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Coronavírus
NOTÍCIA

Bairros das regionais I, III e V são os que menos respeitam isolamento social em Fortaleza

A desigualdade afeta diretamente os resultados encontrados pelos pesquisadores

Júlia Duarte
10:55 | 22/04/2020
FORTALEZA, CE, BRASIL, 21-03-2020: Pessoas aglomeradas nas ruas do centro não obedecendo o período de quarentena no Ceará. (Foto: Beatriz Boblitz/ O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 21-03-2020: Pessoas aglomeradas nas ruas do centro não obedecendo o período de quarentena no Ceará. (Foto: Beatriz Boblitz/ O POVO) (Foto: BEATRIZ BOBLITZ)

Uma das medidas mais reforçadas pelos especialistas para o combate à pandemia de Covid-19 é o isolamento social. A política estadual que vai até 5 de maio não tem sido respeitada, contudo, segundo mostra a pesquisa feita pelo Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade da Universidade Federal do Ceará. O relatório aponta que bairros das regionais I, III e V são os que menos cumprem a medida, segundo os próprios moradores.

Ao todo, 1977 pessoas de 120 bairros foram entrevistadas para a pesquisa "A vida na quarentena: Deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza", entre 8 a 11 de abril. Das seis regionais, moradores da regionais I (63,3%), III (64,9%) e (63,7%) foram os que mais afirmaram que as pessoas não estariam respeitando o isolamento, em resposta à pergunta "Na sua rua, as pessoas estão respeitando a quarentena?”. A regional II é o local que mais tem respeitado a medida com 73,3%, seguido pela IV (58,9%), Centro(57,1%). A regional VI(48,3) não está entre os números mais baixos, mas o resultado ainda ficou menor que 50% dos moradores, com 48,3%.

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A pesquisa classifica o desrespeito em duas razões distintas, uma de ordem prática e o outra comportamental. Ações como ir ao supermercado e à lotéricas para pagar contas são algumas das atividades mais citadas. O relatório aponta que mesmo que aplicativos possam minimizar essa necessidade, o acesso ainda passa por questões culturais, tecnológicas e de renda.

Quando ampliado, ir às lotéricas pagar contas e gerar aglomerações, princialmente próximo de datas de “vencimento" ou agora com o pagamento do auxílio é mais frequente nas SERs 3 e 5, que guardam um grande número de bairros de baixa renda, como afirma a pesquisa.

Já na parte comportamental, parece ser difícil abrir mão de costumes, como sentar nas calçadas para conversar ou beber, atitude também vista em bares. A maioria dos respondentes afirmou que a população tem uma postura desleixada em relação ao isolamento social, além de mais da metade apontou que o incentivo do presidente da República, Jair Bolsonaro, pelo fim do isolamento também foi fator para a mudança detectada na flexibilização em comparação com dias anteriores.

" Ficar dentro de casa também não é a melhor opção quando se têm moradias tão precárias, com muitas pessoas acomodadas em poucos cômodos e quando as unidades habitacionais guardam pouca distância entre si, não têm janelas, quintais e varandas. Dessa forma, os bairros de menor renda parecem mais propícios a esse descumprimento", considera a pesquisa que é assinada pelos professores Irapuan Peixoto e Danyelle Nilin e os mestres Harlon Romariz Rabelo Santos e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas. 

A professora do laboratório Danyelle Nilin e uma das autoras do relatório aponta que a desigualdade social é um fator concreto e de forte influência. "Existem limites culturais e sociais, não é tão simples a gente dizer que é para acontecer o isolamento, e ele de fato acontecer", explica ela. A pesquisadora ressalta que a desigualdade também pode ser percebida no avanço e letalidade do vírus. Isso porque, embora bairros mais riscos tenham maior número de casos, acontecem mais óbitos em bairros da periferia.  

Já aglomerações em supermercados (60.8%), grupo de pessoas sentadas em calçadas(49,1%), aglomerações de pessoas em casas lotéricas(45,6%), pessoas bebendo em calçadas ou bares (39,6%), pessoas jogando bola na rua (20,3) são as situações mais observadas para esse descumprimento.

"Muitos bairros que não praticam( o isolamento) tem uma cultura de jogar bola na rua, sentar na rua para conversar ou jogar cartas, faz parte do cotidiano das pessoas. Não é da noite pro dia que elas vão acatar essas medidas. Existe o espaço da cultura", afirma Nilin. A professor reforça que esse aspecto não pode ser ignorado pelo poder público ao se pensar as campanhas de conscientização.