Federação União Brasil–PP enfrenta impasses em ao menos 14 estados antes da homologação
Questões locais antecedem a formalização da maior bancada da Câmara. Modelo federativo impõe alinhamento forçado e amplia conflitos regionais
14:53 | Jan. 12, 2026
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está prestes a autorizar a criação da federação União Progressista, que reunirá os partidos União Brasil e Progressistas (PP). Para que a aliança seja válida já na eleição do próximo dia 4 de outubro, o pedido precisa ser homologado até seis meses antes do pleito, portanto, no início de abril.
Segundo o presidente do União Brasil no Ceará, o ex-deputado federal Capitão Wagner, a federação deve ser oficializada nos próximos dias. À reportagem, ele afirmou que houve atraso no protocolo junto ao TSE, apresentado apenas no início de dezembro do ano passado, o que retardou a tramitação.
Quando for oficializada, a federação reunirá 108 deputados federais — a maior bancada da Câmara — e 12 senadores, número inferior apenas aos das bancadas do PL e do PSD. Juntas, as siglas também passarão a concentrar um fundo partidário de R$ 954 milhões; além de seis governadores e 1.343 prefeitos no Brasil, o maior contingente municipal entre todos os partidos.
Pela legislação eleitoral, partidos federados devem atuar como uma única legenda por, no mínimo, quatro anos, com posição unificada nas eleições e atuação conjunta no Congresso, inclusive com liderança compartilhada. A perspectiva desse arranjo, especialmente nas composições estaduais, tem provocado tensões antes mesmo da homologação da federação.
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Insatisfações e disputas
Os alinhamentos nos estados e as indefinições sobre o posicionamento nacional da federação têm provocado polêmicas entre membros do União Brasil e do PP, com registros de insatisfação em pelo menos 14 estados. Parlamentares já admitem, nos bastidores, possibilidade de desfiliações em massa caso os interesses regionais sejam atropelados por decisões centralizadas.
O cenário nacional contribui para o desgaste. A indefinição sobre quem liderará a oposição ao presidente Lula (PT) em 2026 expôs divergências internas. União Brasil e PP chegaram a convergir em torno de uma eventual candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), hipótese que perdeu força após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) declarar apoio ao próprio filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Desde então, as legendas recalculam movimentos. Em dezembro, o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, publicou mensagem defendendo “responsabilidade fiscal e social” e exaltando o tamanho da federação, afirmando que todos estariam “juntos”. Internamente, no entanto, o discurso não tem sido suficiente para conter resistências.
As rixas começam justamente na definição do apoio à Presidência. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), lançou-se como pré-candidato ao Planalto, mas enfrenta forte resistência dentro do PP. O próprio presidente da sigla, o senador Ciro Nogueira, já fez críticas públicas a Caiado.
Caiado cobra que sua pré-candidatura seja submetida a uma convenção nacional, demanda que ampliou resistências não apenas em Goiás, mas também em estados sob a influência dele.
Entraves no Ceará
No Ceará, as indefinições se repetem com ainda mais intensidade. Integrantes do PP defendem a manutenção do alinhamento com o governador Elmano de Freitas (PT), inclusive com liberação dos parlamentares para apoiar a reeleição do petista, caso a federação se posicione formalmente na oposição.
Líderes do Progressistas no Estado, o deputado federal AJ Albuquerque e o pai dele, o deputado estadual licenciado e secretário das Cidades, Zezinho Albuquerque, estão integrados à base governista e não sinalizam disposição para mudar de lado.
No União Brasil, o cenário é mais fragmentado. A sigla recebeu a filiação do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, com a promessa de formação de uma ampla frente de oposição ao PT. RC é apontado como pré-candidato ao governo, caso Ciro Gomes (PSDB) não dispute o cargo.
Publicamente, RC e Wagner afirmam ter recebido, do presidente nacional Antônio Rueda, a garantia de que o União Brasil — e, posteriormente, a federação — estará na oposição no Ceará. Caso isso não se confirme, a permanência de Wagner, RC e aliados na legenda passa a ser incerta.
