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Coronavírus
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Coronavírus: paralisação de testes de vacina é comum durante os estudos; entenda

Segundo especialista, pausas são comuns durante o processo de vacinas. Urgência da pandemia motiva produção em menos de meses, o que é incomum para outros antídotos já produzidos. Movimento anti-vacina também preocupa especialistas

Marília Freitas
14:35 | 10/09/2020
A vacina é tida como um estímulo que se dá ao organismo para produção um arsenal de defesa contra os patógenos. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
A vacina é tida como um estímulo que se dá ao organismo para produção um arsenal de defesa contra os patógenos. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A paralisação da terceira fase da vacina contra o novo coronavírus trouxe questionamentos desde a veracidade do antídoto ao prazo de imunização pelo mundo. Após efeitos adversos em uma paciente, a testagem da ChAdOx1, vacina criada pela farmacêutica AstraZeneca e uma das mais avançadas até então, foram paralisadas na última terça-feira, 8. Mas o que isso de fato significa para a comunidade acadêmica e para a população?

A vacina é tida como um estímulo que se dá ao organismo para produção de um arsenal de defesa contra os patógenos - no caso da Covid-19, o vírus Sars-CoV-2. Existem diferentes abordagens de um mesmo experimento e todas elas têm um tempo diferente de resposta.

A vacina britânica encontra-se na fase três, caracterizada por analisar as reações em uma gama maior de pessoas, chegando a milhares de participantes das testagens divididos em diversos grupos pelo mundo - aqui no Brasil, são cerca de 5 mil voluntários e nenhum deles chegou a apresentar reações adversas até então. O caso que causou a paralisação dos testes foi identificado no Reino Unido.

Como a fase engloba muitas testagens e prevê a observação desas reações, o processo de paralisação é comum durante a produção das vacinas conforme explica ao O POVO Edson Teixeira, integrante do Laboratório Integrado de Biomoléculas (Libs) da UFC. A produção é pausada apenas quando há relatos de casos graves como o da paciente britânica e há a probabilidade da doença não ter relação com a ChAdOx1, mas sim com um agente externo.

"Os pacientes não ficam engaiolados, eles continuam a viver normalmente a sua vida após receber o antídoto. Há a probabilidade de isso não ter a ver com a vacina", exemplifica. Para Edson, a investigação do caso deve durar cerca de 15 dias ou no máximo um mês devido à urgência do antídoto. Normalmente, a terceira fase onde se encontra a vacina de Oxford demoraria cerca de 1 a 4 anos para ser finalizada, se não perdurássemos em uma pandemia há meses.

"Essa rapidez é por tudo que estamos atingindo: em curto tempo, tivemos muitos infectados e muitas mortes. É claro que os laboratórios entram com esforços para produzir, pois, obviamente existe uma preocupação e também muito dinheiro envolvido nisso", reforça.

O Ministério da Saúde (MS) prevê um repasse de R$ 522,1 milhões na unidade da Fiocruz, responsável pela produção dessa vacina no País. Outros R$ 1,3 bilhão são despesas referentes a pagamentos previstos no Contrato de Encomenda Tecnológica. Os valores contemplam a finalização da vacina e preveem a distribuição de 100 milhões de doses no Brasil.

Com a paralisação dos testes, a vacina pode atrasar - mas Edson novamente reforça a frequência do fato durante as produções. "Todas as vacinas podem atrasar quando estão em processos de estudo clínico, você não tem como precisar uma data", aponta.

A suspensão da AstraZeneca veio horas após a declaração do ministro interino Eduardo Pazuello sobre a data da distribuição da vacina pelo Sistema Único de Saúde (SUS): janeiro de 2021. A própria farmacêutica deu um prazo parecido nesta quinta-feira, 10.

Para o especialista, a data de distribuição ainda é indefinida. "Todas as pessoas que já disserem que temos uma data para iniciar a vacinação em massa, na verdade, não estão assentadas em informações cientificas", destaca. "Exatamente o que nós estamos assistindo com a AstraZeneca mostra o perigo que é acelerar esses processos".

A distribuição de uma vacina costuma acontecer na Fase 4, onde acontece a regulação do composto pelo mundo para uso da população. Caso se mostre favorável ao uso, a ChAdOx1 será distribuída pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) no Brasil, ligado ao SUS. O Programa proporciona 19 vacinas rotineiramente para a população brasileira e oferta 45 diferentes imunobiológicos para toda a população - todas gratuitamente. O PNI é, atualmente, um dos maiores programas de imunizações do mundo.

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Movimento anti-vacina preocupa especialistas

Apesar do histórico brasileiro em produção das vacinas, o reforço de um movimento contra os antídotos preocupam os especialistas. A Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) chegou a divulgar uma peça publicitária com a frase "Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina" no último dia 1º.

Para Edson, a mobilização acontece "no pior momento possível" e enxerga o fato com preocupação quando parte do Governo Federal. "Essa informação não provoca só disseminação, mas morte", pontua. "Quando as pessoas passaram a viver em sociedade, vimemos em grandes aglomerações sociais e há, além do direito individual, um dever comunitário. A decisão de não tomar a vacina não afeta só você, mas afeta toda a comunidade".

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) chegou a publicar um documento relembrando sobre a importância da vacinação. "A vacinação está entre os instrumentos de maior impacto positivo em saúde pública em todo o mundo, contribuindo de forma inquestionável para a redução de mortalidade e o aumento da qualidade e da expectativa de vida", reforçaram.

A instituição ainda apontou para a importância da divulgação da importância acerca do procedimento por parte do governo, "sob pena de vivermos retrocessos como a volta do sarampo devido às baixas coberturas vacinais", destacaram.

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Inclusive, indo de encontro a sua própria declaração, Bolsonaro sancionou uma lei em fevereiro deste ano que prevê a possibilidade de realização compulsória da imunização, ou seja, 'a força'. O conteúdo foi verificado e confirmado através do projeto Comprova, do qual O POVO participa.

Evento discute paralisação da vacina de farmacêutica

Nesta quinta-feira, 10, a paralisação da AstraZeneca será discutido por especialistas no Pint of Science Festival. O evento é dividido nos setores nacionais e regionais, onde os principais tópicos científicos do Brasil e do Mundo são debatidos.

No Ceará, a conversa "O que precisamos saber sobre as vacinas? Fatos, mitos e medos" ocorrerá às 19 horas de hoje pelo canal do Youtube do Pint of Science Brasil.

O encontro no âmbito cearense ainda reúne um bate-papo sobre como a ciência contribui para o aumento de vida útil das frutas - desde a colheita até o armazenamento. Será transmitido às 15 horas de hoje também através do canal.