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Coronavírus
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"Mesmo em isolamento, tentamos trazer proximidade", diz Alan Luz, pastor de igreja inclusiva

Com foco no trabalho social sem preconceitos, líder religioso conta como sua rotina e a do templo que comanda seguem alteradas com as restrições impostas para evitar a propagação do novo coronavírus

Leonardo Maia
20:30 | 23/02/2021
Encontros presenciais são uma exceção na rotina do pastor Alan Luz, que se reinventa para se comunicar online. *A foto foi tirada de forma remota como precaução à circulação do vírus. (Foto: Thais Mesquita/O POVO)
Encontros presenciais são uma exceção na rotina do pastor Alan Luz, que se reinventa para se comunicar online. *A foto foi tirada de forma remota como precaução à circulação do vírus. (Foto: Thais Mesquita/O POVO)

A necessidade de isolamento social, vigente em quase todo o mundo desde o ano passado, é uma experiência singular para cada pessoa. Enquanto ficar em casa é uma tortura para alguns, não sair de suas residências pode não ser o pior dos mundos em alguns casos. A experiência, vivenciada de forma solitária, tem forte dependência da coletividade, como bem pondera o pastor Alan Luz, da Igreja Apostólica Filhos da Luz (IAFL): “Quanto mais rápido entendermos a necessidade de isolamento, mais rápido vamos sair dela”.

Alan é o quinto entrevistado de série do O POVO que se propõe a contar histórias de pessoas que mesmo após quase um ano dos primeiros casos da Covid-19 no Ceará continuam respeitando os protocolos sanitários e saindo de casa apenas quando necessário. O empenho para evitar aglomerações e usar máscara segue defendido por pesquisadores, especialmente com a alta de casos da doença e o surgimento de novas variantes do vírus — uma delas já registrada no Ceará.

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Acostumado a acolher os fiéis de perto e de forma calorosa, manter o distanciamento físico das pessoas tem sido uma tarefa árdua para o pastor. Mesmo com a realização de encontros presenciais com a comunidade — seguindo todos os protocolos exigidos em decreto — Alan conta que a igreja segue tentando fazer sempre encontros virtuais, com estímulo ao diálogo. “Costumamos fazer cafés online, em que cada um prepara o seu em casa. Não é o mesmo que um contato caloroso, mas traz certa proximidade”, considera.

O pastor relata que ainda segue totalmente isolado de seus familiares idosos por precaução. Ele conta que alguns momentos foram bem difíceis durante a pandemia: sua avó fraturou o fêmur e sua mãe precisou fazer uma cirurgia. A vitória, todavia, está sendo todos eles continuarem muito ativos e distantes de uma infecção por Covid-19. “A gente tem que se reinventar o tempo todo para manter a comunicação online, mas sempre temos os cuidados”, enfatiza.

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Já com os amigos ele se permite ter um pouco mais de liberdade, mas os cuidados ainda são muito restritos. Com número reduzido de pessoas, o uso da máscara é frequente, retirando apenas para comer. “O hábito de ficar sem máscara tá sendo só dentro de casa, com o convívio da família e de pessoas próximas”, alerta.

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O tempo em casa é um convite para descobrirmos coisas que sempre passavam despercebidas na correria do dia a dia. No caso de Alan, o cuidado de si próprio e das pessoas que estão a seu redor foi uma das principais lições do isolamento. “Normalmente, a gente dava muita atenção para quem está fora (de casa) e quem está dentro ficava em segundo plano”, considera.

 

“Precisamos nos adaptar para falar mais pelo olhar que pelo contato físico”, ressalta Alan Luz

O isolamento tem sido o estopim para o desenvolvimento de muitos problemas de saúde mental. A pauta — objeto de pós-graduação do pastor — é preocupação constante das ações da igreja durante a pandemia. Por meio de um núcleo de atendimento terapêutico, os atendimentos acontecem de acordo com as possibilidades dos fiéis, seja através de videochamada, por ligação convencional ou visita presencial, quando as outras opções não são possíveis.

Alan explica que a igreja, que se denomina inclusiva por não ter preconceito com nenhum tipo de público, tem foco para as questões sociais da comunidade. O maior público atendido são os LGBT+, ainda rejeitados em templos de religiões mais tradicionais. “Além de distribuir cestas básicas, temos um trabalho focado em reintegrar as pessoas na sociedade. No caso de homens e mulheres trans buscamos ajudar a tirar seus documentos com o nome social, por exemplo. Nosso lema é ser mais que uma igreja e sim uma família”, complementa.

Igreja fez celebração em referência ao Dia da Visibilidade Trans, assista:

"Precisamos ter mais empatia, entender mais o lado do outro. Alguns podem ter um sistema imunológico muito avançado, mas podem funcionar como condutores do vírus para outras pessoas com sistema imunológico menos favorecido. Tudo que mexe com nossa liberdade interfere na nossa estrutura como um todo. Precisamos fazer um sacrifício para um bem maior, não entendemos o que está acontecendo agora, mas tudo isso vai impactar no futuro”, finaliza.