Na contramão disso, há os que defendem a adesão ao governo Elmano. Neste grupo estão os dois deputados federais mais votados do partido no Ceará, Moses Rodrigues e Fernanda Pessoa, que já declararam apoio à reeleição do petista. O grupo conta ainda com o prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa, e atua para consolidar uma guinada governista.
Elmano, por sua vez, não esconde o interesse em atrair a federação. Uma das duas vagas ao Senado em 2026 poderia ser destinada a Moses Rodrigues, mesmo ele integrando um grupo adversário ao de Cid Gomes (PSB) em Sobral. Movimento tem provocado ruído com outro membro da família Ferreira Gomes, o ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes, que sinalizou possibilidade de ser oposição a Elmano e apoiar o irmão, Ciro Gomes.
Em visita ao O POVO em dezembro, o governador afirmou ter garantia de que Moses presidiria a federação no Ceará, enquanto Fernanda Pessoa comandaria o União Brasil no Estado — arranjo que consolidaria o apoio ao projeto governista e enfraqueceria a oposição.
Ambos os campos afirmam ter recebido sinalizações favoráveis da direção nacional. Com interesses inconciliáveis, a criação da União Progressista tende a produzir vencedores e derrotados antes mesmo de sua formalização.
Conflitos regionais se espalham
Pernambuco
Em Pernambuco, o deputado Mendonça Filho (União Brasil) resiste à federação por temer perda de espaço para o grupo do deputado Eduardo da Fonte (PP).
Além da disputa pelo comando estadual, há divergências sobre o palanque de 2026: setores do PP sinalizam apoio à reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD), enquanto alas do União defendem aproximação com o prefeito do Recife, João Campos (PSB).
Paraíba
Na Paraíba, o impasse envolve diretamente a sucessão estadual. O líder do União no Senado, Efraim Filho, resiste a dividir espaço com o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP), seu adversário político local. Ambos se colocam como pré-candidatos ao governo e não há consenso sobre critérios de escolha do nome que representaria a federação.
Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro também concentra tensões. O União Brasil é comandado pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar, que passou a enfrentar resistências internas após ter sido preso e, mesmo assim, mantido na presidência do diretório estadual com aval da direção nacional.
Embora tenha sido solto dias depois, o episódio fragilizou o partido localmente. Paralelamente, o PP fluminense, liderado pelo deputado federal Doutor Luizinho, mantém diálogo tanto com o prefeito Eduardo Paes (PSD) quanto com setores do bolsonarismo, ampliando as incertezas sobre o alinhamento da federação.
São Paulo
Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, o embate ocorre entre grupos do ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), atual vice-presidente nacional da sigla, e do deputado federal Maurício Neves, presidente do PP paulista. O comando estadual é estratégico por concentrar o maior volume de recursos e tempo de televisão da futura federação.
Acre
No Acre, a disputa envolve Alan Rick (UB), Gladson Cameli (PP) e Mailza Assis (PP). Rick almeja disputar o governo, Cameli defende a candidatura da vice, tendo apoio do PP.
Amazonas
No Amazonas, há briga interna no União Brasil entre o governador Wilson Lima (UB) e Pauderney Avelino, com ala dissidente do União resistindo à Federação por temer fortalecimento excessivo de Wilson.
Maranhão
No Maranhão, a disputa está entre o ministro do Esporte, André Fufuca (PP) e Pedro Lucas (União), com o União controlando a máquina estadual.
Alagoas
Alagoas vive uma disputa entre o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP) e Alfredo Gaspar (União). O UB teme perda de espaço com a federação, já que o PP domina a estrutura no Estado.
Tocantins
No Tocantins, dois projetos distintos disputam a liderança nas negociações com outros partidos. A disputa é encabeçada por Dorinha Seabra (UB) e Vicentino Júnior (PP).
Mato Grosso do Sul
No Mato Grosso do Sul, o problema vem da redefinição do comando estadual, com o União não querendo perder o controle com a federação.
Paraná
No Paraná, o União Brasil não abre mão da candidatura de Sérgio Moro (UB), nome vetado pelo PP. Desgaste é ampliado pela disputa com o grupo do governador Ratinho Júnior (PSD).
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, o União aceita perder o comando estadual, mas teme ser "atropelado" pelos candidatos do PP nas eleições para deputado.