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O Tempo Não Para: as histórias do último show de Cazuza

O show "O Tempo Não Para", último de Cazuza, foi lançado na íntegra em todas as plataformas digitais; lembre histórias do disco
10:00 | Abr. 23, 2022
Autor Clara Menezes
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Tipo Notícia

Quando Cazuza (1958 - 1990) decidiu fazer os shows de “O Tempo Não Para”, seu corpo ainda jovem já não performava tão bem em cima dos palcos. Em sua última apresentação, que aconteceu no dia 24 de janeiro de 1989, ele precisou retornar ao camarim para receber oxigênio. Entre centenas de pessoas que viviam as insatisfações de um Brasil pós-ditadura, o cantor e compositor teve que encerrar o espetáculo mais cedo porque seu corpo enfraquecido não aguentava o esforço. Um dia, disse: “Se acontecer alguma coisa comigo, quero que seja no palco”. E foi o que ocorreu mesmo.

Um ano depois, em 7 de julho de 1990, ele morreu por consequências da Aids. Tornou-se um dos grandes responsáveis por diminuir os preconceitos em relação ao vírus que, até aquele período, era rodeado de tabus e dúvidas. No início da década, adquirir a doença era sinônimo de morte e muitas pessoas acreditavam que ela podia ser transmitida de qualquer maneira. Mas Agenor de Miranda Araújo Neto tentou lutar contra o destino e, com seu dinheiro, buscou tratamentos nas grandes capitais brasileiras e no exterior.

Cazuza só parou de fazer seus shows devido à fraqueza e à insistência dos que conviviam com ele. Mas isso não o impediu de, antes, sonhar com a vida e encarar a morte de frente. Muitas das composições presentes no disco “O Tempo Não Para” demonstram esse sentimento em relação à sua situação.

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Em “Boas Novas”, entoou: “Senhoras e senhores/ Trago boas novas/ Eu vi a cara da morte e ela estava viva”. E continuou: “Direi milhares de metáforas rimadas/ E farei/ das tripas coração do medo, minha oração/ Pra não sei que Deus ‘H’ da hora da partida/ Na hora da partida a tiros de vamos pra vida/ Então, vamos pra vida”.

Uma das canções mais famosas do álbum também é uma súplica pela existência, uma tentativa de mostrar seu sentimento de indiferença com as críticas que enfrentava. Em “Vida Louca Vida” (composição de Lobão e Bernardo Vilhena), ele canta: “Vida louca vida, vida breve/ Já que eu não posso te levar/ Quero que você me leve/ Vida louca vida, vida imensa/ Ninguém vai nos perdoar/ Nosso crime não compensa”.

As outras faixas do álbum ainda passavam por temas que eram recorrentes a Cazuza, como o amor em “Todo o Amor Que Houver Nessa Vida”, “O Nosso Amor a Gente Inventa" e “Codinome Beija-Flor”. Além disso, continuou a criticar o cenário sociopolítico da época. “O Tempo Não Para”, por exemplo, é uma composição dele em parceria com Arnaldo Brandão, que lançou a primeira versão com a banda Hanói-Hanói. Mas foi na voz do Cazuza que a música se popularizou.

Com dez faixas e uma série de shows que ficou registrada na história da música brasileira por ter sido as últimas apresentações do cantor nos palcos, o álbum foi um marco na trajetória do artista de carreira curta. Com apenas cinco discos de estúdio solo lançados em vida, ele entrelaçou as críticas sobre a realidade nacional com suas vivências pessoais.

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“O Tempo Não Para” na íntegra

Agora, o show de “O Tempo Não Para” foi lançado na íntegra nas plataformas digitais. Há três décadas, a apresentação precisou ser encurtada para caber em um disco físico. Na época, o LP trazia as faixas: “Ideologia”, “Vida Louca Vida”, “Boas Novas”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, “Só As Mãe São Felizes”, “O Tempo Não Para”, “Codinome Beija-Flor”, “O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica”, “Faz Parte do Meu Show” e “Exagerado”.

Com o relançamento, houve o acréscimo de mais sete faixas: “Completamente Blue”, “A Orelha de Eurídice”, “Vida Fácil”, “Blues da Piedade”, “Preciso Dizer que Te Amo”, “Brasil” e “Mal Nenhum”. Todas são versões inéditas.

