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Dois anos do desabamento do Edifício Andréa: entre a dor e a chance de recomeçar

Localizado na rua Tibúrcio Cavalcante, bairro Dionísio Torres, em Fortaleza, o Edifício Andrea desabou na manhã do dia 15 de outubro de 2019, deixando nove pessoas sem vida e outras sete feridas
20:39 | Out. 14, 2021
Autor Marília Serpa
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Tipo Notícia

O dia 15 de outubro de 2021 marca os dois anos do desabamento do Edifício Andréa, localizado na rua Tibúrcio Cavalcante, no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza. O incidente vitimou nove pessoas e deixou outras sete feridas. Para aqueles que perderam familiares na tragédia, a data é lembrada com profundo pesar. Para quem recebeu uma segunda chance de vida, o dia é recordado como a oportunidade de um novo recomeço.

Uma das histórias de recomeço só foi possível graças a uma ida ao banco. Para poder sacar dinheiro, Clotário Sousa Nogueira, 79, e Ana Maria Ramos Nogueira, 75, saíram de casa e não estavam no prédio no momento do desabamento. Moradores da cobertura do edifício há quase 40 anos, o casal deixou o local cerca de dez minutos antes, sem fazer ideia de que aquela simples saída seria responsável por salvar suas vidas.

Eles dividiam o apartamento de dois andares com a filha, o genro e a neta, que também não estavam em casa no momento do incidente. De acordo com outra filha do casal, Cibele Nogueira, não era do costume dos pais sair pela manhã e, geralmente, Clotário resolvia questões de idas ao banco sozinho, mas há exatos dois anos, antes das 10h20min, horário do desabamento, ele insistiu que a esposa fosse junto.

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“Eles saíram pela força de Deus, não era algo da rotina deles. A minha mãe nunca sai com ele para o banco, eles tinham saído porque meu pai tinha esquecido a carteira na casa deles em Horizonte. Só quem podia sacar dinheiro era minha mãe, então ele insistiu para que ela fosse. Foi Deus quem tirou eles de lá, eu tenho certeza”, conta Cibele, que também foi moradora do edifício junto com os pais desde os 15 anos.

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Nutricionista no Hospital e Maternidade Venâncio Raimundo de Souza, no município de Horizonte, Cibele diz que foi avisada sobre o desabamento enquanto estava trabalhando na unidade, tendo certeza, pelo horário que aconteceu, que os pais estavam em casa e tinham morrido. A notícia foi dada por um tio dela que, chorando, ligou informando que o edifício tinha desabado.

“Eu tinha acabado de receber uma foto no WhatsApp de um prédio que tinha caído, mas nem prestei atenção. Quando meu tio me ligou, eu entendi que era o prédio dos meus pais. E foi aí que eu pensei que eles estavam lá, já que eles não costumam sair durante o dia. Como era de manhã, eu tinha certeza que eles estavam em casa”, explica a nutricionista.

Após ser avisada, Cibele ligou para a irmã que morava junto com os pais, mas não foi atendida. Ela também tentou entrar em contato com eles, sem obter sucesso. A falha na comunicação aumentava a certeza de que os familiares poderiam estar entre os escombros do prédio, sendo necessário que alguém a trouxesse de Horizonte para Fortaleza, pois ela se encontrava em estado de choque e incapaz de dirigir.

“Quando eu estava saindo de Horizonte, uns 20 minutos depois que recebi a notícia, já tendo a certeza que eles estavam mortos, a minha irmã ligou para mim dizendo que a nossa mãe tinha ligado do banco informando que eles estavam lá e que tinham saído do prédio cerca de dez minutos antes dele desabar.”

Para Cibele, nenhum de seus familiares estar em casa no momento do desabamento pode ser explicado como um grande milagre. Hoje, a nutricionista diz que é impossível esquecer da data, porque ela marca uma segunda chance de vida que foi dada aos seus pais, irmã, genro e sobrinha. Faltando poucos dias para que a tragédia completasse dois anos, ela conta que chegou a fazer uma publicação em suas redes sociais após ter passado em frente ao local que antes abrigou parte de sua família.

