PUBLICIDADE
Política
Noticia

Carlos Bolsonaro é articulador de esquema criminoso de fake news, diz jornal

Investigação sigilosa da PF é conduzida em inquérito no STF e identificou filho do presidente Bolsonaro como parte de esquema

20:59 | 25/04/2020
 Carlos Bolsonaro disse que transformação desejada não será por via democrática
 Carlos Bolsonaro disse que transformação desejada não será por via democrática (Foto: Dida Sampaio/AE)

A Polícia Federal (PF) teria identificado o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República Jair Bolsonaro, como um dos articuladores do esquema criminoso de fake news, segundo investigação sigilosa conduzida pelo STF (Supremo Tribunal Federal). As informações são da Folha de S. Paulo.

Nos últimos meses, o presidente cobrou informações sobre as investigações, em reuniões e por telefone, de Maurício Valeixo, exonerado da diretoria-geral da PF na última sexta-feira — em saída que rendeu pedido de demissão de Sergio Moro, então ministro da Justiça e Segurança Pública. Segundo o jornal apurou, Valeixo resistiu ao assédio de Bolsonaro.

Um dos quatro delegados que atuam no inquérito é Igor Romário de Paula, que coordenou a Lava Jato em Curitiba quando Sergio Moro, agora ex-ministro, era o juiz da operação. Valeixo foi superintendente da PF no Paraná no mesmo período e escalado por Moro para o comando da PF.

De acordo com a Folha, dentro da Polícia Federal não há dúvidas de que Bolsonaro pressionou Valeixo, homem de confiança de Moro, porque tinha ciência de que a corporação havia chegado ao seu filho, vereador do Rio de Janeiro pelo partido Republicanos.

Para o presidente, tirar Valeixo da direção da PF poderia abrir caminho para obter informações da investigação do Supremo ou, inclusive, trocar o grupo de delegados responsáveis pelo caso.

Na sexta-feira, 24, logo após Moro anunciar publicamente sua demissão do Ministério da Justiça, o ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no STF, determinou que a PF mantenha os delegados no caso.

Inquérito policial

Segundo informações da Folha, o inquérito foi aberto em março do ano passado pelo presidente do STF, Dias Toffoli, para apurar o uso de informações fraudadas para ameaçar e caluniar ministros da Corte.

Carlos é investigado sob a suspeita de ser um dos líderes de grupo que monta material falso e age para intimidar e ameaçar autoridades públicas na Internet. A PF também investiga a participação de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSL de SP. Procurado pelo jornal, o chefe de gabinete de Carlos não respondeu aos contatos da reportagem.

Para o lugar de Valeixo, no comando da PF, Bolsonaro escolheu Alexandre Ramagem, hoje diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Carlos foi quem teria convencido o pai a indicá-lo para o lugar de Valeixo. Os dois ficaram ainda mais próximos quando Ramagem teve cargo de assessor especial no Planalto nos primeiros meses de Governo. Carlos é apontado como o mentor do chamado "gabinete do ódio", instalado no Planalto para detratar adversários políticos, e teria tentando montar uma "Abin paralela", segundo o falecido Gustavo Bebbiano, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República.

Segundo aliados de Moro, ao mesmo tempo que a Polícia Federal avançava sobre o inquérito das fake news, Bolsonaro aumentava a pressão para trocar Valeixo.

Bolsonaro enviou mensagem no início da manhã de quinta-feira, 23, a Moro com um link do site O Antagonista com uma notícia sobre o inquérito das fake news intitulada "PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas". "Mais um motivo para a troca", disse o presidente a Moro se referindo à sua intenção de tirar Valeixo.

Moro respondeu a Bolsonaro argumentando que a investigação, além de não ter sido pedida por Valeixo, era conduzida por Alexandre de Moraes, do STF.

O mesmo grupo de delegados do inquérito das fake news comanda a investigação aberta na terça-feira, 22, também por Moraes, para apurar os protestos pró-golpe militar realizados no domingo passado e que contaram, em Brasília, com a participação de Bolsonaro.

Assim como no caso das fake news, o ministro do STF determinou que os delegados não podem ser substituídos. O gesto é uma forma de blindar as apurações dos interesses pessoais e familiares do presidente da República.

Há uma expectativa dentro do Supremo de que os dois inquéritos, das fake news e dos protestos, se cruzem em algum momento. Há suspeita de que empresários que financiaram esse esquema de informações fraudadas também estejam envolvidos no patrocínio das manifestações. Coincidentemente, Bolsonaro apertou o cerco a Valeixo após a abertura dessa nova investigação.

Dentro do STF, pessoas próximas a Moraes avaliam que ele deve encerrar logo a investigação das fake news para se dedicar à dos protestos. O inquérito foi aberto a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, e envolveria pelo menos dois deputados apoiadores de Bolsonaro.

O objetivo de Aras é apurar possível violação da Lei de Segurança Nacional por "atos contra o regime da democracia brasileira por vários cidadãos, inclusive deputados federais, o que justifica a competência do STF".

Interlocutores do procurador-geral afirmam que, inicialmente, Bolsonaro não será investigado. Alertam, porém, que, caso sejam encontrados indícios de que o chefe do Executivo ajudou a organizar as manifestações, ele pode vir a ser alvo do inquérito.

Em sua decisão, Moraes cita a Constituição e salienta que o ato, como descrito pelo PGR, "revela-se gravíssimo, pois atentatório ao Estado Democrático de Direito brasileiro e suas Instituições republicanas".

Do Jornal do Correio para a Rede Nordeste