Na apresentação completa, também é possível escutar a algumas falas de Cazuza. Quando canta “Ideologia”, ele explica seu arrependimento em relação a partes da letra. O artista indica que mudou sua visão sobre o momento em que entoa: “Eu vou pagar a conta do analista/ Pra nunca mais ter que saber quem eu sou/ Pois aquele garoto que ia mudar o mundo/ Agora assiste a tudo em cima do muro”.

“Eu me arrependi quando fiz essa música, peço desculpas. Aquele garoto que ia mudar o mundo pode continuar a mudar o mundo, em qualquer idade. A gente muda e, se a gente muda, o mundo pode mudar também”, afirma.

O relançamento faz parte da campanha “Reviva Cazuza”, uma iniciativa da Sociedade Viva Cazuza. O projeto tem o objetivo de divulgar e incentivar trabalhos que preservam a memória do artista carioca. Com duração até o próximo ano, quando ele completará 65 anos de nascimento, a ação também teve espetáculos em algumas cidades brasileiras. Mais atividades devem ser divulgadas nos próximos meses.

A Sociedade Viva Cazuza foi criada alguns meses depois da morte do artista por seus pais, o produtor musical João Araújo (1935 - 2013) e a filantropa Lucinha Araújo. A mãe é a responsável pela organização não governamental, que foca na assistência de crianças e jovens soropositivos a partir do incentivo às áreas da saúde, da educação e do lazer.

Relações com Cazuza

A música “O Tempo Não Para”, que ficou famosa na voz de Cazuza, foi primeiro gravada pela banda Hanói-Hanói na década de 1980. O grupo de pop rock era composto pelo cantor e compositor Arnaldo Brandão, além de ter o pianista e letrista cearense Ricardo Bacelar. “Nós e o Barão tínhamos - e temos até hoje - laços de amizade, porque tínhamos o mesmo empresário, que era o baiano Mário Almeida. Depois que o Cazuza saiu do Barão Vermelho, ele foi empresário do Cazuza também”, recorda Ricardo Bacelar.

Apesar da pouca proximidade entre os dois, o artista lembra: “O Cazuza era uma pessoa adorável e um grande artista. Ele era um roqueiro legítimo, com muito ‘feeling’. Quando subia no palco, sempre fazia sua performance com muita energia e era genial. A gente ficou com essa marca e esse vazio deixado pelo Cazuza”.

Para Ricardo, o cantor carioca foi um dos nomes da música brasileira que se tornou um mito. “As pessoas têm uma tendência a achar que os artistas são pessoas talvez especiais. E até são especiais mesmo. Mas são pessoas normais. Todos nós, os artistas, temos um talento para fazer música. E tem pessoas que viram mitos. O Cazuza realmente virou um mito, porque ele foi um personagem que teve uma trajetória, um comportamento, uma postura, uma bandeira que ele levantou contra o preconceito. Ele era a favor da liberdade e tinha letras muito bonitas”, opina.

Filmes com Cazuza

Cazuza: O Tempo Não Para (2004)

Com direção de Sandra Werneck e Walter Carvalho, longa-metragem foi baseado no livro “Cazuza: Só As Mães São Felizes”, escrito por Lucinha Araújo e pela jornalista Regina Echeverria. O enredo mostra a trajetória profissional e pessoal de Cazuza, desde o início de seus trabalhos como ator em uma peça de teatro até o fim de sua carreira solo. História foca também no período em que ele passou com a banda Barão Vermelho. O elenco tem Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Débora Falabella, Reginaldo Faria e outros.
Onde: HBO Max; para alugar no Google Play, na Apple TV e no Amazon Prime Video

Carta Para Além dos Muros (2019)

Documentário revela a trajetória do HIV e da Aids em território brasileiro. A partir de entrevistas com médicos, ativistas e pacientes, além de material de arquivo, filme mostra desde o início da década de 1980 até os dias atuais. Destaca, por exemplo, as primeiras campanhas de conscientização e a maneira como a sociedade compreendia o começo da epidemia. Dirigido por André Canto, longa-metragem ainda revela os impactos de Cazuza, que teve papel importante para as mudanças de perspectivas sobre o vírus.
Onde: na Netflix

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