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Ex-guarda de campo nazista é condenado a dois anos de prisão na Alemanha

No total, cerca de 65.000 pessoas, a maioria judeus dos Países Bálticos e da Polônia, morreram com um tiro na nuca, em câmara de gás com Zyklon B ou enforcados

14:21 | 23/07/2020
Judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais e opositores políticos foram alguns dos grupos perseguidos pelos nazistas (Foto: Yad vashem / Reprodução)
Judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais e opositores políticos foram alguns dos grupos perseguidos pelos nazistas (Foto: Yad vashem / Reprodução)

O tribunal de Hamburgo condenou a dois anos de prisão com pena suspensa, nesta quinta-feira, 23, um homem de 93 anos que serviu de guarda no campo nazista de Stutthof na Polônia, acusado por milhares de assassinatos ali ocorridos entre 1944 e 1945.

O réu, Bruno Dey, que tinha 17 anos na época dos eventos, "foi considerado culpado de cumplicidade em 5.232 assassinatos e tentativas de assassinato", disse a presidente do tribunal, Anne Meier-Göring, após um julgamento que será, provavelmente, um dos últimos sobre os crimes cometidos pelo Terceiro Reich.

"Fez mal. Foi uma terrível injustiça. Não deveria ter participado em Stutthof", disse a juíza. "Você se considera um observador, mas foi um apoiador desse inferno criado pelos homens", acrescentou. O advogado de Dey pediu a anulação do caso.

A procuradoria considerou que o réu apoiou a máquina de extermínio nazista. Na segunda-feira, Dey se desculpou "diante daqueles que passaram por este inferno de loucura" e disse que, ao longo dos nove meses de julgamento com cerca de quarenta depoimentos, tomou consciência de "toda a magnitude da crueldade" dos atos cometidos em Stutthof.

No total, cerca de 65.000 pessoas, a maioria judeus dos Países Bálticos e da Polônia, morreram com um tiro na nuca, em câmara de gás com Zyklon B ou enforcados. Ou então morreram como consequência do frio, da fome, das epidemias e dos trabalhos forçados.

O campo, o primeiro construído fora da Alemanha em 1939, foi integrado progressivamente no sistema de extermínio de judeus. O acusado, instalado em uma das torres de vigilância, tinha o dever de evitar revoltas e fugas. Dey afirmou que seu posto não o tornava culpado, porque nunca fez "diretamente mal a ninguém". Nunca "se ofereceu como voluntário para entrar nas SS ou servir em um campo de extermínio", mas não teve escolha a não ser aceitar a tarefa, contou.

"Não deveria ter seguido uma ordem criminosa e de forma alguma mencioná-la" em sua defesa, declarou a juíza. Diante desses crimes, "não basta olhar para o outro lado e esperar que isso pare", disse o procurador-geral Lars Mahnke no indiciamento, explicando que Dey poderia ter pedido para deixar o exército, o que provavelmente significaria que o enviariam para a frente leste.

É difícil pensar que um adolescente teria se atrevido a "comportar-se desta maneira" no contexto de obediência absoluta exigida naquele época, estimou seu advogado Stefan Waterkamp. É preciso levar em consideração que "servir em um campo de concentração não se considerava um crime nessa época", acrescentou.

Bruno Dey foi prisioneiro de guerra depois de 1945, mas por pouco tempo. Ganhou a vida em Hamburgo como padeiro, caminhoneiro e zelador, e fundou uma família. Setenta e cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, este julgamento pode ser o último deste tipo devido à idade dos acusados.

Na semana passada, o tribunal de Wuppertal anunciou a acusação de outro ex-guarda de Stutthof de 95 anos, também por cumplicidade no crime de assassinato. Segundo a mídia alemã, ainda há cerca de 30 processos em andamento. É pouco provável que Bruno Dey seja enviado à prisão. Mas a promotoria considera essencial o reconhecimento de sua culpa.