Na Câmara de Fortaleza, vereadores colocam bandeira arco-íris e do Brasil sobre bancadas
Adriana Gerônimo e Julierme Sena protagonizam embate simbólico em sessão marcada por pautas identitárias e nacionalistas
A última sessão plenária antes do recesso parlamentar na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) teve dois parlamentares expondo bandeiras sobre a bancada para expressarem suas pensamentos. Enquanto a vereadora Adriana Gerônimo (Psol) utilizou uma bandeiras nas cores do arco-íris, Julierme Sena (PL) usou a bandeira do Brasil.
Adriana foi umas das primeiras pessoas a falar no púlpito reservado aos parlamentares. Utilizando a bandeira arco-íris enrolada no pescoço, como se fosse um cachecol, ela destacou a realização da Parada da Diversidade, que acontece no próximo domingo, 29, em Fortaleza.
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"Nesse ano a gente debate o envelhecimento da comunidade LGBT. Primeiro porque o Brasil inteiro está envelhecendo e a gente precisa criar mecanismos e políticas públicas que abarquem o envelhecimento. Mas a gente também faz a denúncia de que população trans não tem acompanhado esse envelhecimento", afirmou ao O POVO, destacando que a expectativa de vida da comunidade trans no país é de apenas 35 anos.
"Domingo é um dia de celebrar, porque a vida da comunidade LGBT é muito permeada pela dor, pelo abandono, pela ausência das políticas públicas. À comunidade trans, por exemplo, é negado até o direito de usar o banheiro, não é? Então, há muito que avançar, mas também há um dia de reivindicar os direitos, denunciar e cobrar políticas públicas efetivas", explicou.
Após discursar no "pinga-fogo" da Casa, Adriana estendeu a bandeira sobre a bancada na qual acompanha a sessão.
Sem vergonha de ser brasileiro
Pouco após o discurso de Adriana Gerônimo, o vereador Julierme Sena chegou ao plenário e estendeu sobre sua bancada uma bandeira do Brasil.
Questionado por O POVO se seria uma resposta ao discurso da colega do Psol, Sena negou, alertando que já estendeu outras vezes a bandeira.
"Não, negativo. Até porque eu sempre usei a bandeira nas sessões e a bandeira é porque eu represento o povo brasileiro e todo vereador é um agente público que deve lealdade à nação", explicou.
Julierme disse ter orgulho de ser brasileiro e se inspirar o patriotismo demonstrado pela população dos Estados Unidos.
"Não tenho vergonha de ser brasileiro e vou mais além: Acho que a população brasileira em si, os brasileiros, deveriam valorizar cada vez mais a bandeira do Brasil, como lá nos Estados Unidos, como o povo americano faz muito bem perante â nação americana", concluiu.
"Imposição de falso patriotismo"
Já Adriana Gerônimo afirmou acreditar, sim, que o colega trouxe a bandeira como uma espécie de provocação.
"Sempre há esse ataque gratuito, uma tentativa de imposição de um falso patriotismo, porque patriota eles não são, eles não estão nem aí com o país. O PL ontem foi um dos que levantou a bandeira para derrubar o decreto do IOF IOF é a sigla para Imposto sobre Operações Financeiras. Como o próprio nome diz, é um imposto cobrado sobre a maior parte das operações financeiras e serve para gerar receita para a União. que ia taxar os mais ricos. Então eles não querem saber do Brasil, não. Eles querem saber de um falso moralismo, do pânico moral. Eles não são a favor da vida, não são a favor da família. A família que eles defendem a família deles, não é?", disparou ao O POVO.
A vereadora afirmou, porém, que provocação alguma a abala. "Isso aqui é muito comum na Câmara. Mas isso não nos abala. A nossa vida, enquanto pessoas LGBTs negras, é tão cruel que, quando a gente entra nessa Câmara, a gente já entra sabendo que esses ataques, esse revanchismo deles é fichinha para tudo que a gente já vive, acumula durante nossa trajetória. Não é bandeira do Brasil nenhuma que vai apagar as cores da bandeira LGBT, as cores da nossa militância e as cores da nossa existência. Então nós vamos continuar na luta para que a comunidade LGBT consiga ocupar essa casa com dignidade, no mesmo patamar, porque o nosso sonho é uma sociedade plena para todo mundo, inclusive as LGBTs, que têm direito também", concluiu.
Com informações da repórter Mariana Lopes