Câncer no esôfago: o que é a doença que matou Pepe Mujica
O ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica morreu aos 89 anos, após lutar contra um câncer no esôfago, doença rara e de difícil diagnóstico
20:05 | Mai. 14, 2025
José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai e uma das figuras políticas mais respeitadas da América Latina, morreu aos 89 anos nesta terça-feira, 13, em Montevidéu, após uma batalha contra o câncer no esôfago.
Mujica passou quase 12 anos preso em solitária e conseguiu fuga espetacular da cadeia; VEJA
Mujica enfrentava a doença desde 2023 e, nos últimos meses, já havia falado publicamente sobre o avanço do tumor, com a franqueza que sempre o caracterizou. “Estou condenado. Isto é o mais longe que cheguei”, declarou em janeiro de 2025, em entrevista à imprensa uruguaia.
Suas palavras, longe de expressarem lamento, soaram como um reconhecimento sereno do ciclo natural da vida. O câncer que o acometeu é uma das formas mais agressivas e silenciosas da doença, frequentemente diagnosticada em estágios avançados — como ocorreu com ele.
Câncer no esôfago: entenda a doença que causou a morte de Pepe Mujica
O câncer de esôfago é uma doença que afeta o tubo que conecta a garganta ao estômago, responsável por transportar alimentos e líquidos. Embora não esteja entre os tipos de câncer mais comuns, é um dos mais letais, justamente por ser de difícil detecção precoce.
Segundo o hospital Mass General Brigham, em Massaschuets, EUA, os principais subtipos são o adenocarcinoma, mais comum em países ocidentais e associado à obesidade e ao refluxo ácido crônico, e o carcinoma espinocelular, que tende a afetar fumantes e pessoas com alto consumo de álcool.
Lula lamenta morte de Pepe Mujica e anuncia que vai ao funeral no Uruguai; CONFIRA
Entre os sintomas mais frequentes estão:
- Dificuldade para engolir (disfagia), especialmente alimentos sólidos;
- Perda de peso inexplicada;
- Dor no peito ou sensação de queimação;
- Rouquidão persistente;
- Tosse crônica ou pigarro.
Conforme explica a Yale Medicine, esses sinais são muitas vezes confundidos com problemas digestivos ou respiratórios, o que pode atrasar o diagnóstico e comprometer o tratamento.
Câncer no esôfago: causas e fatores de risco
A doença é multifatorial. O tabagismo e o consumo abusivo de álcool são dois dos principais gatilhos, especialmente no caso do carcinoma espinocelular. Já a obesidade e o refluxo gastroesofágico crônico aumentam o risco de desenvolvimento do adenocarcinoma.
Outros fatores de risco incluem:
- Dieta pobre em frutas, legumes e fibras;
- Exposição ao HPV (papilomavírus humano);
- Histórico familiar da doença;
- Idade avançada (a maioria dos casos ocorre após os 60 anos).
Pepe Mujica, que havia renunciado ao Senado uruguaio em 2020 por conta da saúde debilitada e por ser parte do grupo de risco durante a pandemia, teve seu estado agravado em 2024, quando o câncer começou a se espalhar.
Câncer no esôfago: avanços e limitações no tratamento
O tratamento do câncer de esôfago varia conforme o estágio da doença, podendo incluir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.
Em estágios iniciais, a remoção endoscópica do tumor pode ser eficaz. Porém, em fases mais avançadas — como apontam pesquisadores da American Association for Cancer Research (AACR) — o prognóstico tende a ser reservado.
Nos últimos anos, a ciência tem avançado com terapias mais personalizadas e menos agressivas, mas ainda enfrenta muitos desafios. O câncer de esôfago segue sendo um dos mais difíceis de tratar, com taxas de sobrevivência bastante baixas quando diagnosticado em estágio metastático.
Câncer no esôfago: Mujica e a luta até o fim
José Mujica foi, para muitos, uma figura que simbolizava resistência e autenticidade. Passou mais de uma década preso durante a ditadura militar uruguaia e, anos depois, chegou à presidência (2010–2015) com propostas progressistas e um estilo de vida que rejeitava os luxos do poder.
Durante seu mandato, ficou conhecido por promover políticas como a legalização da maconha, o casamento igualitário e a defesa veemente da redistribuição de renda. Fora do poder, recusava o rótulo de herói ou ícone, mantendo-se fiel à simplicidade de sua vida rural.
A sinceridade com que tratou sua própria morte foi mais uma prova de sua autenticidade. Em entrevista à Mercopress, no início de 2025, falou sobre o avanço da doença com a mesma naturalidade com que falava de política: “Estou morrendo”, disse, sem rodeios.