PUBLICIDADE
Coronavírus
NOTÍCIA

Bancos se comprometem a manter quarentena e 230 mil bancários continuam trabalho em casa

Bancários estavam apreensivos devido à intenção de Bolsonaro de editar decreto para o fim do isolamento; o retorno ao trabalho era visto como uma exposição ao risco de contágio

Ismia Kariny
10:10 | 31/03/2020

O Comando Nacional dos Bancários cobrou prorrogação da quarentena para mais de 230 mil bancários que trabalham em regime de home office e fazem parte do grupo mais vulnerável ao coronavírus. A reivindicação surge diante da ameaça feita pelo presidente Jair Bolsonaro de editar decreto obrigando o fim do isolamento. Em videoconferência realizada entre a entidade e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), nesta segunda-feira, 30, o compromisso dos bancos de manter a quarentena foi assumido.

De acordo com a coordenadora do Comando, Ivone Silva, muitos bancários estavam apreensivos para saber se seria mantido o período de isolamento. “Eles buscam saber se terão que voltar ao trabalho em suas agências e departamentos; estão com medo de ficarem expostos ao vírus e serem contagiados”, afirmou Ivone. Segundo ela, o mês de abril é um momento crítico, pois há maior demanda pelo atendimento presencial nas agências devido ao pagamento do benefício da Previdência.

Ivone explicou que a apreensão também se deve à ameaça feita pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, de que editaria um decreto obrigando o retorno ao trabalho. Para a presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira, Bolsonaro ter ido às ruas defender o fim do isolamento social é uma irresponsabilidade. “O Bolsonaro faz mal à saúde pública”, disse a presidente, que é também uma das coordenadoras do Comando Nacional dos Bancários.

Leia também | Setor bancário avalia necessidade de atendimento presencial durante pandemia

Bancários discutem medidas para período de maior demanda com pagamento de salários e aposentadorias

Enfrentamento ao coronavírus

A Febraban informou que cerca de 2,2 mil agências foram fechadas em todo o Brasil, como medida para evitar a propagação do vírus. Também foram fechados postos de atendimento bancários em aeroportos e hospitais e que voltará a negociar o fechamento daqueles que ainda não foram fechados por solicitação de outras categorias.

Também a pedido do Comando dos Bancários, o horário de atendimento ao público foi reduzido no Banco Central, com a proposta de reduzir o tempo de exposição ao vírus e evitar aglomerações em horários de maior movimento nos transportes

A coordenadora Ivone ressaltou que é importante que os bancos implantem um sistema eficiente de controle de acesso às agências e o atendimento presencial exclusivo para clientes agendados. “É preciso ter um comunicado geral informando que serão atendidos presencialmente apenas serviços essenciais e casos de extrema necessidade que tiverem sido previamente agendados”, destacou.

Segundo ela, a medida deve promover maior segurança para o bancário e também para o cliente, que não precisará ficar em filas na parte externa das agências. A representação da categoria também cobrou respostas sobre as reivindicações de enfrentamento à pandemia causada pelo novo coronavírus, que vem sendo apresentadas pelo movimento sindical aos bancos desde o dia 12 de março, por meio de ofícios.

Entre as medidas adotadas, os bancos se comprometeram a realizar campanha na mídia para orientar os clientes sobre o uso dos meios digitais; caixas eletrônicos, e informar sobre os riscos da contaminação pelo coronavírus. Além disso, as agências passaram a disponibilizar álcool gel para os bancários que continuam trabalhando, para que mantenham as atividades essenciais do serviço financeiro e atendam os casos de extrema necessidade.

Conforme a presidente da Contraf-CUT, há medidas que devem ser cumpridas com mais eficiência, para reduzir o risco de contaminação, como é o caso da higienização. “Também existem pessoas com suspeita de contágio, mas gestores não querem afastá-las; descumprindo aquilo que negociamos. Portanto é preciso que todas as unidades sigam as determinações,” cobrou Juvandia. O Comando também cobrou procedimentos para que os clientes mantenham a distância recomendada nas filas, prática que não está sendo realizada em muitos locais.

Suspensão das demissões, das metas e manutenção dos direitos

Na última semana, os bancos privados Itaú e Santander informaram que não irão demitir funcionários enquanto durar a pandemia de coronavírus. A decisão é vista positivamente pela categoria, que cobrou compromisso dos demais bancos privados.

Outra reivindicação da categoria foi a suspensão da cobrança pelo cumprimento de metas. O assunto, contudo, ainda não foi discutido, visto que os bancos priorizam o debate sobre questões que envolvem a saúde dos trabalhadores e clientes. Eles foram orientados pela representação da categoria a agir com razoabilidade.

A presidente da Contraf-CUT lembrou ainda que o governo tem tomado medidas para atender o setor bancário e dar mais liquidez aos bancos, liberando 1,2 trilhão para o setor financeiro. No entanto, ela considera insuficiente as medidas de crédito às pequenas e médias empresas.

“Deu um trabalho enorme para o governo liberar recursos para o povo. Não fosse a pressão e articulação das Centrais Sindicais não teria saído os R$ 600,00. Serão 40 bilhões ao todo, e exclui as micros empresas que tem arrecadação menor que os 360 mil, o que vai deixar muitos sem receber nada. Também defendemos que esses recursos não precisem ser devolvidos, seja a fundo perdido”, pontuou Juvandia.

A presidente da Contraf-CUT cobrou ainda que os bancos não cumpram as medidas previstas nas Medidas Provisórias 927 e 928/2020, do Governo Federal, que autorizam as empresas a negociarem diretamente com os trabalhadores, sem a intermediação dos sindicatos.

“Valorizamos muito nossa mesa de negociações, que é um exemplo de como é importante patrões e trabalhadores decidirem juntos sobre questões que envolvem a classe trabalhadora. É por isso que questionamos a medida provisória do governo e vamos usar todos os recursos para que ela não seja implementada”, concluiu.