devemos ter com o público infantil?

Jocileide Sales - Os cuidados que devem ser mantidos são os que estão sendo propostos pelas autoridades sanitárias, como o distanciamento social, uso de máscara em crianças maiores de 2 anos de idade, higienização de mãos e objetos e orientar as crianças a não levar as mãos aos rostos, não trocar de máscara com o colega. Mas, acima de tudo, conversar com elas, explicar sobre a situação atual e, principalmente, monitorá-las, ou seja, acompanhar elas de perto e proteger.

OP - Por que crianças seriam menos propensas à Covid-19?

Jocileide Sales - As crianças têm um sistema imunológico diferente do adulto. E eles respondem às agressões do vírus de um modo diferente também. Por isso, crianças têm uma resposta diferente, idosos também, nesse caso são muito mais graves. E como os adultos jovens têm frequentado muito ambientes abertos sem máscaras, estão adoecendo mais.

OP - A volta às aulas presenciais é uma questão que vem sendo bastante debatida por autoridades e famílias. Qual a recomendação da senhora em relação a esse tema?

Jocileide Sales - Eu acho que é muito difícil você manter um ambiente para as crianças de uma forma adequada, livre da transmissão da Covid-19. Sempre penso que as crianças não têm muito controle, principalmente as menores. Os maiores não respeitam muito e os menores não entendem bem. Quando você tem um ambiente inadequado, fica muito complicado. Você manter o distanciamento, apesar da organização das escolas, fica difícil. Tenho um grande receio que as crianças nas escolas possam aumentar a infectividade, aumentar a transmissão e, inclusive, as crianças podem trazer esse vírus para os pais e avós. Melhor perder um período de estudo do que perder a saúde e a vida.

OP - Qual a importância do diálogo entre pais e crianças sobre a doença?

Jocileide Sales - O diálogo com os pais é muito importante. Essa conversa é fundamental para que as crianças percebam a situação da doença e, ao mesmo tempo, a compreensão dos pais para que sejam tolerantes com as crianças. Porque elas estão sob um estresse elevado, estão vivendo algo em que não esperavam, fora da escola, longe dos colegas, então é preciso também ter muita paciência e compreender melhor. E, acima de tudo, ter um comportamento amistoso entre pais e filhos.

Medidas de proteção para os pequenos

- Lave com frequência as mãos até a altura dos punhos, com água e sabão, ou então higienize com álcool em gel 70%

- Ao tossir ou espirrar, cubra nariz e boca com lenço ou com o braço, e não com as mãos

- Evite tocar olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas

- Ao tocar, lave sempre as mãos como já indicado

- Mantenha uma distância mínima de cerca de 2 metros de qualquer pessoa tossindo ou espirrando

- Evite abraços, beijos e apertos de mãos. Adote um comportamento amigável sem contato físico, mas sempre com um sorriso no rosto

- Higienize com frequência o celular e os brinquedos das crianças

- Não compartilhe objetos de uso pessoal, como talheres, toalhas, pratos e copos

- Mantenha os ambientes limpos e bem ventilados

- Se estiver doente, evite contato físico com outras pessoas, principalmente idosos e doentes crônicos, e fique em casa até melhorar

- Durma bem e tenha uma alimentação saudável

(Fonte: Ministério da Saúde)