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Coronavírus
NOTÍCIA

Regionais mais pobres são as que registam maior fluxo de pessoas saindo para trabalhar durante quarentena, afirma pesquisa

A pesquisa aponta que o fluxo dentro dos bairros é pequeno, poucas pessoas trabalham no mesmo bairro que moram

Júlia Duarte
15:48 | 22/04/2020
Os pesquisadores também demonstram preocupação com o deslocamento entre os bairros
Os pesquisadores também demonstram preocupação com o deslocamento entre os bairros (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

As regionais I, III, IV e VI, que reúnem os bairro com menor renda nominal média de Fortaleza são os locais em que mais pessoas estão precisando sair de casa para trabalhar durante a quarentena. Isso é o que aponta a pesquisa "A vida na quarentena: Deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza", desenvolvida pelo Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade (Lepec) da Universidade Federal do Ceará.

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Foram quase duas mil pessoas entrevistadas em 120 bairros da Capital. O questionário base da pesquisa buscou saber a porcentagem de famílias que tinham pelo menos uma pessoa saindo
cotidianamente para o trabalho. Embora 60% tenha afirmado que não esteja tendo que deixar suas casas, a grande maioria dos que fazem esse deslocamento, são residente das regionais I(46,9%), III (47,8%), V(48%) e VI(46,6%). Enquanto nas outras regionais esse  número é quase a metade, em média 27,5%.

"Dentre os respondentes, o perfil dos que estão saindo para trabalhar é destacado entre os com renda mais baixa, de modo que essa parcela da população está se expondo mais ao risco de se contaminar e, tendo em vista a característica de manutenção de alguns tipos de aglomerações nos bairros de origem, também colocando em possibilidade a maior disseminação da doença", relata os autores na pesquisa.

A pesquisa faz a comparação com os dados do Iplanfor, de 2015. As áreas com taxas menores, de número 2 e 4, são as que agregam os 10 bairros com maior renda nominal média de Fortaleza. Embora com índices menores de pessoas saindo de trabalhar, eles são os que mais recebem fluxo de trabalhadores de outros locais. O relatório apontou que Aldeota e Centro foram os bairros mais citados como destino de trabalho. " É sabido que ambos são bairros de grande movimentação em termos de comércio e serviços, que não necessariamente fecharam nesses dias, tais como bancos, clínicas médicas, hospitais, supermercados, frigoríficos", ressalta o texto.

O documentos mostra outra dinâmica deste período de quarentena: o fluxo dentro dos bairros é pequeno. Poucas pessoas trabalham no mesmo bairro que moram. Essa mobilidade preocupa os pesquisadores. Eles analisaram, no contexto da disseminação da Covid-19, que os bairros das regionais com maior concentração de renda, embora tenham mais casos confirmados, são os com menor mortalidade, enquanto bairros da periferia tem menos casos, mas a letalidade é maior, como aponta os boletins epidemiológicos.

De acordo com informações do prefeito da Capital, Roberto Cláudio (PDT), a Barra do Ceará registrou 9 óbitos até o início da tarde desta segunda-feira, 20, com 31 casos confirmados da doença, sendo a letalidade de 29%. Enquanto Aldeota, com mais casos confirmados, tinham menos óbitos. Segundo ele, o desnível é causado pela subnotificação, porque as pessoas procuram o hospital quando já estão em estado grave.

Danyelle Nilin é professora do Lecep e uma das autoras do texto, junto ao professor Irapuan Peixoto e dos mestres Harlon Romariz Rabelo Santos e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas. Ela explica que nas regionais com concentração maior de renda é onde se tem a maior quantidade de empregos que permitem home office. É mais uma face da desigualdade social, como aponta ela, uma vez que bairros que, de certa forma,concentram menos renda requerem a presença física do trabalhadores, que não são dispensados. "As pessoas tem uma dificuldade de liberar seus empregados domésticos, liberar faxineiros, porteiros, mesmo tendo equipamentos tecnológicos que poderiam diminuir o impacto", comenta ela.

O deslocamento por meio de transporte coletivos também é ressaltado pela professora. "Existem pessoas que moram nos limites das cidade, a gente percebe esse grande deslocamento(geográfico) e ele é feito principalmente por ônibus. Não é atoa ver como está atingindo as periferias. Os bairros mais ricos conseguem fazer isolamento social, mas moradores das periferias então tendo contatos com eles e se contaminando", ressalta ela fazendo menção ao início da epidemia que bairros da zona nobre concentravam os casos confirmados.

Nesse contexto, Nilin comenta como, além de medidas sanitárias, é preciso combater a desigualdade social. "Tanto se fala que precisa ser combatida, num momento como esse de pandemia, ela aparece de fato. Os governos precisam pensar maneiras efetivas, em políticas, para diminuir esse efeito", conclui ela.