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Cientistas encontram "continente perdido" no sul da Europa

Chamada de Grande Adria, massa de terra se desprendeu da África há 240 milhões de anos. Descoberta é a terceira do tipo desde 2017

15:04 | 01/10/2019

Imagine passar as férias em um “continente perdido”, desaparecido há mais de 100 milhões de anos. Milhares de turistas fazem isso todo ano, sem saber, segundo uma pesquisa publicada no periódico científico Gondwana Research. Isso ocorre porque a Grande Adria - como foi batizada a massa de terra "perdida" - tem seus últimos resquícios em parte da Europa: a área vai de Turim, no norte da Itália, até o salto da “bota” que forma o País. Esta região, conhecida como Adria, inspirou o nome do continente recém-descoberto.

A história de Grande Adria é “violenta e complicada”, diz Douwe van Hinsbergen, um dos autores do estudo. A pesquisa descobriu que o continente, aproximadamente do tamanho da Groenlândia, desprendeu-se, há cerca de 240 milhões de anos da área que hoje é o norte da África. À época, a região ainda era parte do supercontinente Gondwana – que incluía, também, o que hoje são América do Sul, Antártida, Austrália e Índia. Por conta da deriva continental, movimento que as placas tectônicas realizam por cima do manto terrestre, o pedaço separado avançou rumo ao norte, em direção ao atual Mediterrâneo.

Quase todo o território de Grande Adria era submerso e composto de rochas sedimentares, mais frágeis que as pedras na massa terrestre dos continentes. Por conta disso, ao chocar-se com a placa tectônica que forma pedaços da Europa e do Oriente Médio, a porção submersa foi “raspada”, com parte da cobertura rochosa sendo levada à superfície, enquanto a maioria do território foi forçada em direção ao manto. Em 2016, um grupo de cientistas estudando ondas sísmicas detectou partes de Grande Adria mais de 1.500 quilômetros abaixo da crosta terrestre.

O processo, que aconteceu entre 100 milhões e 120 milhões de anos atrás, avançou entre 3 e 4 centímetros por ano, segundo os cientistas, mas foi o suficiente para quebrar a crosta, com mais de 100 quilômetros de espessura, e afundá-la. O resultado disso é que, geologicamente, “a região do Mediterrâneo é simplesmente uma desordem”, diz van Hinsbergen: “Tudo está curvado, partido ou empilhado” nas camadas terrestres da área.

De acordo com ele, colisões como a do subcontinente indiano com a Ásia Central, que levaram à formação dos Himalaias são “um sistema relativamente simples” se comparadas com a situação atual, pois a região asiática é muito mais homogênea. No Mediterrâneo, porém, são diversas falhas ao longo de mais de 2 mil quilômetros.

Outro problema surgiu por conta disso: os vestígios da colisão estão espalhados por mais de 30 países, com inúmeros órgãos científicos, sistemas de mapeamento e idiomas. Foi necessário um trabalho de mais de 10 anos, com a cooperação de diversas equipes científicas, para mapear e estudar corretamente a área que vai da Espanha ao Irã. Com todos estes dados recolhidos, os pesquisadores separaram as informações em “camadas” geológicas e usaram um programa de computador especializado para traçar o caminho que cada placa tectônica da região percorreu por dezenas de milhões de anos.

Outras descobertas

Grande Adria não é o primeiro “continente perdido” a ser encontrado. Em 2017 foram descobertos, também, regiões ocultas sob as Ilhas Maurício, no Oceano Índico, e abaixo da Nova Zelândia, na Oceania.

Nas Ilhas Maurício a descoberta partiu de um detalhe que não se encaixava nas expectativas. O país africano é, em termos geológicos, razoavelmente jovem: não há pedras com mais de 9 milhões de anos no arquipélago. Pesquisadores encontraram, porém, rochas com mais de 3 bilhões de anos, o que levantou suspeitas de que uma massa de terra muito mais antiga poderia existir por perto.

Os estudos mostraram que, apesar das Ilhas Maurício terem sido formadas por erupções vulcânicas recentes, há traços de rocha continental que vão de Madagascar até a Índia, vestígios deixados por sucessivas fraturas em Gondwana. O continente foi batizado de Mauritia.

A Zelândia, por sua vez, foi encontrada logo a leste da Oceania, em uma região onde se imaginava haver apenas placas oceânicas e ilhas jovens, formadas por vulcões submersos. A pesquisa descobriu, porém, características típicas de placas continentais: menor profundidade em relação ao oceano, composição diferenciada das rochas, além de uma crosta mais grossa e menos densa.

O continente é o mais recente entre todos os descobertos até agora, com 85 milhões de anos, e tem sua área quase toda submersa, à exceção da Nova Zelândia, da Nova Caledônia e de arquipélagos menores. Apesar de ter sido confirmada como continente em 2017, a existência da Zelândia já havia sido proposta em 1995 pelo geofísico Bruce Peter Luyendyk.

Apenas nos últimos anos surgiram as inovações tecnológicas necessárias para encontrar e definir Grande Adria, Zelândia e Mauritia como continentes. É provável, portanto, que o avanço dos estudos nestes locais e o aprimoramento das ferramentas ajudem na descoberta de ainda mais continentes ocultos.