Atualmente, a filha, o genro e a neta do casal não moram mais com eles. De acordo com Cibele, os pais aprenderam com o recomeço e estão se adaptando a viver em um local mais simples quando comparado com a cobertura em que moravam antes. “Eles estão bem, estão tranquilos. Se readaptaram com uma vida mais simples, mas estamos felizes, apesar dos pesares. Graças a Deus que sobreviveram todos”, completa a filha.

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Profissionais que possibilitaram outros recomeços

A operação que possibilitou que sete pessoas fossem encontradas com vida após o desabamento durou cinco dias, sendo dividida em turnos, equipes e locais diferentes para que mais pessoas pudessem ser salvas. Outros sete recomeços foram garantidos graças ao trabalho árduo de profissionais que se dedicaram dia após dia ao trabalho de resgate das vítimas em meio aos escombros do Edifício Andréa.

Especialista em Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas e em Atendimento Pré-Hospitalar, a Tenente Carolina Holanda comandou uma das equipes de resgate que trabalhou durante os cinco dias de operação. Ele explica que, inicialmente, foi necessário fazer uma projeção da quantidade de pessoas que estavam no local do desabamento.

“Foi feita toda uma projeção de quantas vítimas estavam no local, bem como onde elas poderiam estar com a queda do edifício através de informações dos familiares e de uma projeção gráfica feita por engenheiros que trabalham no Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE)”, explica a tenente.

Ela relata que uma das partes mais difíceis do processo de resgate é a expectativa gerada nos profissionais durante as buscas, por causa do desejo de encontrarem o maior número possível de pessoas com vida. Uma vez que são encontradas, a parte mais desafiadora passa a ser o acesso a elas de forma a preservar a integridade tanto das vítimas como dos resgatistas.

Com relação às pessoas encontradas já sem vida, a tenente explica que era emitido um aviso ao comando da operação, que logo o repassava para a equipe de apoio psicológico. Esses profissionais exerciam outra função muito importante que era a de notificar a família e prestar todo o suporte necessário no local.

Carolina conta ter muitas memórias dos dias de resgate, mas uma, em especial, a marcou de forma profunda, bem como os demais profissionais no local que presenciaram. “Foi quando eu cheguei ao local com o cenário de destruição, e, nesse mesmo momento, uma equipe que já havia iniciado o trabalho estava fazendo a retirada de uma vítima com vida. Esse momento é inesquecível para todos que participaram da operação”, relembra.

A responsável por comandar uma das equipes de busca na época explica que conseguir salvar vidas é o que renova as forças durante o trabalho que, por tantas vezes, não é fácil em muitos aspectos. “O sentimento é de fazer sua parte para um mundo melhor, de dever cumprido e de gratidão por ter essa oportunidade”, conclui a tenente.

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Decisão da Justiça

A perícia concluiu que o prédio desabou da parte posterior para anterior, da travessa Hildete para a rua Tibúrcio Cavalcante. O perito criminal Fernando Viana, supervisor do Núcleo de Perícia em Engenharia Legal e Meio Ambiente da Perícia Forense do Estado do Ceará (Nupelm/Pefoce), lembra que as intervenções feitas momentos antes da queda do prédio foram inadequadas e definitivas para o acidente, mas já havia grave oxidação e fragilidade da estrutura.

Dessa forma, o inquérito policial acusa três pessoas da Alpha Engenharia LTDA pelo desabamento do Edifício Andréa, sendo dois engenheiros e um pedreiro. A Polícia Civil ouviu mais de 40 pessoas, entre sobreviventes e testemunhas. O trabalho de investigação iniciou quatro dias depois do desabamento, onde a perícia teve início, contando com dez peritos em engenharia. 

Antes de deixar o local para se dirigir ao banco com o marido, a idosa Ana Maria Ramos Nogueira, moradora da cobertura, chegou a notar que uma das colunas de sustentação do prédio estava sendo quebrada, sendo possível notar que, internamente, ela estava com os ferros tortos. O casal chegou a conversar com a síndica do prédio, Maria das Graças Rodrigues, na época com 53 anos, que acompanhava a intervenção. O corpo dela foi o último a ser encontrado pela equipe de resgate, quatro dias depois do desabamento.

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