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Política
NOTÍCIA

À mercê de estratégia "bolsonarista", Brasil completa um mês sem ministro da Saúde

A pasta tem sido usada pelo governo para negar uma politica de combate ao novo coronavírus no Brasil

Gabriela Almeida
22:26 | 16/06/2020
O oncologista Nelson Teich foi o último a assumir liderança do Ministério da Saúde  (Foto: EVARISTO SA / AFP)
O oncologista Nelson Teich foi o último a assumir liderança do Ministério da Saúde (Foto: EVARISTO SA / AFP)

O Brasil completou nessa segunda-feira, 15, um mês sem ter uma liderança efetiva no Ministério da Saúde, quando também registrou 43.959 mil mortes em decorrência do novo coronavírus. Comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello desde que Nelson Teich “abandonou o barco”, a pasta tem servido como meio de fomentar a estratégia negacionista do governo Bolsonaro frente à disseminação do vírus no País.

“Achava que podia ajudar o Brasil e as pessoas”. Essa foi uma das poucas e curtas frases ditas pelo ex-ministro Teich ao anunciar sua saída da pasta no dia 15 de maio deste ano, pouco antes de completar um mês em que havia ocupado o cargo devido à demissão de Henrique Mandetta, o primeiro a comandar a pasta no governo Bolsonaro.

Em menos de 20 dias após a saída “misteriosa” de Teich e ainda com o cenário político inflamado por conta da instabilidade da pasta, Bolsonaro formalizou o general Pazuello como ministro interino no Diário Oficial da União (DOU), afirmando que ele ficaria “por muito tempo” no cargo.

A escolha pelo general parece ter se dado devido a uma distribuição de postos do ministério a militares, executada pelo governo. De acordo com informações apuradas pelo jornal o Estadão, cerca de 40 cargos estratégicos estariam sendo cogitados para serem distribuídos por Bolsonaro aos combatentes.

Estratégia Bolsonarista

Enquanto ministro interino, Pazuello não tem autonomia de formular projetos ou executar estratégias contra o novo coronavírus a médio e longo prazo, pois pode sair do cargo a qualquer momento. Do ponto de vista institucional, o general está há quase um mês apenas exercendo funções burocráticas, como assinando e despachando pedidos.

Por causa da instabilidade da liderança interina, prefeitos, governadores ou organismos internacionais não podem procurar Pazuello para definir ações duradoras e efetivas de combate ao vírus, pois o general se encontra em uma posição “passageira”, como se apenas “esquentasse” o banco para alguém ocupar.

De acordo com o cientista político Cleyton Montes, do Laboratório de Estudos Sobre Política Eleições e Mídia (Labem/UFC), o fato do Brasil seguir há um mês apenas com um ministro interino na pasta da Saúde revela a “estratégia bolsonarista” adotada acerca da pandemia no País. “A ideia do governo é não efetuar uma estratégia contra o novo coronavírus”, dispara o cientista.

Segundo Cleyton, Bolsonaro pretende deixar que governadores sigam se responsabilizando por medidas adotadas no combate ao vírus, como o isolamento social, duramente criticado pelo chefe do Executivo. Dessa maneira, os problemas econômicos que o País pode enfrentar após a pandemia não serão vistos como “responsabilidade federal”.

Outro ponto que faz parte da estratégia do governo, segundo Montes, é a tentativa de evitar uma liderança nacional como a que Henrique Mandetta protagonizou no período em que esteve à frente do cargo, motivo que teria levado a sua demissão.

“Vários médicos ligados ao governo poderiam assumir a pasta, por que não assumem?”, indaga o cientista, completando: “Um líder chamaria a responsabilidade pro governo, o que não seria interessante para Bolsonaro”.

Relação emblemática com ministros e futuro da pasta

Se o afastamento de Mandetta se deu devido ao protagonismo que assumiu frente ao combate do novo coronavírus, a saída de Teich ocorreu após a figura nada carismática aparentar ter desistido de liderar a pasta mediante conflito com Bolsonaro em relação ao uso de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com o novo coronavírus e a recusa do chefe nacional em apoiar o isolamento social.

Com um ministro interino na pasta, o chefe do executivo evitaria enfrentar os mesmos "problemas" que passou com os lideres anteriores. Segundo analisa o cientista político Cleyton, Jair arriscaria efetivar alguém como ministro da Saúde apenas se um dos deputados que integram os partidos do Centrão solicitasse ao presidente a ocupação do cargo em troca de apoio, na velha política do toma lá dá cá que Bolsonaro tem executado com mais frequência nos últimos meses.

LEIA MAIS: Bolsonaro e o Centrão: a história do bloco politico capaz de sepultar aliados

Por enquanto, Pazuello segue ocupando provisoriamente um dos cargos mais importantes do Brasil no contexto sanitário atual. A única repercussão "positiva" do general até o momento, contudo, foi quando se confundiu ao afirmar que as regiões Norte e Nordeste do País estariam mais "ligadas ao inverno do hemisfério Norte" e as demais estariam "mais ligadas ao inverno do hemisfério Sul" e divertiu a internet. Enquanto a única função do interino parece ser provocar risadas, no entanto, mais de 43 mil famílias vão vivendo histórias nada engraçadas no País.